Do petróleo aos fertilizantes: como a guerra no Oriente Médio pressiona o agronegócio brasileiro
Escalada do conflito pressiona os preços dos fertilizantes no Brasil, elevando o custo das lavouras
Edson Roberto Vieira
Antônio Marcos de Queiroz
Com a continuidade da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, têm se multiplicado as discussões sobre o preço do petróleo. Convém lembrar que o preço dessa commodity é altamente relevante para a dinâmica inflacionária da maioria das economias, não apenas por seus efeitos diretos sobre o poder de compra das famílias, mas também por seus desdobramentos sobre custos e cadeias produtivas.
No Brasil, seu impacto mais imediato tem se dado sobre o preço do óleo diesel. Como o país ainda depende de importações para suprir parte relevante da demanda interna desse combustível, aumentos no preço internacional do petróleo tendem a ser rapidamente transmitidos aos custos logísticos e operacionais do agronegócio.
Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o transporte de cargas no Brasil é realizado predominantemente pelo modo rodoviário, que responde por aproximadamente 65% do total transportado. Esse fator, por si só, evidencia o potencial impacto do aumento do preço do petróleo sobre os preços dos demais produtos consumidos pelas famílias.
Evidentemente, esses impactos variam de setor para setor. No caso da agricultura, o efeito é particularmente relevante. Além do aumento de custos decorrente da elevação dos fretes para escoamento da produção, o diesel também encarece a operação de máquinas agrícolas utilizadas diretamente no manejo das culturas.
Mas não é só isso: a intensificação dos conflitos no Oriente Médio reacende uma preocupação recorrente para a economia brasileira, qual seja, a elevada dependência externa de insumos estratégicos para o agronegócio. Em particular, os fertilizantes ocupam posição central nesse debate, dada sua relevância para a produtividade agrícola e sua forte exposição a choques geopolíticos.
O Brasil é um dos países mais dependentes de fertilizantes importados no mundo, com importações que superam 80% do total consumido no país. Isso torna o setor agropecuário altamente sensível a variações nos preços internacionais e a desorganizações das cadeias globais de suprimento. Entre os insumos mais críticos está a ureia, fertilizante amplamente utilizado por fornecer nitrogênio, nutriente essencial ao crescimento das plantas.
O Oriente Médio assume papel estratégico nesse sentido. A região concentra parcela significativa da produção global de fertilizantes nitrogenados, especialmente ureia e amônia, sendo também relevante nas exportações desses insumos.
Isso tudo acaba sendo intensificado pelo fato de que uma parcela relevante do comércio global de fertilizantes e insumos associados precisa passar pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas estratégicas do mundo, situada entre o Irã e Omã e marcada por elevada sensibilidade geopolítica.
Assim, a escalada das tensões militares na região já pressiona os preços dos fertilizantes no Brasil, elevando o custo das lavouras, especialmente das culturas mais intensivas em nitrogênio.
No curto prazo, parte desses efeitos pode ser parcialmente amortecida por fatores sazonais e pelo timing das decisões de compra de insumos. Ainda assim, a persistência de preços elevados de fertilizantes e combustíveis pode alterar decisões produtivas. Em cenários prolongados de incerteza, produtores tendem a ajustar o uso de insumos, reduzir áreas plantadas ou modificar o mix de culturas, priorizando atividades menos intensivas em fertilizantes.
Choques no mercado internacional de ureia tendem a afetar mais intensamente culturas como milho, cana-de-açúcar e sorgo, que apresentam maior dependência de fertilização nitrogenada. Em Goiás, onde o sistema produtivo frequentemente envolve rotação entre soja e milho safrinha, esse efeito é particularmente relevante.
Em síntese, embora o conflito no Oriente Médio ocorra em uma região geograficamente distante, seus efeitos sobre o Brasil são diretos e economicamente relevantes. A dependência de insumos importados, a concentração geográfica da produção global de fertilizantes e a importância estratégica de rotas marítimas críticas podem impactar o agronegócio brasileiro de forma mais intensa do que outros setores de atividade econômica.
Mais do que um choque conjuntural, esse cenário reforça a necessidade de reflexão sobre a segurança de suprimentos e a resiliência das cadeias produtivas, notadamente em um ambiente internacional marcado por crescente instabilidade geopolítica.
Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás, n. 189, fevereiro de 2026.
Edson Roberto Vieira e Antônio Marcos de Queiroz são professores da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE) da UFG.
Envie sua sugestão de artigo para o Jornal UFG
Acesse aqui as diretrizes para submissão.
Receba notícias de ciência no seu celular
Siga o Canal do Jornal UFG no WhatsApp e nosso perfil no Instagram.
Política de uso
Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Jornal UFG.
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal UFG e do autor.
Fonte: FACE
Categorias: colunistas Humanidades FACE






