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Universidade Federal de Goiás

MESA-REDONDA: Escolas criativas estimulam a inovação educacional em prol da cooperação

Criada em 24/07/14 11:45. Atualizada em 21/08/14 11:47.

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Publicação da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Goiás 
ANO VII – Nº 66 – Agosto – 2014

Escolas criativas estimulam a inovação educacional em prol da cooperação

Texto: Equipe Ascom e TV UFG | Foto: Carlos Siqueira

Em um contexto no qual a educação no Brasil recebe constantes críticas quanto à falta de investimentos, eficiência e alcance na formação dos cidadãos, muitas alternativas para a reformulação de projetos pedagógicos e de metodologias de ensino têm se difundido no meio educacional do País. Uma das alternativas que tem chamado atenção de pesquisadores são as escolas criativas, instituições de ensino que recriam concepções, fundamentos, valores e práticas por meio da transdisciplinaridade e da ecoformação. As escolas criativas também defendem a adoção de valores essenciais para a convivência, como solidariedade e cooperação entre indivíduos. Para falar sobre o assunto, o Jornal UFG e o programa Conexões, da TV UFG, reuniram três pesquisadoras da Rede Internacional de Escolas Criativas (Riec): as professoras do Centro Universitário Barriga Verde (Unibave), da cidade de Orleans, Santa Catarina, Marlene Zwierewicz; da Escola Vila de Fortaleza, Ceará, Patrícia Limaverde, e da Universidade Federal de Goiás (UFG), Marilza Vanessa Rosa Suanno.

O que são as escolas criativas e como funciona a Rede Internacional de Escolas Criativas (Riec)?

Marilza Suanno: Essa rede é composta por pesquisadores atuantes em vários países, sob coordenação do Grupo de Assessoramento Didático, da Universidade de Barcelona, liderado pelo professor Saturnino de la Torre. Nós da Riec identificamos escolas que possuam vivacidade e energia produtiva como diferencial. Esses tipos de escolas são denominadas criativas. Em parceria com o professor Saturnino de la Torre, a professora Marlene Zwierewicz produziu a primeira pesquisa no Brasil sobre esse assunto, que resultou em um livro. Temos expandido essa pesquisa a vários Estados para identificar escolas que conseguem romper com a lógica disciplinar tradicional, que fragmenta o conhecimento por disciplinas, horários ou livros didáticos. Queremos identificar como os educadores promovem o diálogo entre disciplinas e constroem projetos nos quais os sujeitos não somente absorvem conteúdos, mas pensam as relações que os temas de estudo apresentam entre si. Constatamos, nos eventos que já produzimos, que as escolas têm uma relação com a comunidade de seu entorno, muitos professores têm energia produtiva e que os ambientes podem se tornar mais criativos a partir de uma liderança. A nossa concepção de criatividade é que os espaços e as oportunidades nos tornam mais criativos. A criatividade não é inata do sujeito, cada um desenvolve esse potencial.

Marlene Zwierewicz: A ideia das escolas criativas não propõe a criação de um novo modelo, mas sim a iniciativa de potencializar o que já existe de criativo e transdisciplinar nas diferentes instituições e níveis educacionais (da educação infantil à pós-graduação). Propomo-nos a encontrar programas que possuam viés criativo, transdisciplinar e ecoformador, com indícios de criatividade para poten cializá-los. Portanto, a ideia da Rede Internacional de Escolas Criativas é perceber o que já existe e valorizar, por meio de publicações, eventos e seminários, o que os educadores talvez nem perceberam que já estão fazendo de criativo.

Patrícia Limaverde: O que acho importante em relação às escolas criativas, não é somente a criatividade pela criatividade, a inovação pela inovação. Por trás dessas propostas inovadoras, criativas e transdisciplinares, há um propósito que é a formação de sujeitos transformadores, criativos e inovadores. Há uma demanda da sociedade para que instituições comecem a ser transformadas por indivíduos congregadores, a partir de habilidades desenvolvidas. As escolas criativas permitem o desenvolvimento do indivíduo criativo e atuante no mundo.

Como, a partir dos conceitos de ecoformação e interdisciplinaridade, é possível formar cidadãos mais capacitados para intervir no mundo?

Mesa Redonda Marlene

Marlene Zwierewicz: A transdisciplinaridade parte da perspectiva de trabalhar a ligação existente entre diversos tipos de conhecimento por meio de projetos que conseguem conectar os conhecimentos já institucionalizados com os encontrados na própria vida. Nicolescu Basarab tem um conceito bastante claro sobre a transdisciplinaridade, ele diz que transdisciplinar é o que está além, entre as disciplinas e, portanto, o que está entre as descobertas a serem feitas pelas ciências são as demandas que a escola criativa contribui para perceber. Já a ecoformação se concentra no momento em que conectamos o conhecimento também à realidade que nos cerca, na perspectiva de trazer preocupações relacionadas ao planeta Terra e à vida. Nisso, existem três preocupações centrais: o bem-estar individual, o bem-estar social e a preocupação ambiental. A escola criativa propõe esses tipos de discussões, porque acredita que não é possível educar sem perceber que a educação tem um papel extremamente relevante para iniciativas em prol da preservação.

Marilza Suanno: É interessante perceber que as escolas têm seguido por caminhos distintos para entender que o ser humano precisa ser educado para além da cognição. Pensar na formação do ser humano é pensar a partir de uma razão sensível; significa educar para a formação de conceitos, para a capacidade de leitura crítica da realidade e para ser capaz de construir uma reflexão transformadora propositiva, mas conduzindo o sujeito a pensar em seus valores e sua postura em relação ao mundo. Na escola criativa, os indivíduos se transformam, porque começam a se preocupar com a coerência da sua relação com o meio ambiente. Preocupam-se com a alimentação, o modo de ser, as próprias prioridades nesse mundo que nos atropela com tanto trabalho, correria e atividades e também com o tempo necessário para estar em contato com a natureza. Essas escolas estão formando sujeitos capacitados a rever valores, princípios e opções.

Patrícia Limaverde: A escola moderna investiu muito na fragmentação dos conteúdos das disciplinas. A partir do momento que ocorreu essa fragmentação, houve o deslocamento dos contextos. A transdisciplinaridade busca as conexões entre o conhecimento e as condições para que esse conhecimento proporcione a transformação do contexto social. As escolas criativas consideram o que está além de seus muros e procuram fazer a conexão entre conteúdos diferentes. Isso reintegra o sujeito, porque se estamos diante de coisas descontextualizadas, sem um sentido real perceptível para o sujeito que está em formação, acabamos valorizando demais o aspecto cognitivo intelectual em detrimento das habilidades sociais, das emoções e dos sentimentos. A transdisciplinaridade permite a inclusão de outros conhecimentos como os populares, os artísticos, o autoconhecimento e a espiritualidade.

O que pode ser dito sobre os exemplos de escolas criativas em Santa Catarina?

Marlene Zwierewicz: Ao norte de Santa Catarina, temos o exemplo da Universidade Regional de Blumenau (Furb). Ao sul, na cidade de Orleans, há o Centro Universitário Barriga Verde (Unibave), e outras instituições em Gravatal e Urussanga. Há também o exemplo da rede municipal de Balneário Rincão que é interessante, porque todas as escolas municipais estão envolvidas na busca pela valorização da criatividade. Um dos projetos que tem se destacado é o de reconstruir a identidade desse município, uma vez que ele foi recentemente emancipado e a população busca criar um vínculo de pertencimento frente a essa realidade e descobrir qual a vocação do município. Antes pensávamos: qual é a responsabilidade da educação com a organização da cidade? Por meio da escola criativa, percebemos a vinculação do conhecimento com a realidade. Uma das potencialidades do município, percebida no decorrer das pesquisas desenvolvidas por crianças do primeiro ao quinto ano, foi o reaproveitamento do papel. Uma das metas estabelecidas no projeto elaborado por professores, estudantes e gestores de uma escola foi a de ter ao final de um ano o reaproveitamento de 100% do lixo de papel. Todo papel foi destinado a uma fábrica que se transformou em uma agente ambiental valorizada pelas crianças. No início de 2014, foram organizados novos projetos, cuja meta das escolas é ter, além do papel zero, o plástico e o lixo orgânico zero.

Professora Patrícia, como a Escola Vila, no Ceará, funciona?

Mesa Redonda Patrícia

Patrícia Limaverde: A Escola Vila iniciou seu trabalho em 1981 e oferece educação infantil e ensino fundamental até o nono ano. É uma escola transdisciplinar e os conteúdos são aplicados no cotidiano da escola a partir de aulas em laboratórios. Ao todo, são oito laboratórios e cinco aulas integrativas. A qualquer momento, podemos encontrar na Escola Vila mais alunos fora da sala de aula do que dentro, porque eles estão sempre nesses espaços aplicando seus conteúdos disciplinares. Por exemplo, no laboratório de horta, pomar, farmácia viva e jardim, eles plantam; calculam áreas; estudam o princípio ativo de determinada erva medicinal, o valor nutritivo, o nome científico de determinada fruta ou hortaliça e o preparo desses alimentos. Cada turma cuida de uma cultura de erva medicinal, de hortaliça, do pomar ou do jardim. O objetivo é reaproximar o ser humano ao contato com os elementos da natureza. Outro exemplo é o laboratório de manutenção de ambientes, onde é ensinado como deixar o ambiente sempre limpo e harmônico; pequenos consertos hidráulicos e elétricos; como consertar uma cadeira e também como reparar uma camisa. Há também o laboratório de fauna com vários animais: um bode, uma cabra, uma jumenta, tartarugas, coelhos, patos, galinhas. Os estudantes criam um laço com esses animais. Tem ainda o laboratório de tecnologias alternativas, onde estudam reciclagem, e o forno solar para secar alimentos e outros.

Professora Marilza, quais são os exemplos de escolas criativas em Goiás?

Mesa Redonda Marilza

Marilza Suanno: O primeiro exemplo de escola criativa identificado em Goiás foi o Colégio Logosófico de Goiânia que trabalha a pedagogia logosófica. O que essa escola oferece e que nos pareceu importante para a formação do ser humano é a forma como conduz a formação do sujeito, sensibilizando-o a olhar para si mesmo. A escola educa as crianças para a reflexão e o autoconhecimento, para dialogarem sobre valores e princípios. É uma escola na qual os estudantes apresentam um ótimo resultado na aprendizagem dos conteúdos que estão no currículo e também aprendem a se conhecer e a se tornar pessoas potencialmente mais equilibradas. Outro exemplo é o Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) da UFG. Esse é um colégio complexo por oferecer educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, além da formação de professores por meio do mestrado em Educação. Destacaria também o trabalho do estágio transdisciplinar desenvolvido pela unidade de Inhumas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que possui um projeto para estudantes de Pedagogia a partir de uma parceria entre a universidade e a escola. A intenção é que o estagiário identifique e os ajude a perceber as potencialidades naquela escola. O primeiro movimento é este, identificar o que aquela escola tem desenvolvido.

Seria possível aplicar o modelo de escolas criativas no ensino público brasileiro em larga escala?

Marilza Suanno: É preciso que fique bem claro que não existe um modelo de escola criativa. Temos alguns indicativos de como identificar uma escola que tenha características de dialogar com o mundo e a atualidade. São escolas que criam, produzem e que se reinventam. Elas já existem, mas precisamos identificar o potencial de cada uma e, a partir disso, elaborar projetos ecoformadores para romper com a fragmentação do conhecimento. Sim, temos como fazer isso em larga escala. O grande problema é que as políticas pedagógicas são impostas.

Patrícia Limaverde: Trabalhamos com escolas particulares e da rede pública. Já trabalhamos com todas as escolas da rede municipal da cidade Cruz, no interior do Ceará. Sempre buscamos, a partir do contexto de cada escola e região, fazer com que as escolas consigam realizar seus próprios projetos. Acho que é uma iniciativa extremamente emancipadora, capaz de causar grandes repercussões em um país.

Essas escolas conseguem suprir a expectativa dos pais quanto à aprovação de seus filhos no Vestibular ou às metas educacionais estabelecidas pelos governos?

Marlene Zwierewicz: Se resumirmos o conceito criado pelo Saturnino de la Torre de que escolas criativas são escolas que recriam, transcendem, valorizam e transformam a realidade ao redor, então elas podem estar em qualquer lugar. Contudo, uma das grandes preocupações dos pais é se elas dão conta do conteúdo e de fazer com que ele tenha sentido para as crianças. Grande parte dos conteúdos que recebemos, a partir de um ensino voltado para a memorização, escapam-nos da memória, porque, nesses casos, preparamos-nos para uma avaliação pontual. O objetivo das escolas criativas é justamente o contrário: que apropriemos sim dos conhecimentos historicamente acumulados, mas que encontremos sentido nesses conhecimentos e os ressignifiquemos para poder intervir na realidade. Em função de todo o avanço tecnológico, uma escola que concentra o ensino no quadro de giz, na fala do professor e no máximo em um livro didático por unidade curricular acaba sendo um ambiente pobre para a realidade de hoje. Nesse sentido, a ideia que temos e que as escolas hoje discutem é valorizar o conhecimento científico sem as crianças sairem do conhecimento, porque no momento que elas aprendem algum elemento manipulando, como a Patrícia Limaverde falou, elas estão conseguindo se apropriar de um conceito e, ao mesmo tempo, ver como ele funciona na realidade. Assim, nós não temos preocupação de que as propostas da escola criativa não darão conta do conteúdo necessário, ao contrário, levamos isso muito a sério e pensamos que é necessário sim dar conta do conteúdo, mas o significado desse conteúdo e o que ele vai possibilitar intervir. Então, que não seja uma simples memorização, mas que seja o fortalecimento da resiliência, para que as pessoas possam enfrentar suas diversidades e construir um mundo mais solidário.

Marilza Suanno: Tenho acompanhado uma escola em Inhumas, que teve um excelente resultado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Esse índice reflete muito pouco a realidade das escolas, no entanto, essa escola possui uma equipe altamente comprometida com a aprendizagem das crianças. Por exemplo, o texto que a criança produz é lido por vários professores e coleguinhas, ou seja, essa iniciativa dá sentido ao ato de produzir textos, porque serão lidos. Dessa forma, trata-se de uma escola criativa. Precisamos dar aos professores mais autonomia pedagógica para estabelecerem sentidos naquele ambiente e para ajudarem as crianças a perceberem melhor o mundo, formando crianças que tenham uma visão local, mas também uma visão planetária. Penso que a universidade, na formação de professores, precisa estar mais presente nas escolas, com as crianças e os jovens. Para que haja o impacto das escolas criativas em âmbito nacional, elas podem nos ajudar a pensar as necessidades da escola e da convivência dos sujeitos com os conhecimentos e a formação humana.

Categorias: Mesa-redonda escolas criativas Cooperação

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