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Universidade Federal de Goiás
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Ciclos de Formação é tema de pesquisa

Criada em 06/03/19 18:01. Atualizada em 08/03/19 09:38.

Estudo identificou a Avaliação como estratégia no combate ao fracasso escolar nos ciclos aplicados na Secretaria Municipal de Educação

Kharen Stecca

Estudantes(Fotos: Carlos Siqueira)

Em 2018 o Censo Escolar registrou 1,3 milhão de matrículas a menos na educação básica do que em 2014. Uma redução de 2,3% em 4 anos. Também registrou aumento da distorção idade-série que se torna mais intensa a partir do terceiro ano do ensino fundamental e se acentua também no sexto ano do ensino fundamental e na primeira série do ensino médio. A taxa de distorção idade-série alcança 11,2% das matrículas nos anos iniciais do ensino fundamental, 24,7% nos anos finais e 28,2% no ensino médio. Os dados em conjunto mostram que o fracasso escolar bem como o déficit de aprendizagem ainda são problemas que precisam ser vistos e revistos continuamente no Brasil.

Mas o que causa o fracasso escolar? De acordo com o professor da Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás, Sérgio de Almeida Moura, muitas vezes o problema, que é estrutural, é visto como um problema da família ou um problema da criança, quando na verdade envolve uma série de fatores. A forma como a escola é organizada, estruturada e como concebe a formação humana são fatores determinantes desse processo.

Entre as possibilidades de revisão dos índices do Censo Escolar e da mudança de perspectiva com relação ao fracasso escolar, algumas cidades brasileiras como Belo Horizonte, Belém, Distrito Federal, Porto Alegre e Goiânia adotaram ao longo das últimas três décadas uma organização escolar chamada Ciclos de Formação e Desenvolvimento Humano, em contraposição a organização seriada, que divide os estudantes em séries de acordo com a faixa etária e quantidade de conhecimento acumulado. Para além da divisão de turmas, os ciclos de formação visam dar ao estudante com dificuldades um tempo e uma atenção maior para atingir os objetivos de aprendizagem esperados para sua idade de acordo com os documentos formais da educação.

Sérgio de Almeida defendeu em outubro de 2018 uma tese no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFG que analisou o período em que os ciclos foram implementados pela Secretaria Municipal de Educação de Goiânia, entre 2001-2004. O modelo, que ainda é utilizado em Goiânia, embora com inúmeras modificações com relação a proposta inicial, foi uma aposta para tentar melhorar o problema da evasão e retenção devido ao fracasso escolar.

Os ciclos, diferente da divisão por séries, divide os estudantes por períodos/tempos da infância, pré adolescência e adolescência, em geral em três ciclos durante o Ensino Fundamental. Dentro desses ciclos a criança acompanha agrupamentos por idade, mas é avaliada pelos professores de todo o ciclo de forma a permitir a criança mais tempo para conseguir conquistar o aprendizado esperado para aquele período escolar.

Box SME(Arte Gráfica: Fred Aldama)

Para Sérgio de Almeida, que também trabalhava na SME na época em que os ciclos foram implementados, a maior mudança proposta, e também a mais polêmica para a sociedade, é a mudança da avaliação. “Tivemos dificuldades com a opinião pública, mas também com grupos de professores que viram a mudança da avaliação como uma retirada de poder do professor. Essa mudança também foi confundida, por alguns, como o fim da avaliação, quando, na verdade, a proposta diz respeito a uma avaliação mais dinâmica e comprometida com a aprendizagem”, explica o pesquisador. “A avaliação não precisa ser seletiva, classificatória e excludente, ela pode ser participativa, integrativa e, com isso, proporcionar diagnóstico permanente para um melhor avanço da aprendizagem”, afirma. Ele explica que a intenção era realizar uma avaliação próxima a um dos princípios da Educação Infantil, que sinaliza para uma descrição do desenvolvimento integral do estudante, através da utilização de diversos instrumentos de avaliação e situações avaliativas e não apenas a prova como forma de registrar a aprendizagem.

Para Sérgio, os ciclos exigem uma visão diferente dos professores e essa foi uma das dificuldades de implementação. “O pensamento vigente é de que a avaliação dessa forma significa não avaliar”, diz Sérgio. A professora Aurora Fidelis, entrevistada na tese e uma das responsáveis da gestão da SME naquele período pela implantação dos ciclos em Goiânia resume bem a questão: “Uma política de ciclos mal gerida poderia ser tão perversa ao aprovar o aluno sem conhecimento quanto perversa era a reprovação da escola seriada sem acompanhamento, sem atendimentos paralelos, sem reconhecer a individualidade do aluno, sem considerar a sua história de vida e a sua classe social.”

E qual seria então a chave de sucesso dessa organização por ciclos? Sérgio explica que, para atacar efetivamente o fracasso escolar, é preciso existir uma mudança radical nos conceitos de formação e reprovação, substituindo a decisão de reprovar ou aprovar o aluno pela decisão de fazê-lo progredir para o ano seguinte do ciclo para acompanhar seus pares colegas, permanecer no mesmo grupo etário/fase da vida (infância, pré-adolescência, adolescência) e receber um atendimento seja individualizado, em duplas ou em pequenos grupos de interesses, para usufruir da oportunidade de ter um tempo a mais para atingir os objetivos daquele ciclo ou melhorar substancialmente o seu aprendizado. Para isso, afirma que o aumento do quantitativo de professores nas escolas é uma condição imprescindível para que o trabalho docente não fique ainda mais intensificado e precarizado.

É preciso mudar a forma de ensinar

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Para Sérgio Almeida os professores precisam sempre propor novas estratégias que estimulem a aprendizagem

Para além da questão dos ciclos, Sérgio vê uma necessidade de mudança na formação de nossos educadores. “Isso implica repensar como formamos nossos estudantes das licenciaturas na universidade”, explica. Ele conta uma história que ilustra o processo:

“Uma professora contou uma história na sala de aula e, ao terminar, a aluna levantou a mão e disse: ‘não entendi’. A professora então contou novamente a história. A aluna voltou a dizer: ‘não entendi’. Já impaciente a professora voltou a contar a história pela terceira vez e perguntou: ‘entendeu agora?’ No que a criança respondeu: ‘eu não disse que não tinha ouvido, eu disse que não havia entendido’."

Para ele, a moral da história é que não adianta ensinar para uma criança que tem dificuldades da mesma forma que já ensinou antes. Ela não vai aprender por esse tipo de repetição. Ensinar ano após ano as mesmas coisas sem alterar nada não resolve o problema. “Os professores precisam entender que os métodos e estratégias de ensino não podem ser engessados, é preciso refletir sobre a prática pedagógica e, para isso, os professores necessitam tempo para planejamento e estudos coletivos”. O pesquisador e professor cita Henry Giroux ao afirmar que “os professores, que querem atuar como intelectuais transformadores, devem atuar como tal”. As crianças de hoje são submetidas a diversos estímulos e informações, o estudante é um sujeito de histórias e conhecimentos. O professor tem de entender que, num contexto sócio-histórico de facilitação de acesso às mídias digitais por celulares e smartphones e pelas transformações na forma e conteúdo dos estímulos audiovisuais de diversas fontes, o estudante aprende ‘até’ com o professor e não só com ele. Sérgio espera que os professores entendam a autocrítica e não a tragam para a dimensão pessoal.

Quer ver o trabalho completo do professor? Acesse o link da tese no Repositório da UFG.

Fonte: Secom UFG

Categorias: Humanidades Educação