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Universidade Federal de Goiás
Professor Edemundo Pereira (UFRJ)

Memória e história: os desafios do atual contexto político

Criada em 14/02/19 12:07. Atualizada em 14/02/19 14:17.

Edmundo Pereira do Museu Nacional (UFRJ) cita a aproximação com os povos indígenas e afro-brasileiros como um destino no campo das Humanidades

Michele Martins

Foto: AF Rodrigues/Agência Pública

Jornalista de formação, Edmundo Pereira não se demorou muito atuando na área de Comunicação. Sua primeira experiência profissional como jornalista ocorreu no Estado do Acre, onde, ao ter contato mais próximo com expressões artísticas e culturais de povos indígenas, apaixonou-se pelas questões antropológicas. Isso contribuiu para que tivesse o interesse de se dedicar às pesquisas no campo da Antropologia Social e se tornasse, mais tarde, professor adjunto do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Departamento de Antropologia do Museu Nacional (MN/UFRJ).

Em janeiro, Edmundo esteve no Museu Antropológico da UFG, onde ministrou o curso de extensão Coleções Antropológicas: Desafios e perspectivas históricas, antropológicas e museais. Segundo o professor, entre os enfrentamentos atuais relacionadas às coleções antropológicas, podem ser destacados cinco pontos: o diálogo com os diversos públicos, a formação antropológica versus formação museal, o mundo contemporâneo e a antropologia em cheque, os dilemas das técnicas para o desenvolvimento de uma exposição, chamada de expografia, e os caminhos percorridos pelas peças para formação das coleções.

Otimista quanto ao panorama do campo das Ciências Sociais frente à realidade sociopolítica atual, ele acredita que tanto nas universidades quanto nos movimentos sociais, as atividades estão seguindo de forma intensificadas, contribuindo para qualificar melhor as relações e conhecimentos gerados da articulação de diferentes atores sociais. Um pouco desses e outros assuntos foram debatidos pelo professor em entrevista concedida ao Jornal UFG.

Num mundo cada vez mais pragmático e focado em resultados imediatistas, o campo das humanidades, no qual está inserido a Antropologia, parece estar cada vez mais marginalizado. Do seu ponto de vista, como podemos situar a atuação da comunidade acadêmica brasileira para seguir na contramão desta lógica?

Eu ponderaria a realidade a qual estamos nos referindo. Uma mudança na política de Estado evidentemente tem efeito sobre financiamentos, possibilidade de difusão de alguns conhecimentos e menos de outros. E eu começo assim porque as Ciências Sociais nunca tiveram muito destaque. A própria lógica que rege nossa carreira acadêmica e a produção de currículos segue uma lógica ditada pelas Ciências Exatas. Outra coisa é que considero que os processos seguirão em curso. Existe um nível que não se articula necessariamente a uma política de Estado. Certamente, áreas como a Antropologia serão afetadas, porque seus objetos de trabalho e os interlocutores participam de agendas que sempre foram complicadas para o Estado brasileiro. Questão fundiária, questão ambiental, produção da História nacional e as políticas de memória que estão envolvidas nisso. Do ponto de vista do financiamento, já estamos sendo afetados. Do ponto de vista da autonomia universitária, teremos de defendê-la. Certamente o alcance das nossas ações, no sentido de quais os efeitos que os conhecimentos produzidos terão na esfera pública, será reduzido. Serão tempos de muita negociação, de otimização dos poucos recursos que restarão, mas, por outro lado, isso pedirá, de forma mais genérica, mais criatividade da nossa parte para saber procurar novos recursos. Politicamente, isso nos aproxima. Força o campo intelectual a se articular. Força que certas diferenças sejam abandonadas ou pausadas para que possamos seguir com nosso trabalho. Além disso, há a possibilidade de rearticulação com os grupos com os quais historicamente já temos ligações. Do ponto de vista museológico e das coleções antropológicas haverá um estreitamento das relações com as populações indígenas e afro-brasileiras. Imagino uma intensificação com o campo do patrimônio a partir de uma especial politização nesse campo, que seja capaz de abarcar questões ambientais e fundiárias porque estarão associadas com as questões do meio ambiente e de reprodutibilidade social dos grupos. Então, mesmo considerando um possível tempo sombrio para os próximos anos, o nosso trabalho deve seguir em uma escala menor, mais circunscrita. Mas acredito que isso qualifica relações e intensifica articulações locais. Eu não deixaria de olhar de maneira positiva para os anos que virão. Certamente que o cenário é outro, mas os anos anteriores não eram tão bons também, para algumas áreas sim, outras nem tanto. A questão fundiária andou pouco nos últimos anos, por exemplo. Mesmo com uma lei que institui a história da África e história Indígena, a gente ainda não produziu material didático, não ponderou sobre a história que estamos fazendo. Mas vamos continuar trabalhando, produzindo e difundindo conhecimento.

Tem havido mudança no olhar dos pesquisadores sobre as coleções antropológicas e as pesquisas sobre essas coleções atualmente?

Sim. Creio que exista um plano em termos de disciplina. A produção historiográfica se intensificou nos campos da História da Ciência, História da Antropologia. Especialmente no caso brasileiro, a formação no campo Antropológico e Arqueológico possui uma chave na historiografia. Vem sendo repercutido um efeito de crítica e de contestação dos movimentos sociais daqueles que historicamente temos interlocução ou que estão representados em nossos trabalhos, nos artigos científicos. A intensificação da discussão patrimonial, associada a uma legislação que pede uma complexificação da nossa historiografia, faz com que os museus passem a trabalhar mais especialmente com difusão, por exemplo. Os quadros museais cresceram também, ainda que não o suficiente, mas cresceram. Assim como o fenômeno do aumento da quantidade de museus comunitários que já são instrumentos de alta representação, de produção de conhecimento e de reflexão política dos grupos. Se por um lado, estamos preocupados com a realidade sociopolítica, por outro lado, no âmbito das universidades e dos movimentos sociais as coisas estão seguindo de forma intensificada, qualificando relações e conhecimentos.

Como o senhor avalia a atual mobilização da classe acadêmica em torno da defesa da produção do conhecimento e da autonomia universitária?

Independente de ser certo ou não ser certo, existe essa mobilização que tem ocorrido em múltiplos planos. Por exemplo, por parte das entidades de representação das reitorias, das associações científicas e estudantis, dos movimento social. Acredito que um dos efeitos de um cenário contemporâneo mais geral é a intensificação e a qualificação da articulação, não só do ponto de vista dos instrumentos de comunicação. Estamos cada vez mais nos apropriando do uso da linguagem jurídica. Daí a Constituição Brasileira ser usada o tempo todo como uma arma de defesa de direitos que foram duramente conquistados. Existe uma série de instrumentos das sociedades democráticas que estão ganhando relevância e estamos fazendo um uso mais intenso da mesma linguagem que é usada para contradizer as mensagens voltadas para desqualificar as atividades das universidades. Creio que este cenário otimiza nossa articulação e o uso dos direitos que nos salvaguarda.

O senhor defende os museus como “zonas de contato dramático”. Como podemos entender essa expressão?

A ideia de drama significa que, em certas situações sociais, alguns fatos ficam especialmente relevantes e enfatizadas. O museu é o lugar onde a História é necessariamente debatida, como em poucos outros lugares. No museu, as representações sobre afro-brasilidade, indianidade e cultura popular é especialmente debatida. Portanto, é dramática no sentido de ser uma arena onde os debates ocorrem com muita intensidade, são mais acalorados, surgem argumentos mais fortes e intensos porque, ali, os atores podem se encontrar, mesmo que em regimes de críticas eles estão ali conversando. Essa ideia de zonas de contato diz respeito também aos lugares onde, como poucos, o atores estão em relação. Levo em conta também que a comunidade museal não possui uma formação simples, do ponto de vista de gênero, classes sociais e de conhecimentos. Uma Universidade como a de Goiás é uma zona de contato bastante complexa e intensa também, isso é um valor. Agora o trabalho é seguir com a comunicação, com os idiomas de cada um e seguir com o horizonte das ações afirmativas, inclusão de saberes diferentes nas universidades. Propiciar situações de lugares privilegiados em zonas interculturais em que os debates são especialmente dramatizados e intensos.

O que significa a #MuseuNacionalVive e qual a repercussão disso na sociedade?

Significa uma intensificação do nosso lado comunicativo. Tem um lado de resposta, claro, mas partilha também da necessidade de divulgação de informações seguras para marcar presença na esfera pública. Diante da perplexidade do desastre e pelo conjunto de ações por fazer, seríamos classificados como uma comunidade desterritorializada, de acordo com a Antropologia do Desastre. Tínhamos seis departamentos que foram incorporados em um espaço físico de dois. Contudo, passamos a nos organizar para dividir espaços em poucas mesas.  Então, o termo museu vive é a forma de salvaguardar nossa presença e esperança, o senso de comunidade que está unida. E aproveito para usar outro termo importante: Museu vivo é a tradução de um exercício solidário interno e externo da sociedade.

Categorias: Entrevista Humanidades