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Universidade Federal de Goiás
Saúde Mental Indígena

É preciso falar sobre saúde mental indígena

Criada em 21/12/18 12:45. Atualizada em 04/01/19 14:50.

Acompanhamento da saúde mental de jovens indígenas pode prevenir problemas como o suicídio e o alcoolismo, avaliam pesquisadores

Kharen Stecca

Poderíamos evitar problemas futuros, como o suicídio e o alcoolismo, na população indígena? “Provavelmente, se houvesse acompanhamento em saúde mental dessas populações, teríamos chances de evitar ou ao menos diminuir os casos”, afirma a pesquisadora Daniela Londe Rabelo Taveira, que acabou de concluir o doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Goiás (UFG). O doutorado é uma continuação da pesquisa do professor de Psiquiatria da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), Paulo Verlaine Borges e Azevêdo, também realizada no mesmo programa de doutorado, com orientação do professor Leonardo Ferreira Caixeta, da Faculdade de Medicina da UFG.

A pesquisa, iniciada em 2006 pelo professor Paulo Verlaine, avaliou indígenas da etnia Karajá para determinar a prevalência de transtornos mentais entre crianças de 7 a 14 anos de idade. A coleta de dados, realizada nas tribos, considerou a avaliação das crianças realizada pelos pais ou cuidadores e professores delas. Empregou duas metodologias de detecção de problemas mentais, para garantir os resultados. Concluíram que a prevalência dos transtornos é superior à encontrada em estudos nacionais e internacionais com populações não indígenas, porém, semelhante às taxas com populações indígenas mundo afora.

Saúde Mental Indígena

Pesquisa avaliou saúde mental de crianças de 7 a 14 anos (Fotos: Rafael Coxini)

A etnia Karajá não foi escolhida por acaso. Entre as populações indígenas às quais é possível ter acesso, é uma das que ainda preserva aspectos culturais dos seus ancestrais que viveram há 10 mil anos. “Há uma ideia estereotipada de que não existem problemas mentais entre indígenas. Que tudo se deve à violência do homem branco sobre eles. Nosso trabalho mostra que não. Uma cultura milenar, bastante preservada, também apresenta aspectos que demonstram que a saúde mental têm dimensões biológica, psicossocial e espiritual”, afirma Paulo Verlaine.

Segundo o pesquisador, a maior parte dos estudos com os indígenas é realizada com populações que já passaram por algum processo de aculturação, associado ao aumento na prevalência de transtornos mentais e que pode mascarar a real prevalência destes nessas populações. A intenção, segundo ele, é avaliar até que ponto as características biológicas e culturais podem influir na incidência de transtornos mentais. “Já sabemos que o lado biológico e o cultural estão interligados, estando superado na psiquiatria a dicotomia entre cultura e biologia na determinação dos problemas psíquicos. Por outro lado, não há como negar que os transtornos mentais são as causas das principais mazelas da saúde humana e entendê-los pode auxiliar muito nosso sistema de saúde, incluindo a população indígena”.

Na crença do povo Karajá esses problemas seriam espirituais. “Em nossa pesquisa não interferimos no que estava sendo feito com relação à religião, sendo que solicitamos que continuassem se tratando e se aconselhando com os pajés”, explicou. “Os adultos (pais e professores) aceitavam bem isso. Já os mais jovens riam, achando que isso não funcionava. Isso mostra que a cultura deste povo já está sendo muito atingida, o que é ruim para sua própria preservação”, afirma.

Atualmente, preocupa o aumento do número de suicídios entre os jovens Karajá. “Sabemos que a questão de saúde mental dos indígenas não se resume apenas ao lado biológico. As questões sociais são muito importantes. Mas, perceber que algumas pessoas podem ter maior predisposição para transtornos mentais, pode evitar desfechos trágicos como o suicídio”, avalia o professor Paulo Verlaine. “Com os dados colhidos com os indígenas em 2006, se tivéssemos tido a chance de tratar os pacientes em que detectamos transtornos, talvez hoje tivéssemos uma taxa menor de suicídios”, avalia.

Saúde Mental Indígena

"Fortalecimento cultural é a melhor forma de garantir a proteção das populações" 

Pioneira

A UFG é uma das primeiras universidades a realizar estudos em saúde mental com crianças indígenas. A pesquisa que foi realizada em campo pelo professor Paulo Verlaine, em seu doutorado e orientada pelo professor Leonardo Caixeta, teve também a participação da pesquisadora Daniela Taveira. Ela realizou  a análise de dados de uma parte do material colhido, em seu doutorado concluído em 2018. Os dados confirmaram os resultados encontrados pela pesquisa de Paulo Verlaine, mostrando uma incidência maior de transtornos mentais entre indígenas do que nos não-indígenas.

Os pesquisadores esperam que os resultados alcançados possam subsidiar políticas públicas de saúde mental para a população indígena que, segundo eles, pode e deve se beneficiar do tratamento psiquiátrico, bem como de terapias e outras intervenções. “Um aspecto que precisamos ressaltar é que o fortalecimento da cultura dos indígenas e seus valores, sem impor crenças ou modelos, é a melhor forma de garantir a proteção dessas populações também do ponto de vista da saúde mental”, afirma o professor Paulo Verlaine.

Uma visão de dentro

Rafaella Sandoval Coxini Karajá é estudante do curso de Direito da UFG e veio da Aldeia Fontoura, Ilha do Bananal, uma das aldeias Karajá. Preocupada com a forma como a saúde mental é tratada nessas populações, propôs-se a fazer um artigo jurídico como trabalho de conclusão de curso (TCC) para tratar esse tema.

Segundo Rafaella, de acordo com informações orais colhidas com as comunidades Karajá de Santa Isabel do Morro e Fontoura (as duas maiores aldeias da etnia) e também com outras etnias indígenas, o número de suicídios é elevado. “Entre os Karajá, pelo tamanho da aldeia, o número é muito alto. Em uma população de cerca de 1.800 pessoas tivemos 6 suicídios entre pessoas jovens, dos 12 aos 30 anos”.

O censo do Ministério da Saúde não diferencia os tipos de óbitos. Nos dados não constam se a morte foi por suicídio ou causada por alcoolismo, por exemplo. Rafaella defende que o censo deve deixar claro como ocorreram essas mortes. “É preciso dizer que determinados óbitos podem ter sido ocasionados por doenças mentais e podem ser casos de suicídio, pois isso não está sendo dito”, afirma Rafaella.

Tal qual os pesquisadores Paulo Verlaine e Daniela Londe ressaltam, ela destaca que é preciso compreender o problema de saúde mental, entendendo também como funciona a cultura indígena. Ela cita um exemplo específico: “Os Karajá riscam o corpo em rituais e isso não é visto por nossa cultura como tortura, mas como um ritual de purificação. E isso precisa ser levado em conta quando se estuda essa população”.

Saúde Mental Indígena

"As pessoas não sabem o que é saúde mental na comunidade"

No entanto, ela também destaca o papel do contato com populações não-indígenas. “Esse contato tem afetado as populações, por exemplo pelo consumismo. Nas aldeias isso também é reproduzido. Existe insatisfação com questões econômicas e com o que é reproduzido pelo discurso dos não-indígenas sobre os indígenas”.

Ela também acredita que a melhor forma de garantir o bem-estar dessa população é a preservação dessa cultura. “Os idosos não estão mais conseguindo transmitir para os jovens os rituais e os valores indígenas. Os jovens não querem mais aprender sobre a cultura indígena, como ocorria há 10 anos atrás, por exemplo. E o governo não está fazendo nada para que ocorra a valorização da cultura indígena”.

Um outro problema diferente que Rafaella detecta é a percepção cultural sobre a saúde mental. “As pessoas não sabem o que é saúde mental na comunidade. Elas não sabem o que é depressão, como fazer o tratamento. O pajé diz que são espíritos, coisas ruins e não se trata isso adequadamente. Para ela, a única forma de resolver essa questão é formar indígenas na área de saúde, para que eles possam trabalhar com essa população. Ela também acredita que é preciso criar meios para que esses tratamentos cheguem às comunidades, para que os médicos possam atender nas aldeias e não trazer indígenas para tratamento fora de seu local de origem.

Categorias: Saúde