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Universidade Federal de Goiás
prematuridade

Humanizando a experiência da prematuridade

Em 23/11/22 15:22. Atualizada em 23/11/22 15:22.

Promovida pelo HC UFG, evento teve diversas palestras e o lançamento do Diário do Bebê e da Cartilha dos Direitos do Prematuro

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A psicóloga da UTI Neonatal Melissa Viana Telles falou sobre o acolhimento psicológico aos pais de bebês prematuros e o Diário do Bebê, uma ação para fortalecer o vínculo entre pais e bebês
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A psicanalista Luciene Godoy abordou a importância da maternagem através do Método Canguru para o "desmame do útero"
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Superintendente do HC-UFG, José Garcia Neto, parabenizou a equipe da UTI Neonatal pelo excelente trabalho desenvolvido ao longo de vários anos
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O médico neonatologista Danilo de Freitas, chefe da UTI Neonatal do HC-UFG, falou sobre o conceito de prematuridade e a importância da classificação do bebê prematuro
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Uma roda de conversa com as enfermeiras Keila Beserra de Sena Santana e Isadora Moreira e com residentes do eixo "Urgência e Emergência" abordou as situações vividas pelos profissionais dentro da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal
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Palestra realizada com a fonoaudióloga Thassya Ávila sobre os benefícios do aleitamento materno na Prematuridade
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Palestra com a médica neonatologista Renata Lorenzetti de Castro sobre "Prevenção da Asfixia Neonatal"
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Evento reuniu profissionais, residentes e estudantes de saúde

Um começo de vida com muitos desafios e importantes vitórias. Para os bebês prematuros - que nascem antes de 37 semanas de gestação ou com menos de 259 dias, contados a partir do primeiro dia do último período menstrual da mulher – a luta pela vida é diária. Para as mães e pais destes bebês, a experiência de ter um bebê prematuro, que precisa passar vários meses internado em uma Unidade de Cuidados Intensivos, é angustiante e muito difícil. Por isso, para abordar a importância do tema, o Hospital das Clínicas da UFG/Ebserh realizou, de 16 a 18 de novembro, a II Semana da Prematuridade, em alusão ao Novembro Roxo, mês de atenção à prematuridade.

Com o tema “Garanta o contato pele a pele com os pais desde o momento do nascimento”, o evento reuniu profissionais, residentes e estudantes de saúde em torno de palestras que abordaram a importância dos cuidados ao bebê prematuro, como o Método Canguru para o cuidado pele a pele, aleitamento materno, nutrição, prevenção de asfixia neonatal, neuroproteção, uso de corticosteróides e a segurança do paciente para a prevenção de infecção de corrente sanguínea de neonatos prematuros. A iniciativa foi da equipe da Unidade de Cuidados Intensivos e Intermediários Neonatais, ligada à Unidade de Saúde da Mulher do HC-UFG/Ebserh. As palestras foram ministradas no auditório do 6º andar do Edifício de Internação do HC-UFG/Ebserh.

Ao falar na abertura do evento, o superintendente do HC-UFG/Ebserh, José Garcia Neto, parabenizou a equipe pelo trabalho desenvolvido na UTI Neonatal ao longo de tantos anos. “Celebrar esse momento, hoje, é muito importante para um hospital como o nosso, uma vez que há muitos anos a nossa experiência tem mostrado bons resultados e é importante que a gente transmita esse conhecimento para os nossos profissionais e residentes, afirmou. “Vocês têm o principal, que é a satisfação e o reconhecimento internos de que estão fazendo um trabalho tão nobre, que é esse de recuperar o ser humano no seu momento mais difícil e mais dependente, que é quando ele nasce. E quando ele nasce antes do tempo e não está totalmente formado, é mais complexo ainda”.

José Garcia recordou quando a então chefe da UTI Neonatal, doutora Fernanda Peixoto, comemorou a primeira alta de um bebê da unidade que havia nascido muito prematuramente. “Eu me lembro muito bem, isso foi há uns dez anos, quando a doutora Fernanda Peixoto foi até a diretoria do hospital para contar que ela havia dado alta, uns seis meses depois, a um bebê que havia nascido com apenas 750 gramas. Isso para nós foi uma grande vitória e aos poucos foi se tornando uma rotina, pois era muito raro ver uma criança que nascia com esse peso e com essa prematuridade sobreviver”, lembrou.

O superintendente destacou ainda a importância da equipe multiprofissional para garantir aos bebês prematuros a sobrevivência com qualidade de vida. “Para que a criança sobrevivesse sem sequelas físicas, motoras ou cognitivas, era necessário todo um cuidado e tratamento terapêutico para que essa ela tivesse as mesmas condições de vida de uma pessoa normal. A área multiprofissional torna-se muito importante nesse momento, em que chega ao limite o tratamento médico e, então, entra a fisioterapia, o serviço social, a psicologia, para dar esse apoio aos pacientes e aos pais, uma vez que estes são os verdadeiros cuidadores dessas crianças, para que elas cresçam e tenham as mesmas oportunidades que qualquer outra pessoa”, destacou.

Acolhimento psicológico

A psicóloga Melissa Viana Telles falou sobre o trabalho de acolhimento psicológico realizado com os familiares dos bebês prematuros internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) e na Unidade de Cuidados Intermediários Neonatais (UCIN) do HC-UFG/Ebserh.

“A gente sabe que o ambiente de uma UTI Neonatal é um ambiente inóspito, é um ambiente que assusta os pais devido a tanta tecnologia envolvida com os dispositivos que estão ali ligados ao bebê, aos sons emitidos. Então, é importante receber física e afetivamente os pais desses bebês. Além disso, é necessário estabelecer uma comunicação empática, pois a informação faz toda a diferença no atendimento e na formação do vínculo, não só dos pais com o bebê, mas também da equipe com essa família”, disse Melissa em sua fala no primeiro dia de palestras.

Como parte desse acolhimento psicológico, Melissa citou a inclusão dos pais nos cuidados com o bebê prematuro. “Quanto mais cedo os pais forem incluídos nos cuidados com os bebês, maior será o vínculo formado entre eles. Por isso, faz parte do acolhimento psicológico incluir uma rotina de participação destes pais nos cuidados com os bebês, como na troca de fraldas e na passagem de dieta desses bebês”.

O acolhimento psicológico traz inúmeros benefícios para toda a família. Entre eles, Melissa apontou a redução do número de psico reações, como o medo, a ansiedade, depressão e a raiva. “Além disso, fortalece os laços afetivos entre os pais e o bebê, promove a participação ativa nos cuidados com o bebê e ajuda no processo de tomada de decisão familiar, que é muito comum de acontecer em nossa unidade”, destacou.

O acolhimento psicológico começa já na primeira visita dos pais à Unidade, em que eles são orientados pela equipe de psicólogos a como se vestirem para não contaminarem seus bebês e são informados sobre todos os dispositivos que possam estar ligados ao bebê. Segundo Melissa, quando o acolhimento psicológico é realizado desde a primeira visita, verifica-se que se estabelece uma relação de confiança muito maior da família com a equipe.

Melissa Telles também destacou outras ações que fazem parte do acolhimento psicológico na UTI Neonatal na primeira visita, como uma breve anamnese e a inclusão do nome do bebê na ficha de identificação para que ele seja tratado pelo nome. “Nomear o bebê é muito importante, não só para o vínculo dos pais com o bebê, mas também para criar o vínculo da equipe com o bebê, para que ele deixe de ser um bebê do leito quatro ou da gastroquise e passe a ser a Vitória, a Maria ou a Letícia”. A equipe disponibiliza ainda um acompanhamento psicológico às mães e pais dos bebês prematuros, tais como a avaliação e manejo do estado emocional dessa família, a identificação da rede de apoio, a preparação psicológica para procedimentos invasivos no bebê e suporte aos pais durante o comunicado de más notícias.

Diário do Bebê

Em seguida, Melissa Telles apresentou o Diário do Bebê, pensado e desenvolvido por ela juntamente com as psicólogas Fernanda Feijó Martins e Bárbara Cardoso Sabino, que fizeram residência no HC-UFG/Ebserh. A ação é inédita no Brasil e visa proporcionar um atendimento mais humanizado às famílias que passam pela UTI Neonatal do HC-UFG.

O Diário do Bebê tem como objetivos estimular o vínculo entre pais e bebê, permitir elaborar psiquicamente a experiência da maternidade e da paternidade no contexto de uma unidade de cuidados intensivos, ser instrumento de acolhimento e ambientação na unidade, constituir-se como memorial para a família sobre a experiência hospitalar ou ainda ser um instrumento terapêutico de enfrentamento ao luto, em caso de óbito do bebê.

No segundo dia de evento, as psicólogas Bárbara Sabino e Fernanda Martins apresentaram o Diário do Bebê com mais detalhes e falaram sobre a importância e o significado de cada página do diário.

Método Canguru

A pesquisadora, escritora, articulista e psicanalista Luciene Godoy Lima, que coordena o Instituto Bebê Canguru, falou no primeiro dia de palestras sobre o método Canguru como estratégia na atenção humanizada ao recém-nascido. “Estamos falando aqui da exterogestação, que é a gestação externa, uma continuidade da úterogestação”, afirmou. O termo é proposto pelo antropólogo Ashley Montagu para se referir aos três primeiros meses de vida do bebê, em que ele perde o ambiente aquático em que vivia para passar a viver em um ambiente aéreo, um ambiente novo e diferente, portanto ele necessita de um tempo – a exterogestação – para se adaptar a essa nova realidade.

Segundo Godoy, o método Canguru já é utilizado nas maternidades públicas de Goiânia há sete anos, como a Maternidade Dona Íris. O Instituto Bebê Canguru doa as bolsas cangurus para as unidades de terapia intensiva neonatais da rede pública.

“A gente apoia o método Canguru, mas o nosso trabalho é com a maternagem Canguru. E o que isso quer dizer? A gente propõe um tipo de maternagem que é cuidar desse bebê a partir do nascimento, nas primeiras semanas, principalmente carregar o bebê por algumas horas. A proposta é carregar esse bebê nos primeiros três meses de vida dele”, explicou Godoy. “Tudo o que lembra a vida intrauterina traz um alívio para o bebê. Por isso, o abraço, o contato pele a pele são tão importantes”.

Em sua pesquisa, desenvolvida na Universidade de Sorbonne, em Paris, Godoy relaciona o psiquismo do adulto com o seu nascimento. Intitulada “La Psychique Face à la Naissance”, Godoy afirma que nunca deixaremos de ser bebês dentro de nós. “Há uma frase que me emociona muito, que é ‘seremos bebês para sempre’. E o que isso quer dizer? Que nós nunca deixaremos de ser bebês. A gente cresce, aprende a se cuidar, mas dentro de nós, carregamos experiências do começo da vida. Ficamos marcados com experiências desde o nascimento até os primeiros seis meses de vida”.

Com base na teoria do psicanalista Jacques Lacan, Godoy estuda há mais de 20 anos a relação do apaixonamento do adulto, como os sofrimentos por decepções, traições, com o momento do seu nascimento. “Simplesmente no nosso nascimento, a gente perde tudo o que a gente tinha. Dentro do útero, o bebê vivia em um ambiente seguro, aquático e, ao nascer, ele não está totalmente preparado para a nova realidade”.  Segundo ela, Lacan fala do desmame do útero através da bolsa canguru. “Mesmo aos nove meses, nós nascemos inacabados e incompletos. Então, com o método Canguru, o bebê é recebido próximo ao corpo, o que ajuda a acalmar o bebê, traz tranquilidade, paz e sensação de segurança para ele, o que ele levará para toda a vida. E isso o influenciará na capacidade de amar e ser amado por toda a vida”, explicou.

Ao final, sua auxiliar Sara Godoy Lima fez uma demonstração de como a mãe pode fazer a bolsa canguru e como colocar o bebê dentro da bolsa.

Em 2007, o Método Canguru foi instituído como política pública de saúde brasileira, por meio da Portaria nº 1.683, de 12 de julho.

 

Cartilha dos Direitos do Bebê Prematuro

No dia 18 de novembro aconteceu o lançamento da Cartilha dos Direitos do Bebê Prematuro, uma das ações aguardadas dentro da II Semana da Prematuridade do Hospital das Clínicas da UFG/Ebserh.

O projeto tem como objetivo reunir, de forma simples, todos os direitos das famílias e dos bebês prematuros e, dessa forma, elucidar dúvidas que possam surgir durante o acesso dessas famílias à assistência social em níveis municipal, estadual e federal.

O manual foi elaborado pelos assistentes sociais, Ana Paula Duarte (residente HC-UFG/Ebserh), Mairon Cézar de Araújo Capitinga (Unidade Materno Infantil, Unidade Cuidados Intermediários Neonatais e Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal do HC-UFG/Ebserh) e Denise Ferreira de Magalhães, (Unidade de Saúde da Mulher e Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do HC-UFG/Ebserh).

A cartilha contém os direitos gerais e de cidadania, saúde e proteção do bebê, além dos direitos da família, como benefícios sociais, licenças maternidade e paternidade. O documento está publicado no site do HC-UFG e pode ser acessado no link a seguir: Cartilha dos Direitos do Bebê Prematuro.

 

Outros momentos

A II Semana da Prematuridade do HC-UFG/Ebserh contou ainda com outras palestras sobre o tema, como do Chefe da UTI Neonatal do HC-UFG/Ebserh, pediatra e especialista em Neonatologia, Danilo de Freitas Magalhães, que abordou os conceitos de prematuridade e a importância de se definir a idade gestacional do bebê prematuro. “A prematuridade está associada a um risco maior de mortalidade e morbidade de crianças. Por isso, é importante classificar o prematuro de acordo com o peso de nascimento dele e a idade gestacional dele ao nascer para sabermos qual é o grau de gravidade dessa criança e qual será o tipo de assistência que ela precisará”, afirmou. 

A nutricionista Viviane Maria de Carvalho Matos, especialista em Neonatologia pelo HC da Faculdade de Medicina da USP e especialista em Nutrição em Pediatria pela Unicamp, ministrou palestra, no segundo dia de evento, de forma remota, em que abordou a nutrição em bebês prematuros.

No terceiro dia de evento, a enfermeira Katharinne Carreiro Santiago falou sobre “O prematuro e o cuidado centrado no desenvolvimento”. Em sua fala, a especialista abordou a gestação de alto risco, como é a estrutura física de uma Unidade de Terapia Intensiva, a importância da interação e participação dos pais durante a internação do bebê, o papel da equipe no desenvolvimento do bebê prematuro, bem como reforçou os benefícios do Método Canguru, além de tratar sobre o manejo da dor em neonatos sob cuidados intensivos.

Foi realizada também uma roda de conversa, no primeiro dia do evento, com as enfermeiras da UTI Neonatal Isadora Moreira e Keila Beserra de Sena Santana, além dos residentes do eixo de Terapia Intensiva Matheus da Conceição Sousa e Glenda Caroline Pereira do Nascimento, que falaram sobre suas experiências dentro da UTI Neonatal.

Fonte: HC UFG/EBSERH

Categorias: Saúde Ebserh