Crescimento pentecostal impulsiona desenvolvimento socioeconômico e molda a política brasileira
Estudo com participação da UFG com parceria internacional utilizou microdados de Censos Demográficos para a análise
Estudo investiga associação do desenvolvimento econômico com o crescimento do protestantismo, especialmente em regiões mais pobres (Imagem: Freepik)
Anna Paulla Soares
Uma pesquisa inédita revela a relação entre protestantismo e desenvolvimento econômico no Brasil. Conduzido por uma equipe de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, o estudo aponta que o pentecostalismo pode funcionar como um motor para o desenvolvimento socioeconômico e também político, especialmente em comunidades mais pobres, ao oferecer redes de apoio prático em áreas como emprego, saúde e educação.
O professor Luan Bernardelli, que leciona na Unidade Acadêmica Especial de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Goiás (UAECSA/UFG), no Câmpus Goiás, é um dos autores do artigo. Os coautores foram Ednaldo Michellon - o único outro brasileiro -, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Michael A. Kortt, da Khalifa University (Emirados Árabes Unidos), e Michael B. Charles, da Southern Cross University (Austrália). De acordo com Luan, a colaboração se consolidou por meio de redes acadêmicas internacionais e foi fortalecida ao longo de projetos conjuntos voltados para temas como religião, economia e desenvolvimento humano. O estudo obteve selo de qualidade acadêmica pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e foi publicado no International Journal of Latin American Religions, da editora Springer Nature.
O estudo foi motivado pela escassez de pesquisas sobre o papel da religião no desenvolvimento econômico em países em desenvolvimento, com destaque ao Brasil. O crescimento acelerado do protestantismo, principalmente em sua vertente pentecostal entre as populações mais pobres, despertou o interesse dos pesquisadores em compreender se essa mudança religiosa poderia estar associada ao desenvolvimento econômico no Brasil.
Metodologia
No que se refere à metodologia de pesquisa, os autores utilizaram um modelo de regressão com dados em painel com informações das 4.267 áreas mínimas comparáveis (AMC) no Brasil, com base nos microdados dos Censos Demográficos de 1991, 2000 e 2010. O objetivo da pesquisa foi investigar a possível relação entre a proporção de protestantes e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) municipal. A coleta e análise foram baseadas em dados secundários do IBGE. Segundo Luan, o trabalho é fruto de uma parceria internacional já consolidada, pois as pesquisas acerca desta temática vêm sendo desenvolvidas desde 2013 pelos autores do grupo.
Utilizando os dados dos três Censos, os pesquisadores analisaram como a afiliação religiosa se correlaciona com o IDH, englobando as dimensões de renda, educação e saúde. Para ser publicado em um periódico da Springer Nature, editora acadêmica germano-britânica, o artigo passou por um processo que incluiu submissão, revisão cega por pares e ajustes com base nas recomendações dos avaliadores, o que, segundo Luan, sugere reconhecimento da relevância e qualidade do trabalho. O artigo recebeu a classificação Qualis A1 da CAPES, o nível mais alto de qualidade em publicações científicas no Brasil, utilizado para avaliar programas de pós-graduação.

Religião e desenvolvimento socioeconômico
Segundo divulgado pelo IBGE, de 2010 para 2022, observou-se o aumento de 5,2 pontos percentuais na proporção de evangélicos, passando de 21,6% em 2010 (35 milhões) para 26,9% em 2022 (47,4 milhões). Para o autor, a Igreja Evangélica, principalmente as pentecostais, pode se relacionar ao desenvolvimento socioeconômico, pois, especialmente em contextos urbanos marcados pela pobreza e exclusão social, a comunidade religiosa oferece redes de assistência prática e imediata, como suporte com moradia, acesso a oportunidades de emprego, serviços de saúde e apoio emocional.
Os líderes religiosos e o pertencimento a uma comunidade podem promover inclusão social, estabilidade emocional e orientação de vida para pessoas em situação de vulnerabilidade. Assim, a atuação do protestantismo é descentralizada, flexível e altamente adaptável às necessidades locais, fornecendo com frequência uma rede de proteção social que o governo nem sempre consegue fornecer.
O professor também explica que as igrejas pentecostais acabam por enfrentar menores burocracias para sua instalação e operação, já que operam com custos fixos mais baixos e ampla capacidade, o que facilita sua rápida expansão, sobretudo nas periferias. “Esse modelo organizacional as torna mais ágeis e acessíveis do que as igrejas protestantes tradicionais, que, em geral, apresentam estruturas mais rígidas, maior formalismo doutrinário e uma identificação histórica com a classe média”.
Como resultado, as igrejas pentecostais têm apresentado um crescimento acelerado no Brasil nas últimas décadas e, inclusive, superando significativamente o avanço das denominações tradicionais.
Religião e política
Um ponto de destaque é a relação entre religião e política. No Brasil, a chamada “Bancada Evangélica” ocupa um espaço relevante no Congresso Nacional e atua para defender seus interesses e valores religiosos na formulação de políticas públicas. Em sua visão, Luan aponta que a relação entre o protestantismo e a política tende a se intensificar ainda mais, visto que, dentro do grupo protestante, os pentecostais e neopentecostais, justamente os segmentos que mais cresceram nas últimas décadas, são também os mais engajados politicamente.
“O capital social gerado por essas igrejas - por meio de redes de apoio, mobilização comunitária e forte presença territorial - frequentemente se converte em capital político. Isso amplia a capacidade de articulação institucional dessas lideranças e aumenta sua influência na formulação de políticas públicas. Assim, a associação entre protestantismo, desenvolvimento e mobilização política forma um ciclo que tende a reforçar a presença evangélica na esfera pública”, disse.
Sobre os dados divulgados pelo IBGE em 2025, o professor comentou que a tendência de crescimento do protestantismo observada nas últimas décadas foi confirmada, apesar do número ser um pouco abaixo do estimado na projeção anterior, que estimava cerca de 30%. Os pesquisadores afirmam que já iniciaram a análise dos novos dados e pretendem publicar estudos atualizados, que aprofundem a relação entre a filiação religiosa e desenvolvimento socioeconômico, assim como questões correlatas. “As transformações no campo religioso brasileiro e seus impactos na economia representam oportunidades únicas e promissoras para a pesquisa científica”, afirmou Bernardelli, que acredita que o protestantismo, especialmente em sua vertente pentecostal, continue crescendo e moldando o comportamento dos indivíduos nas próximas décadas.
Religião declarada x Religião vivenciada
Bernardelli reconheceu que a pesquisa possui algumas limitações, principalmente porque se baseia na religião declarada por cada indivíduo, mas não há como saber detalhes sobre, por exemplo, frequência religiosa, participação em atividades comunitárias ou engajamento espiritual, informações essas que, de acordo com o pesquisador, são comumente incluídas em levantamentos de outros países. “Se essas informações estivessem disponíveis para o contexto brasileiro, seria possível distinguir os efeitos da religiosidade vivida daqueles decorrentes apenas da filiação nominal”, afirmou.
O professor também explicou que a disponibilidade dessas informações poderia reforçar ou até mesmo alterar os achados do estudo, especialmente se a prática religiosa regular exercer efeitos econômicos diferentes daqueles atribuídos à simples identidade religiosa declarada. Um outro ponto destacado pelo pesquisador foi a existência dos chamados “evangélicos do IBGE”, indivíduos que se identificam como evangélicos devido à herança cultural ou familiar, mas que não necessariamente seguem os valores, práticas e comportamentos da fé, e também podem desestabilizar os resultados da pesquisa.
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Fonte: Secom UFG
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