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Universidade Federal de Goiás
Guilherme Casarões

PANORAMA

Criada em 27/03/20 14:14. Atualizada em 27/03/20 14:22.

Bolsonaro e a Covid-19: esse tal de isolamento social

Guilherme Casarões *

Guilherme Casarões

Vamos chamar as coisas pelos nomes corretos.

"Isolamento/lockdown vertical", termo que viralizou num vídeo do empresário Tallis Gomes e que provavelmente baseou a explicação do presidente no Alvorada, nada mais é do que a estratégia do "efeito rebanho" para conter epidemias. Conhecida em inglês como "herd immunity", essa estratégia parte do princípio de que a contaminação de grande parte da população levará à imunização coletiva, acabando rapidamente com a epidemia. Essa foi a primeira resposta do Reino Unido ao coronavírus.

A medida é eficaz para doenças para as quais as pessoas possam criar anticorpos rapidamente. É o caso da catapora, a que pessoas em geral tornam-se imunes na infância, evitando efeitos mais graves adiante. Hoje, a imunidade coletiva é atingida pela vacinação.

Mas isso não faria sentido para a Covid-19, por algumas razões:

1) Ninguém já é imune à doença, o que significa que ela se espalharia por quase toda a população;

2) Não há certeza sobre recontaminação;

3) Qualquer mutação do vírus dificultaria a estratégia de imunização.

Por isso mesmo, vários estudos mostraram que o premiê britânico, Boris Johnson, ia pelo caminho errado. O mais chocante é o do Imperial College London: mesmo com medidas de mitigação (escolas fechadas, eventos cancelados, idosos isolados, etc), o número de mortos no Reino Unido poderia chegar a 250 mil em poucos meses.

O estudo foi o suficiente para Johnson mudar rapidamente para uma estratégia de supressão total (quarentena). Ela vem sendo adotada ao redor do mundo, inclusive de maneiras drásticas, como na Índia, que colocou nada menos que 1.3 bilhão de pessoas dentro de casa. Contra todas as evidências científicas, Bolsonaro propõe deixar os "jovens" em contato com a Covid-19, para a economia não parar, e isolar idosos e grupos de risco.

Voz indispensável nesse debate, o biólogo Átila Iamarino fez uma transposição do estudo britânico para o Brasil. Os dados assustam: mesmo com medidas de mitigação (isolar grupos de risco, mas deixar a "vida normal"), há a possibilidade de 1 milhão de mortos nos próximos meses. A conta é a seguinte: se 60% dos 180 milhões de brasileiros fora do grupo de risco se contaminarem, teremos algo como 110 milhões portadores do coronavírus. Considerando uma mortalidade de 1% (que, claro, é uma estimativa, pois ela tem variado de país para país), o número bate.

No nosso caso, a situação tende a se agravar graças à rápida sobrecarga do sistema de saúde. O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, alertou que teremos o colapso da nossa estrutura de saúde em meados de abril. Essas cifras parecem muito distantes da realidade porque temos, até aqui, 59 mortos. Mas temos que lembrar que, 8 dias atrás, só uma pessoa havia morrido. A evolução da doença - e, portanto, das vítimas - é exponencial.

O gráfico de ontem já está desatualizado, infelizmente. Para corroborar a tese do "isolamento vertical", Bolsonaro postou um vídeo de um apoiador no Japão, mostrando as ruas movimentadas e o comércio aberto. Deve-se ressaltar que a proposta do presidente nada tem a ver com o que foi feito pelo governo japonês, tido como exemplo do sucesso no combate à Covid-19.

1) O Japão tomou medidas duras de mitigação no início da epidemia, fechando escolas e adiando eventos, o que permitiu o "achatamento da curva";

2) O Japão possui traços culturais (higiene e distanciamento social) que dificultam a proliferação do vírus;

3) O Japão tem um dos sistemas públicos de saúde mais preparados e estruturados do mundo;

4) Para manter a calma social, foram feitos relativamente poucos testes no país - decisão política criticada por médicos japoneses e estrangeiros.

Há quem diga que o Japão acaba omitindo a real situação epidemiológica para manter a economia funcionando. Ainda assim, tomaram a medida drástica de adiar as Olimpíadas para 2021. Dois dias atrás, diante do crescimento de casos, a prefeita de Tóquio disse que considera fechar a cidade para segurar a epidemia. É bem possível que, nos próximos dias, a situação da capital japonesa fique mais parecida com a de São Paulo do que o contrário.

Por isso mesmo, temos que nos conscientizar. Por tudo o que está ocorrendo no mundo, a opção do "retorno à normalidade" para a maioria das pessoas, como Bolsonaro sugere, é perigosa, irresponsável e potencialmente destrutiva, desafiando as melhores práticas globais de saúde pública. Digo isso com consciência do meu privilégio de poder trabalhar de casa e dar todas as condições para que meus filhos estudem, mesmo em quarentena. Sei que as soluções são dificílimas e exigirão sacrifícios de todos.

Ainda assim, o governo não pode se furtar de fazer parte da solução. Em cooperação com estados e municípios, cabe ao presidente trazer propostas de estímulo da economia que aliviem o drama dos trabalhadores autônomos, informais e terceirizados, em situação de vulnerabilidade, além de estimular os negócios de pequenas e médias empresas.

Essa discussão já está sendo feita pelos melhores economistas do Brasil e transcende posições ideológicas ou político-partidárias. Nesse meio tempo, se possível, permaneçam em casa. Não se animem com os arroubos matinais do presidente e ouçam, sempre, as recomendações oficiais das autoridades de saúde.

Não é com bravatas que se fará o combate ao coronavírus. Nem com opiniões de Whatsapp.

Guilherme Casarões é Vice-Coordenador da Graduação em Administração Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e Professor da FGV nas áreas de Administração Pública, Ciência Política e Relações Internacionais e escreve a convite da coluna. 

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

Fonte: Secom UFG

Categorias: colunistas FCS Relações Internacionais