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Universidade Federal de Goiás
Trabalho análogo escravidão

Agricultura 4.0 convive com trabalho análogo à escravidão no campo brasileiro

Em 09/03/26 09:41. Atualizada em 09/03/26 09:41.

Professor da UFG discute como a modernização tecnológica da agricultura não elimina formas extremas de exploração laboral

Arthur Gabriel

A modernização tecnológica da agricultura brasileira não eliminou formas extremas de exploração do trabalho no campo. Pelo contrário: em muitas regiões, o avanço da chamada agricultura 4.0 convive com casos de trabalho análogo à escravidão. Essa é uma das principais conclusões discutidas pelo professor José Paulo Pietrafesa, da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Federal de Goiás (UFG), em um trabalho apresentado durante a Conferencia Académica por la Tierra, por la Vida y la Sociedad, realizada entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2026 na Universidade de Cartagena, na Colômbia. O evento reuniu pesquisadores de diferentes países para debater a reforma agrária e as transformações no mundo rural na América Latina.

Segundo Pietrafesa, as discussões sobre a questão agrária no Brasil dialogam diretamente com desafios enfrentados por outros países do Sul Global. "A questão agrária na Colômbia é um tanto semelhante à do Brasil, que por sua vez é semelhante na América Latina e em muitos países da África e da Ásia. Eles necessitam fazer uma reforma agrária socialmente, politicamente e tecnologicamente apropriada às suas populações tradicionais, assim como o Brasil", afirma.

No artigo, o pesquisador analisa a coexistência entre altos níveis de mecanização agrícola e formas precárias de trabalho no campo brasileiro. Para ele, esses dois fenômenos não são contraditórios. Em regiões de expansão agrícola ou de modernização conservadora, é comum encontrar propriedades altamente tecnificadas onde também ocorrem denúncias de exploração laboral. As variáveis, segundo ele, não são excludentes, pois em áreas com tecnologias avançadas também aparecem casos de fiscalização e libertação de trabalhadores em condição análoga à escravidão.

Outro aspecto observado pelo pesquisador é o perfil das vítimas. Segundo ele, grande parte dos trabalhadores resgatados em situações de exploração são migrantes, frequentemente recrutados por empresas terceirizadas em regiões mais pobres do país. A vulnerabilidade social é um fator central nesse processo. "A degradação do ser humano passa pela sua condição de vida. Sem recursos suficientes para ter dignidade, a pessoa se sujeita ao risco. Sem liberdade, sem recursos e sem identidade social e coletiva, a pessoa se obriga a aceitar as condições de trabalho que lhes são impostas".

 

Trabalho análogo escravidão
Não são raros os casos de trabalho análogo à escravidão em propriedades rurais brasileiras | Foto: Agência Brasil

 

Problemas estruturais

Na avaliação do pesquisador, dois problemas sociais ajudam a explicar a persistência desse cenário. O primeiro está relacionado às condições de vida nas regiões de origem dos trabalhadores migrantes, muitas vezes marcadas pela ausência de políticas públicas capazes de garantir trabalho e renda.

O segundo envolve a responsabilidade das empresas que recebem essa mão de obra. "As empresas que recebem estes trabalhadores deveriam fazer a própria fiscalização das condições de trabalho, uma vez que estes seres humanos estão dentro de suas propriedades, o que não ocorre", acrescenta.

O professor também aponta obstáculos estruturais para o enfrentamento do trabalho análogo à escravidão no Brasil. Entre eles estão a falta de políticas públicas, a insuficiência de estrutura do sistema judiciário para lidar com as denúncias, as desigualdades históricas no meio rural e a capacidade limitada de atuação de movimentos sociais em todo o território nacional.

Outro ponto discutido no trabalho é o impacto das novas tecnologias sobre o trabalho no campo. Para Pietrafesa, a agricultura 4.0 pode, em tese, reduzir tarefas degradantes, mas também levanta novas questões sociais. A mecanização pode substituir postos de trabalho sem que haja políticas de qualificação para os trabalhadores.

"Os trabalhadores destes sistemas de produção deveriam receber a qualificação necessária para desenvolver dignamente outras atividades ou, de forma mais estrutural, o Brasil deveria realizar uma reforma agrária, como política de Estado, e tudo o que isso implica, acolhendo milhões de trabalhadores que perderam os seus empregos para as máquinas", considera.

Novas formas de controle do trabalho

O estudo também discute transformações na organização do trabalho rural contemporâneo. Embora o avanço tecnológico aumente a produtividade, ele também pode intensificar mecanismos de controle sobre os trabalhadores.

De acordo com o pesquisador, o controle do trabalho deixou de ocorrer apenas no espaço físico das fazendas ou das fábricas, indo também para "os escritórios de empresas e para dentro das casas dos 'colaboradores', transformando o ritmo de vida privado dos trabalhadores e de vivência familiar em seus locais de trabalho e de controle".

Além disso, a mecanização exige trabalhadores com maior escolaridade e capacidade técnica para operar equipamentos sofisticados. Ainda assim, Pietrafesa observa que muitos desses postos reproduzem dinâmicas semelhantes às do taylorismo e do fordismo, baseadas na repetição de tarefas. "Essas novas atividades e equipamentos de trabalho requerem um conjunto de repetição de movimentos e normas que, ao final de cada dia de expediente, os trabalhadores não desenvolveram novos conhecimentos, apenas apertaram botões, manipularam um joystick", conclui.

 

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Fonte: Secom UFG

Categorias: Sociedade Humanidades FE