Servidor da UFG lança curta-metragem sobre autismo inspirado em vivências pessoais
"Você não vai me entender", escrito e dirigido por Murilo Ferraz, terá pré-lançamento gratuito no próximo sábado (29/11)
Arthur Gabriel
Com pré-lançamento marcado para o próximo sábado (29/11), o curta-metragem Você não vai me entender, do cineasta goiano Murilo Ferraz, mergulha em uma narrativa sensível ao expor as vivências de pessoas com autismo. A sessão será realizada às 14h no Espaço Kino, um centro de formação e produção em cinema e audiovisual de Goiânia, fundado pela produtora Sublimação Filmes.
A pré-estreia é gratuita e, depois da exibição, haverá uma oficina de audiovisual para pessoas autistas. Outra exibição está agendada para o dia 6 de dezembro, às 15h, na Associação das Mulheres Deficientes Auditivas e Surdas de Goiás (AMDASGO). Você não vai me enteder estará no cenário nacional de cinema no ano que vem, por meio de festivais.
Murilo, que é servidor técnico-administrativo na Reitoria Digital da Universidade Federal de Goiás (UFG), conta que se baseou em experiências da vida pessoal para construir a trama.
"A história do filme é baseada em fatos reais, na história de um tio meu. Ele era autista, mas não foi diagnosticado. Pela proximidade de idade, era quase como um primo. Ele tinha uma grande dificuldade de interação social e comunicação. Quando fiz o curso de Produção Cinematográfica no Espaço Kino, pensei em transformar essa história em um curta-metragem. Essa história envolve várias questões sensíveis para pessoas autistas: estímulos sensoriais, interações sociais e outros desafios".
Ela conta que procurou tomar cuidado para que as personagens da obra não se reduzissem às representações estereotipadas do autismo. "Como autista, essa foi uma preocupação do começo até o fim. Um dos estereótipos mais comuns é o autista infantilizado. Muitas pessoas esquecem que os autistas crescem, se tornam adultos. Foi importante construir um personagem adolescente também para quebrar esse clichê. Tratar da questão dos autistas com o corte de cabelo, por exemplo, também é um assunto pouco abordado".
O diretor diz que a sociedade ainda possui visões equivocadas das pessoas que possuem autismo. "Muitas vezes as pessoas pensam e veem o autista como alguém que não é capaz de nada, confundem o nível de suporte de que cada um de nós precisa como se fosse uma espécie de dependência, por exemplo. Espero que o filme possa mostrar isso e contribuir para quebrar, ainda que um pouco, essas barreiras".
Murilo torce para que o filme contribua para uma mudança de atitude frente às dificuldades enfrentadas por pessoas neurodivergentes. "Espero que as pessoas neurotípicas possam ver os autistas ao seu redor com um olhar mais empático e respeitoso. Espero que os autistas – diagnosticados ou não – se reconheçam e entendam que eles não estão sozinhos, que eles não são frescos ou enjoados por não gostarem disso ou daquilo, por conseguirem ou não fazer determinada coisa".
Ele também relata que é preciso mais representatividade de autistas no meio de produção audiovisual. "Essa experiência mostrou que precisamos trazer a questão do autismo para o cinema, mas com a nossa perspectiva. Muitas vezes, durante as filmagens, eu explicava algumas coisas que o personagem principal precisava ter e que, para mim, que sou autista, eram óbvias. Mas, para os demais, que não são, soava estranho. Precisamos falar mais sobre autismo a partir da nossa perspectiva, da nossa experiência".
Produção do filme
O diretor conta que se inspirou em outras referências cinematográficas para a composição de sua obra. "Orientando o elenco, indiquei a série Atypical e o filme O gênio do videogame, que é um filme ruim, mas que tem um personagem que tinha o comportamento parecido com o meu tio".
Murilo relata que, para ele, a experiência sensorial, a sensação e os sentimentos são mais importantes no desenvolvimento da história do que a imagem e o texto. A dificuldade está em traduzir esses aspectos para o texto, no roteiro, e para imagem e som, no filme.
O processo de direção, segundo ele, foi bastante desafiador. "Ter contato com pessoas desconhecidas, interagir, as mudanças de ambientes, enfim, muitos desafios. Foi importante ter o suporte de pessoas da equipe, como a assistente de direção e a minha esposa, Ana Luiza, que me apoiou muito no set e também faz a comunicação do filme. Em alguns momentos, precisei me isolar um pouco pra poder me estabilizar e seguir a direção. Tive crises de ansiedade durante a gravação e precisei utilizar medicamento indicado pela minha psiquiatra. Foi difícil, mas deu certo".
Murilo conta que, durante as gravações, houve momentos tão marcantes que o fizeram mudar o percurso da narrativa do filme. "A participação no laboratório Kino Lab, com o Affonso Uchôa, me mostrou que precisaria me aprofundar mais em alguns aspectos do roteiro. Teve momentos em que me questionaram por que não há a redenção do personagem. Com tudo que os autistas vivem – e pensando até mesmo na história do meu tio –, é difícil pensar em um final feliz. Seria trair o próprio personagem".
E acrescenta: "Muitos autistas não são diagnosticados ou são diagnosticados tardiamente por não terem acesso a bons profissionais. Isso gera inúmeros sofrimentos não só para o autista, mas também para a família, que tem que lidar com algo que ninguém sabe o que é. Há várias famílias atípicas que enfrentam grandes batalhas com planos de saúde para garantir o acesso a terapias. Mulheres que são abandonadas por seus esposos quando os filhos são diagnosticados. Então, ter uma redenção para este personagem não seria justo com a realidade que nós, autistas, conhecemos".
O produtor do filme, Isaac Brum, conta que passou a orientar o projeto em 2024, no Espaço Kino. O argumento da obra foi concluído no segundo semestre de 2024, depois da consultoria com o roteirista mineiro Afonso Uchôa. "Depois, inscrevemos o filme no edital da Pnab [Política Nacional Aldir Blanc], que ofereceu recursos para a concretização das filmagens do projeto. Além disso, contamos com o apoio da Lei Aldir Blanc, juntamente com a Secretaria de Cultura de Goiás".
SERVIÇO
Pré-lançamento do filme Você não vai me enteder
Data: 29/11/2025 (sábado)
Horário: 14h
Local: Espaço Kino – Rua 3, 1.022, Ed. West Office, Sala 507, Setor Oeste, Goiânia (GO)
Entrada gratuita
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Fonte: Secom UFG
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