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Universidade Federal de Goiás
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Universidade sob ataque. Por quê?

Criada em 01/07/19 11:31. Atualizada em 14/08/19 15:32.

As universidades públicas vêm sofrendo pesados ataques. Quais as razões dessa agressão? Prof. Magno Medeiros explica

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Magno Medeiros*

As universidades públicas brasileiras vêm sofrendo pesados ataques nos últimos meses, injusta e injustificadamente. São ataques vis, que ora se ocultam em perfis fakes das redes sociais, ora se revestem de conteúdo supostamente noticioso, ora se declaram abertamente em manifestações políticas de grupos ultraconservadores.

Contra as Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) temos visto referências inverídicas como espaço caótico, sujo, sucateado, doutrinador e leniente com o tráfico de drogas, onde imperam o “marxismo cultural” e um certo “viés ideológico de esquerda”. Ocorre que, na realidade, uma das principais características da universidade é justamente a pluralidade de ideias e a diversidade cultural. Por outro lado, tem sido recorrente relacionar a crise orçamentária das IFES a problemas de gestão, como se os reitores fossem culpados pelo rombo financeiro que, em verdade, é causado pelos graves cortes impostos pelo governo federal. São informações falaciosas e de má-fé, que provocam forte dano à imagem institucional da universidade pública.

Em face desse turbilhão difamatório, pergunta-se: quais as razões de tamanha agressão? O rol de ataques revela, sutil ou claramente, uma intenção de desmonte da universidade pública e de privatização gradual do ensino superior. Tal desmonte tem forte impacto no desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão. O prejuízo atinge, sobretudo, os estudantes, que necessitam da universidade pública, gratuita, inclusiva e de qualidade. Mas afeta também – e drasticamente – a população mais pobre, que demanda os serviços públicos de assistência à saúde, a exemplo daqueles prestados pelos hospitais universitários. É importante ressaltar que esses cortes orçamentários foram significativamente agravados com a aprovação da Emenda Constitucional nº 95/2016, que congelou os gastos públicos por um período de 20 anos. Alguém se lembra? Trata-se da famigerada PEC da Morte – PEC 241/2016, quando tramitou na Câmara dos Deputados, e PEC 55/2016, no Senado Federal.

Para melhor compreender as motivações desse projeto de desmonte da educação superior, é necessário analisar a conjuntura política brasileira, pautada pela cultura do ódio e semeada pelo neofascismo. Recentemente despertado e politicamente incentivado, o fascismo contemporâneo busca – como sempre tem feito - minar os valores democráticos e corroer os direitos humanos.

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Em seu último livro, intitulado How fascism works: The politics of us and them (No Brasil, a obra foi publicada pela editora L&PM e recebeu o título de Como funciona o fascismo: A política do “nós” e “eles”), Jason Stanley argumenta que o neofascismo constrói uma dualidade discriminatória e intolerante entre o “nós” e os “outros”, fundada em um etnonacionalismo de direita. Segundo o autor, o neofascismo faz uso de diversas estratégias para consolidar a sua ideologia separatista e de supremacia branca e patriarcal. Aqui, não cabe abordar, detalhadamente, essas estratégias, que brotam em diversos países, sobretudo naqueles cuja democracia é vulnerável, como o Brasil

No entanto, sirvo-me de algumas dessas estratégias para analisar a conjuntura política brasileira a despeito dos ataques às IFES. Uma das estratégias do neofascismo é o menosprezo à intelectualidade. Neste sentido, as universidades passam a ser desvalorizadas e atacadas, sistematicamente. A visão de uma universidade como antro de doutrinação marxista faz parte de uma estratégia que busca reduzir a relevância social e acadêmica das instituições de ensino superior. E, nessa esteira, surgem contestações ignaras de teorias científicas consolidadas. Assim, “globalismo”, “terraplanismo” e “ideologia de gênero” são exemplos desse espírito negacionista do conhecimento científico. Em face da cultura acadêmica, o indivíduo anti-intelectualista refugia-se na superficialidade típica das bolhas das redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.) e de grupos de WhatsApp. Confinado nas redes virtuais, o anti-intelectual despreza a cultura e a arte, preferindo alimentar-se no insalubre mundo das fake news.

Uma outra estratégia reside na construção de um mundo irreal. A irrealidade construída basta-se a si mesma e serve para justificar atos e estados de violência. Segundo Stanley, a ideologia neofascista isola o indivíduo do seu mundo real, deprecia os valores éticos e democráticos e passa a focar em aspectos individualistas, racistas e nacionalistas, criando discursos fantasiosos, nos quais se propagam teorias da conspiração e de exclusão social.

Como estratégia discursiva, o autor afirma que o neofascismo se serve da propaganda para difundir uma realidade sobre a qual o indivíduo vive e interpreta o mundo. Trata-se de um universo fantasioso e preconceituoso, refratário à diversidade cultural. A propaganda neofascista como estratégia comunicacional vem ganhando terreno em democracias fragilizadas, graças, principalmente, aos interesses comerciais e geopolíticos de grandes corporações midiáticas.

Os argumentos de Stanley nos ajudam a entender melhor o contexto social e político em que germina o neofascismo. Sem esse aporte teórico, não é possível analisar em profundidade as razões que acionam a cultura da intolerância e do ódio, cuja descarga quase sempre é a violência, sobretudo contra a cultura, a arte, a liberdade de expressão, os princípios éticos e o conhecimento científico. E a universidade, sobretudo a pública, é o espaço por excelência da liberdade de pensamento, do exercício da cidadania e do desenvolvimento científico, cultural e tecnológico. Portanto, faz parte de sua essência esse instigante modo de ser - livre e transformador.

*Magno Medeiros é professor da FIC/UFG e secretário de Comunicação da UFG

Categorias: Artigo