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Universidade Federal de Goiás
Violência obstétrica capa

Vítimas nem sempre percebem situação de violência obstétrica

Por Luiz Felipe Fernandes Neves. Criada em 07/03/18 11:36.

Pesquisa da UFG avalia que agressões fazem parte da violência contra a mulher

Carolina Melo

Mesmo sendo vítimas de agressões durante o parto, mulheres não compreendem que sofreram violência obstétrica. Segundo uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos Qualitativos em Saúde e Enfermagem (Nequase) da UFG, situações de violências no pré-natal, parto e pós-parto imediato ocorrem e são mais comuns do que se imagina. No entanto, o momento de fragilidade e vulnerabilidade vivido pela mulher faz que a grande maioria não perceba que está vivenciando uma situação de violência.

"Elas pensam que faz parte do procedimento, que o profissional de saúde fez o que precisava ser feito, mesmo tendo a percepção de que tinha algo errado no parto, de que não foi legal, gerou constrangimento, medo e afirmando que 'o que sofreram não querem sofrer nunca mais'", disse a pesquisadora Vittória Braz de Oliveira Alves. Segundo ela, a maioria das 14 mulheres acompanhadas pela pesquisa ainda não soube explicar o que seria uma violência obstétrica.

As principais agressões relatadas, mesmo sem a percepção de que elas estavam ocorrendo, foram a psicológica e a física. A primeira manifesta-se por meio de pressão e humilhação nas falas dos profissionais. A física afeta tanto a mulher quanto o recém-nascido e normalmente se manifesta por meio de procedimentos que podem ser utilizados sem indicação e sem a adequada informação à grávida do que está sendo realizado. "Ambas as violências estão dentro de um cenário de violência contra a mulher, que ocorre não só pelas mãos dos homens, mas também de mulher para mulher, como reflexo das desigualdades nas relações de poder", afirma Vittória.

De acordo com o estudo, o cenário de violência começa a se delinear com um pré-natal falho, que não empodera a mulher com informações mínimas sobre o parto e pós-parto imediato. "Normalmente, são repassadas informações sobre exames, sono, pega e peso do recém-nascido. Ficam de fora, por exemplo, os sintomas de um trabalho de parto e suas fases", afirma a pesquisadora. Na avaliação do professor da Faculdade de Enfermagem e orientador da pesquisa, Marcelo Medeiros, uma das questões que são levantadas é a necessidade de se reformular o serviço de saúde para as mulheres durante o pré-natal. "A mulher tem o direito de saber, por exemplo, que ela pode ter um acompanhante durante o parto, prováveis procedimentos a serem utilizados na medida do necessário, quando eles são necessários e o que deve fazer caso ela se sentir coagida", ressalta.

Violência obstétrica

Profissionais admitem violência
O significado atribuído à violência obstétrica por médicos e enfermeiros vinculados à rede pública de saúde também foi investigado pelo Nequase da Faculdade de Enfermagem da UFG em pesquisa inédita no País. Segundo a pesquisadora Mayara Guimarães, a maioria dos profissionais acompanhados pelo estudo admitiu a violência como parte do cotidiano das unidades de saúde, apesar de negar a violência como fruto de sua própria ação. A outra parcela, no entanto, mencionou a terminologia como descabida, criada para degradar os profissionais.

Os médicos e enfermeiros mais antigos e tradicionais foram os que apresentaram dificuldades para entender o que seria a violência obstétrica, de acordo com o estudo. Eles também não demonstraram compreensão aprofundada sobre a humanização do parto. "Mostraram-se inflexíveis sobre as formas de assistência que não permitem autonomia à mulher e assumiram uma postura defensiva, negando a violência", afirma Mayara.

Mesmo entre os profissionais que reconheceram a violência obstétrica, não foram todos os tipos de agressões percebidas como práticas rotineiras. Além do abuso físico e verbal, a pesquisa também identificou um tipo de violência mais sutil e imperceptível, chamada de discriminação. "É aquela atitude que desqualifica a mulher, como se ela não fosse capaz de compreender o parto e sua condução", explica Mayara. De acordo com o estudo, a conduta do profissional se move entre atitudes que buscam a humanização no atendimento e ações que tentam minimizar o protagonismo da mulher, dando margens ao aparecimento das violências. "Os profissionais conseguem enxergar a violência mais gritante, como a física, mas não percebem as nuances de discriminação e também o tom de voz grosseiro".

Motivadores
A rotina, a alta demanda das unidades de saúde pública que exigem um atendimento rápido e um parto acelerado por procedimentos, a precariedade dos recursos humanos e físicos e a falta de capacitação foram alguns dos motivos elencados pelos profissionais como potencializadores das situações de violência. Outro condicionante citado foi a falta de informação da mulher sobre o período da gravidez, do parto e do pós-parto, resultado de um pré-natal falho.

"Os profissionais reclamam que a mulher não tem a compreensão sobre o que é um trabalho de parto, como e quando ele se inicia. Afirmam que elas chegam sem documentos e ali na emergência não têm tempo de orientá-las da forma adequada", afirma Mayara Guimarães. De acordo com a pesquisa, os profissionais sabem que a violência existe, vivenciam-na e, de alguma forma, naturalizam-na e a justificam como culpa da mulher. "Portanto, saiu nos resultados a culpabilização da mulher, ficando muito clara a violência de gênero".

Segundo o professor da UFG, Marcelo Medeiros, orientador de ambas as pesquisas, um caminho de rompimento desse cenário é a educação direcionada aos profissionais que atuam e aos acadêmicos. "Esse debate deve ser feito. A violência obstétrica é rotineira, banalizada. É preciso falar para poder perceber que ela, de fato, existe. É preciso falar para tentar minimizar sua prática", afirma.

Fonte: Ascom/UFG

Categorias: Sociedade edição 93