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Universidade Federal de Goiás
Letícia Vaz

PANORAMA

Em 08/10/21 09:46. Atualizada em 08/10/21 09:46.

Mais de dois lados

Letícia de Lucena Vaz

No dia 15 de agosto, o avanço do Talibã no Afeganistão se concretizou com a tomada de Cabul, capital do país. O grupo, formado em 1994, ficou conhecido por sua atuação no Afeganistão (país que já havia governado entre os anos de 1996 e 2001) e países vizinhos, como o Paquistão (onde tomou a região do Vale do Swat em 2009).

A interpretação radical do islamismo (muito questionada por membros da própria religião, é válido destacar) tem sido uma das marcas do grupo, usada para justificar ações como o apedrejamento de mulheres acusadas de adultério e a proibição do estudo e do trabalho para essa mesma parte da população. Outra marca é a oposição ao Ocidente e a elementos considerados ocidentais, como músicas, danças e filmes, por exemplo.

Essa oposição ou pelo menos crítica ao Ocidente, ideia em muito ligada à atuação dos Estados Unidos especificamente, também pode ser encontrada em grupos diversos que questionam a atuação imperialista de potências como a americana. Um desses grupos foi o Partido da Causa Operária (PCO) no Brasil, o qual usou sua conta no Twitter para descrever a situação verificada como uma “vitória no Afeganistão”, uma “derrota espetacular do imperialismo” e uma consequência da “revolta dos oprimidos”.

Algumas cenas verificadas no Afeganistão envolvendo a violência e a violação de direitos humanos que levam um grande contingente da população ao status de refugiados parecem questionar essa dita vitória. A isso, poderia ser oposta uma consideração do mesmo Partido que destaca a continuidade de problemas sociais no país durante e após os vinte anos de ocupação americana e ironiza a idealização desse período.

É um apontamento válido, dado que um debate amplo e aprofundado sobre um tema não pode comportar idealizações. A precariedade do país pode ser verificada ao analisar, por exemplo, o seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que, segundo o Banco Mundial, atualmente é de 0.511 e ocupa a posição 169 de um ranking com 189 países. Em 2001, o índice era de 0,353, o que representa um avanço nos últimos 20 anos, mas não uma melhora que possa ser considerada suficiente ou creditada à presença americana.

Em relação à educação de meninas, ponto muito levantado ao debater a questão, foi verificado um aumento de 0,6 em 2000 para 7,9 em 2019 na expectativa do número de anos dedicados à educação pelas mulheres do país. Contrapondo essa situação, o Partido ressalta que existe ainda uma grande dificuldade de acesso às escolas e precariedade no ensino ofertado. Novamente, argumento válido a ser considerado, mas não coerente para sustentar que um sistema que proíba a educação dessa parcela da população a partir de certa idade possa de alguma forma ser melhor para a instrução desse mesmo grupo.

Os Estados Unidos e seus aliados não resolveram os problemas do país, nem ‘salvaram’ o Afeganistão e as ideias do Partido partem dessa consideração. O debate, porém, fica prejudicado pela adoção de uma postura dicotômica que coloca Estados Unidos X Talibã e considera que a crítica ao primeiro prescinde de um apoio ao segundo.

Há espaço para questionar a atuação dos Estados Unidos em sua política externa e tendências imperialistas. Há espaço, na verdade, para continuamente questionar toda a forma como se faz política e política internacional, sempre buscando uma troca de ideias e um avanço em direção a uma sociedade mais cooperativa. Mas celebrar um grupo que viola direitos básicos como forma de sustentar a oposição a outro acusado de fazer exatamente o mesmo parece cair em uma contradição. Assim, os demais pontos levantados, como a crítica da idealização, por exemplo, acabam sendo desconsiderados e o diálogo é limitado, por não abarcar nuances e se ater a um simples posicionamento de a favor ou contra.

Letícia de Lucena Vaz é  aluno do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação e Informação da Universidade Federal de Goiás e estagiário da Cátedra Sérgio Vieira de Mello

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos e colunas, de inteira responsabilidade de seus autores.

 

Fonte: Secom-UFG

Categorias: colunistas