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Universidade Federal de Goiás
Pesquisa pintura corporal indígena

Pintura corporal indígena no Alto Xingu se transforma com influências digitais

Em 06/03/26 09:28. Atualizada em 06/03/26 09:31.

Jovens incorporam referências de mídias contemporâneas sem romper com grafismos rituais e memórias ancestrais

Luiz Felipe Fernandes

Pesquisa pintura corporal indígena
Jovens indígenas experimentam novas composições visuais | Foto: Instagram @waxamani_artegrafismo_indigena

Transformações recentes nas práticas de pintura corporal entre povos indígenas do Alto Xingu têm revelado como tradições ancestrais dialogam com tecnologias digitais e novas referências visuais contemporâneas. Pesquisas conduzidas pelo professor da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás (UFG), João Dantas, mostram que jovens indígenas têm incorporado elementos provenientes de redes sociais, cinema e esportes às pinturas corporais, sem que isso signifique abandono das formas rituais associadas à ancestralidade.

O professor explica que, entre os povos do Alto Xingu, na Amazônia brasileira, a pintura corporal ocupa um papel central na organização da vida social e cosmológica. Mais do que um elemento decorativo, ela funciona como uma forma de inscrição da memória coletiva no corpo, articulando identidade, pertencimento territorial e transmissão de conhecimentos entre gerações. Nesse contexto, cada grafismo carrega significados relacionados à espiritualidade, às relações sociais e à história dos povos da região.

A pesquisa observa que, diante da crescente circulação de imagens e tecnologias digitais, jovens indígenas têm experimentado novas composições visuais em contextos não rituais. Ao mesmo tempo, mantêm distinções claras entre essas experimentações e os grafismos utilizados em cerimônias e práticas tradicionais. Para os pesquisadores, esse movimento evidencia processos de mediação simbólica nos quais memória, identidade e pertencimento continuam sendo atualizados.

Segundo a análise, essas mudanças não devem ser interpretadas como sinais de perda cultural. Ao contrário, indicam formas de adaptação e reinvenção cultural em que as tecnologias digitais assumem um papel ambivalente: ampliam o contato com visualidades externas, mas também fortalecem estratégias indígenas de autorrepresentação e afirmação cultural.

Destaque internacional

Pesquisa pintura corporal indígena
Pinturas corporais inspiradas em personagens de cinema | Foto: Arquivo Pessoal

Parte dessas reflexões foi publicada no artigo Pintura corporal, tecnologias digitais e a ancestralidade no Alto Xingu, da revista MATRIZes, da Universidade de São Paulo (USP). O estudo foi desenvolvido em parceria com Marcos Costa de Freitas, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da UFG, e conta também com a participação de Asariku Yamayawa Waurá, professor indígena do povo Waurá, da Aldeia Piyulaga, no Território Indígena do Alto Xingu.

As discussões que integram essa linha de pesquisa foram apresentadas internacionalmente na palestra Inhabiting the Skin of the World: Forms, Memory, and Indigenous Presence in the Upper Xingu, realizada durante o seminário internacional Natural Resource Management and Sustainable Tribal Development: Bio-Cultural Issues and Challenges, promovido pelo Departamento de Antropologia da Utkal University, em Bhubaneswar, na Índia, nos dias 26 e 27 de fevereiro de 2026. A apresentação integrou a Distinguished Opening Lecture do evento, que reuniu pesquisadoras e pesquisadores de diferentes países para discutir gestão de recursos naturais, sustentabilidade e desafios socioculturais envolvendo povos indígenas.

A investigação também se articula com outras iniciativas acadêmicas e de extensão. Entre elas está a coordenação do grupo de trabalho Corpo, Memória e Território: Transformações e Resistências nas Práticas Culturais Indígenas, realizado durante a XV Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em novembro de 2024, o evento Presença Originária na UFG, sediado na FIC, promoveu encontros interculturais entre representantes do povo Waujá do Alto Xingu e a comunidade universitária, com atividades culturais, oficinas e rodas de diálogo.

Também integra esse conjunto de estudos o projeto Povo Kutanapu: Memórias e Esquecimentos no Alto Xingu (2025–2026), desenvolvido pelo estudante indígena Mayawakai Waura Mehinaku, bolsista de Iniciação Científica do CNPq, sob orientação de João Dantas e coorientação de Marcos Costa de Freitas. A pesquisa investiga processos de memória e esquecimento relacionados às narrativas históricas e às formas de transmissão de conhecimentos entre povos do Alto Xingu, buscando compreender como diferentes gerações elaboram e atualizam referências sobre ancestralidade, pertencimento e experiência coletiva no contexto contemporâneo.

 

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Fonte: Secom UFG

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