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Universidade Federal de Goiás
Emiliano Godoi

Microplástico, um macroproblema

Em 06/01/21 11:55. Atualizada em 06/01/21 11:55.

Cabe aos governantes as políticas públicas específicas, aos fabricantes a responsabilidade sobre o ciclo de vida dos produtos, aos consumidores a consciência

 

Emiliano Lobo de Godoi

Emiliano Godoi

Há um século o mundo tomou conhecimento de um novo produto que hoje faz parte da rotina de quase toda população, o plástico. Esse material, por sua versatilidade, durabilidade, leveza, impermeabilidade e, principalmente, baixo custo, proporcionou a criação de novos produtos e se tornou onipresente em nossa sociedade moderna. Sua utilização, em substituição aos materiais tradicionais como o vidro, os metais e as madeiras, contribui em vários aspectos para a qualidade de vida.

Porém, silenciosamente, seus efeitos negativos vêm se manifestando das mais variadas formas, sendo motivo de crescente preocupação ambiental devido a grande quantidade de resíduos que são gerados. O ritmo de crescimento atual da produção de novos plásticos não é compatível com a eliminação deste produto na natureza.

Conforme relatório publicado pelo Conselho Americano de Química, em 2018 foram produzidas 308 milhões de toneladas de plástico no mundo e essa quantidade deve mais que dobrar até 2050. Assim, o destino final do plástico é um grande problema. O Brasil, de acordo com a World Wildlife Fund (WWF), é o quarto maior produtor deste tipo de lixo do planeta, com 11,3 milhões de toneladas descartadas por ano, sendo que apenas 1,28% é reciclado. 

Esses resíduos descartados inadequadamente causam significativos impactos por onde passam e transformam os oceanos em grandes lixões. Todos os anos, quase 13 milhões de toneladas de plástico são despejadas no mar. São garrafas, sacolas, fraldas, brinquedos e embalagens, entre outros descartes, que destroem a paisagem e matam a enorme biodiversidade marinha. No último dia 04 de janeiro a praia de São Conrado no Rio de Janeiro recebeu de volta uma parte das garrafas plásticas lançadas ao mar durante o último réveillon. Um bom exemplo de que a natureza nos devolve o que fazemos a ela.

Além destes resíduos visíveis, ainda existem os chamados microplásticos que são um grupo de diferentes materiais menores que 5 mm, tornando-os onipresentes em todos os ambientes. Devido ao seu tamanho reduzido, esses resíduos podem ser facilmente ingeridos por organismos aquáticos, causando toxicidade crônica devido ao seu acúmulo. Estudos científicos recentes, como o publicado na edição digital de janeiro de 2021 da revista "Environment International", já indicam o risco da presença desses elementos na placenta de mulheres grávidas.

Com isso, surge uma necessária e urgente reflexão sobre os nossos atos no dia a dia. Somos responsáveis pelo que consumimos e pelo que geramos. Nossas escolhas afetam diretamente o ambiente em que vivemos. Fazemos parte do problema e também da solução. Cabe aos governantes estabelecerem políticas públicas específicas sobre essa questão, aos fabricantes assumirem suas responsabilidades em todo o ciclo de vida de seus produtos e aos consumidores adotarem um consumo responsável e consciente.

Desde 2016 está sendo discutido no plenário do Congresso Nacional a aprovação do Projeto de Lei nº 6.528/2016, a qual tem por finalidade proibir a manipulação, fabricação, importação e comercialização, em todo o território nacional, de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria que contenham a adição intencional de microesferas plásticas. Quando tempo mais é necessário para se discutir isso?

A cidade de São Paulo já possui uma lei municipal, de nº 17.261/20, que proibiu, a partir do dia 01 de janeiro de 2021, o uso de copos, pratos, talheres, agitadores para bebidas e varas para balões de plástico, que devem ser substituídos por produtos compostos por materiais biodegradáveis ou recicláveis. Um excelente exemplo para os demais gestores municipais de todo o país que estão neste momento assumindo seus cargos.

Neste complexo desafio, adotar o caminho do meio é sempre a melhor opção, semelhante à ideia de Aristóteles sobre a “média dourada”, na qual “toda virtude é uma média entre dois extremos, cada um dos quais é um vício”.

Emiliano Lobo de Godoi é Professor da Escola de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal de Goiás

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.





Fonte: Secom-UFG

Categorias: artigo EECA