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Universidade Federal de Goiás
Mesa redonda depressão e suicidio

Acolhimento pode prevenir o suicídio

Criada em 28/08/19 15:10. Atualizada em 28/08/19 16:11.

Depressão e suicídio são temas de discussão em seminário na Faculdade de Educação

Gustavo Motta

A depressão é uma doença que afeta 322 milhões de pessoas em todo o mundo, o que equivale a 4,4% de toda a população. No Brasil, o percentual registrado está acima da média global - segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 11,5 milhões de brasileiros sofrem com algum tipo de transtorno depressivo, o que equivale 5,8% do total. Entre os quadros depressivos, têm ganhado atenção os casos em que existe tendência ao suicídio, o que exige a atenção multidisciplinar de profissionais para o enfrentamento às causas e consequências desse adoecimento.

Por isso, o Núcleo de Pesquisas e Estudos em Violência, Infância, Diversidade e Arte da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (Nevida/FE/UFG) realizou o Seminário Depressão e Suicídio - Acolhimento e Prevenção, promovido em parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV), juntamente com o Instituto Olhos da Alma Sã e o Instituto Federal de Goiás (IFG). A abertura do evento, que ocorreu no último dia 27 no Miniauditório da Faculdade de Educação (FE/UFG), contou com a realização de uma apresentação musical e uma mesa de abertura.

Tocando em frente

Enquanto o espaço do miniauditório era gradualmente ocupado pela presença de estudantes, professores e pesquisadores, os musicoterapeutas Fernanda Ortins Silva e Jefferson Pereira da Silva, acompanhados por um violão, realizaram uma apresentação musical. Entre as canções do repertório, músicas conhecidas, como “Tocando em frente” (Almir Sater e Renato Teixeira) e “Tente outra vez” (Raul Seixas), foram acompanhadas pelas palmas e pelas vozes dos participantes, que se tornaram uma plateia. O momento de “quebra gelo” permitiu uma aproximação afetiva entre os participantes, por meio da música.

Fernanda Ortins Silva e Jefferson Pereira da Silva
Fernanda Ortins Silva e Jefferson Pereira da Silva, acompanhados de um violão, conduziram a apresentação musical da abertura. (Fotos: Carlos Siqueira)

Não poderia ser diferente, uma vez que a professora da FE/UFG Silvia Zanolla destacou a importância do cuidado e do acolhimento nas relações pessoais, especialmente no espaço acadêmico, repleto de pressões e cobranças que podem ocasionar um quadro de adoecimento. “O acolhimento é uma forma de prevenção ao suicídio”, destacou. Junto à docente, integraram a mesa-redonda de abertura, os professores Carlos Cardoso Silva (FE/UFG) e Sandro Henrique Ribeiro (IFG), além de Manoel Messias de Jesus, voluntário do CVV, e Jorge Monteiro Lima, membro do Instituto Olhos da Alma Sã.

Mesa depressão e suicidio
Da esquerda à direita: Jorge Monteiro Lima (Instituto Olhos da Alma Sã), Silvia Zanolla (FE/UFG), Sandro Henrique Ribeiro (IFG), Carlos Cardoso Silva (FE/UFG) e Manoel Messias de Jesus (CVV)

Perda de estabilidade

O professor Carlos Silva apontou que, embora o suicídio seja considerado um ato de retirada da própria vida, trata-se de um “esforço para se livrar de uma dor muito intensa e prolongada”. Conforme o convidado, essa dor é provocada pelas crises existenciais que podem ser causadas por uma variedade de motivos, sendo que um deles é a percepção de que os tempos atuais vêm acompanhados por um sentimento de insegurança e instabilidade. Para Sandro Ribeiro, essa sensação é decorrente da superficialidade e fluidez com que ocorrem as relações pessoais e se manifestam as identidades atuais, em um mundo no qual as relações e atividades humanas ocorrem em tempos cada vez menores.

“Os significados que associamos às nossas rotinas, trabalhos e consumos têm se redefinido, em especial porque somos constantemente condicionados à flexibilidade e adaptação ao meio”, adicionou o professor do IFG. Ao contrário disso, Sandro Ribeiro aponta que havia uma antiga sensação de estabilidade, segurança e pertencimento à localidade, grupos e comunidades, que se perdeu nos tempos atuais. Nesse contexto, a OMS registrou, entre 2005 e 2015, um aumento de 18% em casos de depressão - e a mesma instituição relatou em 2018 que o suicídio é a segunda principal causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos.

“Em determinado estágio desse sofrimento, que pode ser provocado pela perda de segurança, sentidos e pertencimento, ele começa a ser externalizado - um exemplo disso ocorre com adolescentes que se mutilam”, adicionou Carlos Silva. Conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicação da American Psychiatric Association, os casos de depressão incluem transtornos de desregulação do humor. “Existe a sensação de vazio e distanciamento do indivíduo em relação à realidade e seu meio”, explica. Assim, a percepção de outras pessoas pode ser fundamental ao tratamento da doença e prevenção ao suicídio - enquanto a ausência dessa percepção pode acentuar o problema.

Em todas as idades

“O adoecido se percebe cada vez mais distante da realidade, excluído dos grupos de convivência”. Conforme o professor, a sensação de exclusão reforça o quadro depressivo em idosos, visto que a terceira idade pode representar rupturas com rotinas de trabalho e vida sexual. Conforme Pesquisa Nacional de Saúde divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2014, a faixa etária com maior percentual de quadros depressivos (11,1%) está entre 60 e 64 anos.

“No caso de adolescentes, levar uma bronca e ser comparado com outro jovem pode ser muito negativo, pois o indivíduo sente que não está sendo aprovado pelo coletivo”, alertou. Além disso, esse modo de abordagem pode inibir o diálogo familiar, o que dificulta a percepção de um transtorno depressivo. “O indivíduo dá sinais de que algo não vai bem, mas isso pode passar despercebido, ou o jovem pode ter receio de se manifestar a respeito  - por medo, já que a depressão ainda é tratada como um assunto tabu nos núcleos familiares”, adicionou.

Nesse sentido, o voluntário do CVV Manoel Messias lamentou que transtornos mentais estejam atingindo pessoas cada vez mais jovens: “Nos preocupa muito que garotos com dez, quinze anos de idade, nos liguem contando que estão desiludidos com a vida - conversando conosco porque não se sentem confortáveis para expor seus sofrimentos às próprias famílias”. Nacionalmente, a instituição filantrópica recebe cerca de dez mil ligações por telefone a cada 24 horas, com objetivo de exercer o diálogo com prevenção ao suicídio. Desse total, em cerca de 10% dos casos a pessoa no outro lado da linha afirma ter intenção de se matar.

A instituição estima que sejam recebidas cerca de 3,4 milhões de ligações por ano, discadas por pessoas de todas as idades. “Infelizmente, temos apenas 3.200 voluntários, o que impede que mais pessoas sejam atendidas - calculamos uma perda de cinco mil por dia”. No entanto, Manoel Messias comemora toda ligação que é encerrada com um agradecimento. “Nos emociona quando uma pessoa que pretendia se matar termina a conversa, mesmo após minutos de silêncio, dizendo obrigado, pois encontrou algum sentido para continuar a viver”.

Tabu

Silvia Zanolla aponta que depressão e suicídio ainda são temas considerados tabus, ou seja, que são evitados por serem encarados como desconfortáveis. Nesse sentido, a professora alerta que “refletir sobre as causas de nosso adoecimento e encontrar modos de resistir a elas é de extrema urgência”. Entre essas causas, as relações pessoais, e os momentos políticos-institucionais podem refletir no estado de saúde mental dos indivíduos, o que exige a formação de uma consciência coletiva de atenção à depressão e prevenção ao suicídio.

O enraizamento dessa consciência coletiva ocorre, entre muitos modos, pela superação do preconceito sobre doenças mentais, o que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) caracteriza como psicofobia. “Infelizmente, a depressão ainda é vista por muitos como preguiça, ou como algo diabólico, místico - que não exige atenção de um profissional de saúde”. Nesse sentido, a especialista acredita que a conscientização de amigos e familiares deve ocorrer com o objetivo de fornecer condições para que o indivíduo com depressão seja compreendido em sua dor e acolhido na coletividade de seus núcleos de convivência.

“Por isso, as áreas da saúde e a educação precisam caminhar juntas, em ações de formação e conscientização”, adicionou. Isso porque o silêncio dificulta o acesso à informação, que impede possibilidades de tratamento e prevenção. Entre essas possibilidades, Silvia Zanolla aponta o exercício cotidiano da qualidade de vida, “que consiste em atribuir sentido e valor a tudo que realizamos, lidando sempre com o presente”, em oposição ao distanciamento da realidade e à falta de sentidos no dia-a-dia, que podem ocasionar transtornos como a depressão.

Ansiedade

Para Jorge Monteiro Lima, membro do Instituto Olhos da Alma Sã, embora a ansiedade não seja uma doença mental tão discutida quanto a depressão, os números de casos em que se registra esse transtorno são alarmantes. Segundo a OMS, o Brasil é o país campeão em ansiedade: esse quadro foi registrado em 9,3% da população, o que corresponde a cerca de 18,6 milhões de pessoas afetadas por essa doença. “Estamos realizando um levantamento com cerca de cinco mil atendimentos realizados, ainda sem data de divulgação, mas posso afirmar que cerca de 40% dos nossos pacientes com ansiedade já tentaram suicídio”, lamentou.

Além da ansiedade, o especialista pontuou outras possíveis causas para o suicídio. Em diálogo com o que foi destacado por Sandro Ribeiro, Jorge Lima apontou entre fatores de risco, o que chamou de “perda de identidade”, a incapacidade de o indivíduo atribuir sentidos à sua existência; além do fanatismo religioso ou ideológico, especialmente na atualidade nacional, em que as divergências políticas têm acentuado conflitos de convivência social. “Infelizmente, a incapacidade para dialogar com o diferente tem adoecido nossa população, e levado muitos ao suicídio”, lamentou.

Seminário - depressão e suicidio
Seminário Depressão e Suicídio - Acolhimento e Prevenção contou com participação de professores, estudantes e pesquisadores

 

Fonte: Secom/UFG

Categorias: Saúde