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Universidade Federal de Goiás
Eliana Martins

Nanotecnologia desenvolvida na UFG pode dar origem a medicamento inédito

Em 06/01/26 17:22. Atualizada em 07/01/26 14:46.

Acordo com farmacêutica deve criar produto capaz de reverter intoxicação e overdose por anestésicos

William Correia

Um acordo celebrado entre a Universidade Federal de Goiás (UFG) e o Laboratório Cristália, complexo industrial farmacêutico brasileiro, pode dar origem a um medicamento capaz de reverter intoxicações e overdoses por anestésicos. Baseada em nanotecnologia, a formulação é capaz de "sequestrar" anestésicos locais e drogas de abuso com características físico-químicas semelhantes à lidocaína.

Em outras palavras, esse mecanismo permite que moléculas de substâncias químicas específicas, capazes de gerar graves reações adversas ou overdose, sejam absorvidas por uma partícula microscópica e tenham seus efeitos neutralizados a ponto de reverter quadros que poderiam levar à morte (veja vídeo abaixo).

A parceria foi formalizada em agosto de 2024 e contempla um projeto de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) que tem como objeto essa solução nanotecnológica. A nanotecnologia é uma área da ciência que estuda e desenvolve estruturas e materiais extremamente pequenos (1 nanômetro é 1 milhão de vezes menor que o milímetro).

 

Nos experimentos em animais, primeiro é injetada uma dose letal de uma droga de abuso; o animal começa a apresentar os sintomas da overdose, como aumento da pressão e taquicardia; na sequência, é injetada a formulação desenvolvida pela UFG; aos poucos, o animal volta à normalidade  | Vídeo: FF/UFG

 

Histórico da pesquisa

Os resultados promissores foram descritos inicialmente no ano de 2018, em um trabalho desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF) da UFG pela pesquisadora Sarah Rodrigues Fernandes, então estudante de mestrado — atualmente residente em Londres, onde trabalha. Ela teve a orientação da professora Eliana Martins Lima, que é diretora do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação em Medicamentos da UFG — o Farmatec — e coordenadora desse projeto de PD&I.

À época, os experimentos envolveram a administração de cocaína em animais de laboratório, seguida da aplicação da nanopartícula desenvolvida. Percebeu-se, então, que a formulação conseguia reter a maior parte do composto presente no organismo das cobaias e que os sintomas típicos de uma overdose, como hipertensão arterial e taquicardia, eram controlados e normalizados em apenas dois minutos.

Segundo a professora Eliana Martins, a inspiração para esse arranjo nanotecnológico tem origem em 1995, quando a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) aprovou o primeiro medicamento de base nanotecnológica no mundo: o Doxil® (cloridrato de doxorrubicina), fármaco quimioterápico utilizado no tratamento de diferentes tipos de câncer.

Apesar disso, o principal ponto de distanciamento está no objetivo final. "A nanotecnologia desenvolvida em 1995 é usada para administrar o fármaco de forma controlada no organismo. O que nós construímos é uma nanopartícula vazia que absorve o que está em excesso". Ou seja, do ponto de vista técnico, tanto a formulação quanto a aplicação produzida no Farmatec são inovadoras.

Agora, sete anos depois, a ideia é converter essa descoberta em um produto farmacêutico inovador que possa estar disponível à população. Para isso, é necessária a parceria com a iniciativa privada, visto que o trabalho desenvolvido pela Universidade lida com as primeiras fases de maturidade tecnológica de uma inovação.

É nesse contexto que surgiu a oportunidade de transferência de tecnologia para o Laboratório Cristália. "Parcerias com universidades e centros de pesquisa fazem parte da nossa essência inovadora. Queremos estar sempre um passo à frente para trazer inovações disruptivas ao mercado brasileiro que possam transformar a vida das pessoas", destaca Ogari Pacheco, presidente e fundador do Laboratório Cristália.

O acordo firmado permite ao laboratório ter 50% dos direitos relativos à propriedade intelectual do produto resultante da parceria — sendo a outra metade pertencente à Universidade —, incluindo a transferência de tecnologia do conhecimento pregresso e exclusividade na exploração comercial do possível fruto dessa parceria. O Cristália também assumiu o investimento no projeto de PD&I, ao mesmo tempo em que coloca seus recursos humanos e tecnológicos à disposição da UFG.

A equipe que atualmente se dedica ao projeto é composta por cerca de 25 pessoas. São mais de 15 colaboradores empregados pelo Cristália e oito vinculados ao Farmatec. Juntos, eles integram uma verdadeira força-tarefa que se reúne semanalmente para discutir os avanços relativos ao projeto e outras questões técnicas. A execução do plano de trabalho deverá ocorrer em cinco anos.

 

Leia também: Pesquisadoras da UFG desenvolvem partícula que reverte overdose por cocaína

 

Eliana Martins
Professora Eliana Martins Lima, diretora do Farmatec/UFG | Foto: PRPI/UFG

 

Escala industrial

No momento, as atividades já estão em fase de otimização do processo de fabricação e escala industrial, com execução de diversas etapas de transferência de tecnologia tanto nos aspectos de produção quanto no controle de qualidade da formulação.

Nesse sentido, integrantes do grupo de trabalho têm se reunido com técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para melhor construir o processo de submissão para registro do novo produto, que será um medicamento de uso hospitalar. Para discutir o projeto e acompanhar o status do desenvolvimento, o vice-presidente do Cristália, Rogério Almeida, esteve recentemente em visita às instalações do Farmatec.

As tratativas para a formalização do acordo envolveram as equipes da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI), Parque Tecnológico Samambaia (PTS), Agência UFG de Inovação (Núcleo de Inovação Tecnológica — NIT) e Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape) — esta última encarregada pela gestão financeira dos recursos do projeto de PD&I.

O diretor do PTS — onde também está o Centro de Pesquisas Life (Laboratórios Integrados de Inovação em Ciências Farmacêuticas), complexo do qual o Farmatec faz parte —, Luizmar Adriano, liderou o grupo e esteve à frente das negociações desde o começo. "Foi um trabalho complexo por conta da especificidade da tecnologia, que demandou um processo de valoração, definição das condições de contratação e várias reuniões presenciais e remotas", lembra.

Sobre o Laboratório Cristália

Fundado há 53 anos, o Laboratório Cristália é um complexo industrial farmacêutico, farmoquímico, biotecnológico, de pesquisa, desenvolvimento e inovação 100% brasileiro. É pioneiro na realização da cadeia completa de um medicamento, desde a concepção da molécula até o produto final.

Possui 130 patentes em nível mundial e sete substâncias reconhecidas pela Farmacopeia Americana, ou seja, fornece padrão de referência de qualidade mundial para a produção destas substâncias. É lider de mercado na América Latina em anestesia e produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs).

 

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Fonte: PRPI

Categorias: saúde FarmaTec Destaque Notícia 1