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Universidade Federal de Goiás
Diego Trindade

PANORAMA

Criada em 12/07/19 11:10. Atualizada em 12/07/19 13:16.

Os contextos e efeitos da política externa do atual governo são analisados, tendo como base o acordo Mercosul-UE

 

*Diego Trindade d’Ávila Magalhães

Diego Trindade

(Fotos: Arquivo pessoal)

O dia 28 de junho de 2019, data do acordo de Mercosul-União Europeia, representa a primeira vitória da política externa do governo Bolsonaro. Até então acompanhamos com preocupação as ações e posicionamentos diplomáticos, muita ideologia, pouco pragmatismo. Diferentemente, esse tratado trará ganhos concretos para o País em diversas áreas, mas este artigo se restringe a analisar alguns aspectos econômicos.

O Mercado Comum do Sul (Mercosul) é um bloco regional fundado em 1991 por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A Venezuela ingressou como membro pleno, mas não incorporou plenamente as suas normas e está suspensa. Do ponto de vista econômico, o bloco constitui uma área de livre comércio, ou seja, os países-parte isentam de tarifas de importação os produtos provenientes dos demais membros. Além disso, desde 1995, é uma união aduaneira onde os países-parte definem as mesmas tarifas de importação (tarifa externa comum) sobre produtos de fora do bloco. Gradualmente caminhamos rumo a um mercado comum, espaço em que circulariam livremente bens, serviços, capitais e trabalhadores. 

Desde a sua criação, o Mercosul iniciou negociações com vários países e blocos, incluindo a União Europeia (UE). Atualmente, têm acordos de livre comércio com quase todos os países sul-americanos, além de México, Egito, Israel, Palestina e, agora, a UE. Este, o mais importante.

O bloco europeu já é a principal fonte de investimentos estrangeiros dirigidos para o Mercosul e o nosso segundo mais importante parceiro comercial. A criação de um espaço econômico de livre circulação de mercadorias, portanto, tornará a parceria ainda mais importante e terá grande impacto, até porque, considerando o ranking de países pelo PIB, a UE seria a segunda maior economia do mundo, e o Mercosul seria a sexta. 

Em 2017, dos US$ 47 bilhões exportados pelo Mercosul para lá, uma parte considerável, 29%, era de bens industrializados. Dos US$ 50 bilhões importados de lá, 83% era de bens industrializados. Atualmente apenas um quarto das exportações brasileiras para a UE é isenta de tarifa de importação. Com o acordo, essa proporção superará os 90%. 

Com o acordo e a consequente abertura do mercado europeu, aumentarão as nossas exportações de suco de laranja, frutas, café solúvel, peixes, crustáceos, óleos vegetais e vários produtos industrializados antes prejudicados por tarifas europeias de importação. Isso gerará empregos e renda aqui. É simplista achar que nós ganharemos apenas com a exportação agrícola e que eles ganharão nos setores industrial e de serviços. Sem as tarifas, aumentará a oferta e a qualidade de produtos europeus, que terão preços menores. Com isso, ganharemos nós consumidores e as empresas que precisam de insumos para produzir melhor e mais barato, tornando-se, portanto, mais competitivas e crescendo.

Com a abertura, esperam-se mudanças na nossa estrutura produtiva. Por um lado, as empresas menos competitivas sofrerão com a concorrência europeia. Por outro, terão a oportunidade de se adaptar, se especializando naquilo que produzem melhor e se integrando a cadeias produtivas. É equivocada a ideia de que o acordo reforçaria uma estrutura econômica típica de centro-periferia, em que nos tornaríamos ainda mais exportadores de bens primários e importadores de manufaturados. Essa visão distorcida atrapalhou a conclusão de acordos comerciais do Mercosul anteriormente.

O fato é que já ficamos para trás, entre outros motivos, por conta do nosso relativo isolamento via protecionismo comercial expresso na tarifa de importação média de 13% aplicada pelo Mercosul, quatro vezes maior do que a tarifa da UE. Países mais abertos ao comércio, como Chile e Coreia do Sul têm avançado muito por terem integrado vários setores de suas economias em cadeias globais de valor. Esses países e os europeus têm ampliado a sua vantagem industrial-tecnológica em relação a nós, mas o novo acordo pode mudar isso. 

A maior parte do comércio internacional é de produtos industrializados (não de primários). Os produtos mais comercializados são componentes de veículos (não é propriamente carros, mas partes deles). Por trás de cada carro exportado por um país há, por exemplo, motores de importados de outro país, que, por sua vez, importou válvulas, cabos e parafusos de outros. A Dell, por exemplo, para exportar computadores de um país, investiu muito para criar uma cadeia global de valor que hoje envolve cerca de 100 países. Cada país se especializa naquilo que produz melhor e exporta componentes para outro país que, por sua vez, agrega outros até que o último país exporte o produto final. 

Em suma, o acordo propicia a geração de empregos e renda das pessoas, bem como a melhora da competitividade das empresas, com o aumento das exportações e dos investimentos estrangeiros e com uma maior oferta de produtos melhores e mais baratos aqui. Nesse contexto, aproveitar oportunidades e reduzir riscos decorrentes do acordo requer a melhoria de coisas como o sistema educacional para qualificar trabalhadores, o ambiente de negócios para facilitar o funcionamento das empresas, e infraestrutura para diminuir custos e desperdícios.

 

* Diego Trindade d'Ávila Magalhães é professor e coordenador da Graduação em Relações Internacionais e da Especialização em Diplomacia e Relações Internacionais (UFG, Brasil). Pós-doutor pela Universidade de Cambridge (Reino Unido) e pela Universidade Humboldt de Berlim (Alemanha).

Fonte: Secom UFG

Categorias: colunistas