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Universidade Federal de Goiás
Pesquisa violência gênero

Pesquisa revela dificuldade de percepção da violência emocional sofrida por mulheres

Em 27/02/26 10:12. Atualizada em 27/02/26 10:53.

Estudo também aponta necessidade de profissionais atuarem nesse reconhecimento, o que pode auxiliar tratamento de transtornos mentais

 

Pesquisa violência gênero
Insultos, humilhações e depreciação por parte de parceiros, familiares ou chefes foram relatados pelas participantes da pesquisa | Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

 

Anna Paulla Soares

Uma pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Goiás (PPGSC/UFG), sob orientação da professora Larissa Arbués, investigou a relação entre a violência de gênero e o desenvolvimento de transtornos mentais, descobrindo que muitas vítimas sequer reconheciam o abuso que sofriam.

A dissertação de mestrado de Rosilene da Silva Ribeiro, intitulada Violência baseada em gênero e transtornos mentais: experiência de mulheres atendidas em um Centro de Atenção Psicossocial, aponta para a urgência de qualificar profissionais de saúde e revela como fatores sociais, como baixa escolaridade e dependência financeira, podem aprisionar mulheres em ciclos de violência.

O estudo foi realizado em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Rio Verde (GO) e sua motivação nasceu nos corredores de um hospital de trauma. A pesquisadora, em sua atuação hospitalar como enfermeira, observava um padrão: enquanto as equipes se mobilizavam para tratar as feridas físicas de mulheres vítimas de agressão, o sofrimento psicológico era ignorado.

"As pessoas olhavam muito para o físico, e não para o mental", relata. "Existia uma problemática grande, para além dos ferimentos que a gente conseguia ver". As entrevistadas durante a pesquisa, em sua totalidade, revelaram-se vítimas de violência emocional ao fim do questionário aplicado.

Constatando a violência

Para dimensionar o problema, a primeira fase da pesquisa aplicou o instrumento World Health Organization Violence Against Women (WHO VAW), questionário desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Nessa etapa, 94 mulheres foram entrevistadas com 13 perguntas fechadas, sendo quatro perguntas sobre violência emocional, seis sobre violência física e três sobre violência sexual.

O resultado foi absoluto: 100% delas já haviam sido vítimas de violência psicológica, número que surpreendeu até mesmo a pesquisadora, que explica o dado pela falta de consciência sobre o que configura o abuso. Muitas participantes, ao serem convidadas, negavam ter sofrido violência.

"Elas verbalizavam para mim: 'não, mas eu nunca vivenciei isso, não vou servir para a sua pesquisa'. E aí, quando iam responder, percebiam que sim", conta. Insultos, humilhações, depreciação por parte de parceiros, familiares ou chefes, antes normalizados, eram finalmente nomeados como violência.

O estudo também confirmou que a vulnerabilidade social pode ser um fator que prende as mulheres ao ciclo de abuso. Mulheres com baixa escolaridade e mais de três filhos apresentaram mais chances de sofrer violência sexual. A dependência financeira, segundo a pesquisadora, transforma a permanência no ambiente violento em uma questão de sobrevivência.

Ela recorda o caso de uma participante da zona rural, espancada semanalmente pelo marido, que contava com certa naturalidade sobre os abusos que sofria. "Ela dizia: 'não tenho para onde ir. Se eu arrumar um emprego, o salário mínimo é só o aluguel. Vou levar meus filhos para a rua?'", exemplifica. "Nesse caso, a mulher pensa: melhor eu aqui sofrendo violência do que meus filhos expostos à violência na rua".

Quando perguntadas se já haviam sido insultadas ou humilhadas por alguém do gênero masculino, todas as entrevistadas responderam que sim. "Isso é extremamente comum e não necessariamente precisa ser por um parceiro íntimo, às vezes é um colega de trabalho, um chefe, pai, irmãos, tios, avós…", explica Rosilene.

Abusos verbalizados

Na segunda etapa da pesquisa, em um grupo focal, a pesquisadora ouviu relatos de mulheres que, pela primeira vez na vida, verbalizaram os abusos sofridos. A categoria de análise que mais marcou Rosilene foi "sensação de culpa, vergonha e sujeira", presente na maioria dos relatos.

Para ela, esse sentimento é o reflexo mais cruel de uma sociedade machista que responsabiliza a vítima. "A sociedade é muito efetiva em fazer as mulheres acreditarem que elas são culpadas de alguma forma pelo que aconteceu; pela roupa que vestiam, pelo lugar onde estavam", analisa. "A culpa, que deveria ser do agressor, é redirecionada para a vítima".

A dissertação também confirmou que a vulnerabilidade social gera mais violência. Fatores como baixa escolaridade, cor da pele e pobreza estão diretamente associados à exposição ao abuso. O contexto geográfico — urbano ou rural — também influencia.

"Quanto mais vulnerável a mulher, maior a probabilidade de ela sofrer e permanecer num ambiente violento", explica a pesquisadora. A dependência econômica aparece como principal âncora das vítimas.

Negligência profissional no sistema de saúde

O estudo também destaca a falta de preparo das equipes de saúde para lidar com mulheres vítimas de violência. A pesquisadora aponta que os profissionais, por serem parte da mesma sociedade estruturalmente machista, absorvem crenças de que determinado comportamento feminino poderia justificar a agressão. "'Ah, mas também… traiu o marido, pediu ou fez por onde'. A gente ouve muita coisa desse tipo", conta a autora.

No entanto, para a pesquisadora, a falha mais grave desse sistema é a omissão. "Nenhum profissional que fez o atendimento nunca perguntou para elas se elas tinham algum problema relacionado à violência", afirma. "Essa correlação [entre violência de gênero e transtornos mentais] ainda não está bem estabelecida para esses profissionais".

Como solução prática, a dissertação fundamentou a criação de um grupo terapêutico exclusivo para mulheres no município de Rio Verde, uma proposta que já foi submetida à universidade local em que a pesquisadora leciona atualmente.

"A ideia é dar subsídios para que elas consigam lidar melhor com essas situações, fortalecendo essas mulheres e criando uma rede de apoio", conclui Rosilene, citando o lema que prega aos seus alunos: "O conhecimento liberta".

 

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Fonte: Secom UFG

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