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Universidade Federal de Goiás
Adolescer 2019

O ato na adolescência: como a inclusão na sociedade é importante

Criada em 28/03/19 17:29. Atualizada em 28/03/19 17:47.

Palestra de abertura do Congresso Adolescer 2019 destacou a necessidade de construirmos um laço social que acolha a juventude

Texto e fotos: Kharen Stecca

Adolescer 2019
Mesa de abertura do Congresso sobre adolescência

A adolescência é um momento ímpar na vida das pessoas. Eventos como a tragédia na Escola de Suzano (SP), ocorrida em março de 2019 ou mesmo as ocupações das escolas secundaristas em 2016 mostram a potência da ação do jovem na sociedade, que pode assumir funções e papeis completamente diferentes. Para abordar o papel desses atos na adolescência, a professora do curso de Psicologia da USP, Miriam Debiex, realizou uma palestra que deu início no dia 28 de março ao Congresso Adolescer 2019  - 1º Congresso sobre Adolescência da UFG, realizado pelo Centro de Pesquisa, Ensino e Extensão do Adolescente da Faculdade de Educação da UFG com diversas parcerias.

Adolescer 2019

Uma apresentação de adolescentes do grupo Corpo Composto do Instituto Federal de Goiás deu a tônica da discussão sobre adolescência. A música não poderia ser mais instigante, Little Boxes, de Nara Leão:

“As pessoas dessas casas vão todas pra universidade
Onde entram em caixinhas quadradinhas iguaizinhas
Saem doutores, advogados, banqueiros de bons negócios
Todos eles feitos de tic tac, todos, todos iguaizinhos”.

Qual o laço social, o contexto de inserção que estamos oferecendo a esses jovens? Como esse mundo está sendo construído para os adolescentes? Foi a pergunta inicial de Miriam. Para ela, a adolescência é um momento de protagonismo e de transmissão de poder. Mas como se dá esse “despertar da primavera” em tempos de tanto ódio? Para a professora, os adolescentes tem sua potência em embate com instituições moralistas e fechadas. O adolescente é obrigado a se encaixar em um mundo pronto e acabado, assim como na música “em caixinhas quadradinhas, iguaizinhas”.

Adolescer 2019

Para ela, as pessoas sofrem de falta de memória sobre sua própria adolescência. Acham que a adolescência é o tempo da alegria, e esse pensamento acaba ensurdecendo a adolescência atual. Porque é um tempo de frustrações, de dilemas. A cobrança dessa alegria é uma forma de agressão. E isso se dá de forma ainda mais grave entre os adolescentes já marginalizados, dando-se ênfase a frustração quanto ao que o adolescente deveria ser. A rotulação faz com que o adolescente seja reduzido ao ato produzido, por exemplo um crime, quando ele é mais do que isso. “Atribuir identidades como marginal, drogado, engessam o jovem, eliminam tudo mais que ele é”. Segundo ela, “O laudo de periculosidade é exemplo disso, transpõe para a psicologia um discurso ideológico e atribui um tratamento diferente entre classes sociais”.

A professora ressalta que é preciso criar políticas para o adolescente que permitam integrá-lo na sociedade, criando espaços para sua contribuição e não estratégias de controle. Para exemplificar sua fala, ela usou como exemplos os dois atos realizados por adolescentes: a tragédia de Suzano (SP) e a ocupação dos secundaristas nas escolas de São Paulo e em todo o país na sequência.

Adolescer 2019

Ela explica que o movimento de contágio é decisivo na adolescência. “A ocupação das escolas é um exemplo de como esse contágio permitiu o protagonismo de um movimento sem líderes, pedindo melhores condições de ensino”.  Por outro lado, se o adolescente não consegue ter perspectivas de participação no campo social, se é excluído dele, uma das possibilidades é que criem uma ficção violenta para considerarem sua existência digna de ser narrada. Suzano é um exemplo disso. Miriam esteve na cidade com uma equipe de diversas universidades para auxiliar nas ações a serem tomadas durante o “luto coletivo” pelo qual aquela comunidade passa.

“A dimensão do ato pode tomar um imaginário, algo como ‘faço, logo sou’. Na adolescência o ato é fundamental. O adolescente marginalizado pode passar de passivo da violência a ativo da mesma”, afirma. “Precisamos que o protagonismo adolescente vá na direção de sua potência e não da violência”.  Ela explica que a adolescência é um processo de constituição, destituição e reconstituição sobre si mesmo: “ A busca de referências não é mais na família, mas no laço social e, no discurso capitalista, qual o lugar possível? Temos uma sociedade que promete que você pode escolher o que quer ser, mas te dá lugares restritos para isso. O adolescente não é um número, um estereótipo”, afirma.

Ela explica também que a mudança na adolescência é difícil, mas importante, do contrário continuasse infantilizado. E hoje em nossa sociedade isso é muito comum: “Há um adiamento da entrada no campo social, da responsabilização por ações no campo social. O adolescente precisa reconhecer o lugar em que vai existir. Resta a nós pensar o que temos feito para permitir que os adolescentes tenham o que pedem: uma vida mais rica, mais interessante, mais desafiante”.

 

 

Fonte: Secom UFG

Categorias: Humanidades