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Universidade Federal de Goiás
Filme Ditadura

Pesquisa aborda uso do cinema como resistência à ditadura em Goiás

Em 06/04/26 14:54. Atualizada em 06/04/26 14:54.

Dissertação analisa filme produzido para denunciar repressão, precariedade e influência estrangeira

Thais Teixeira

Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás (UFG) investigou como a juventude goiana se apropriou do cinema como forma de resistência à ditadura militar. Em sua dissertação de mestrado, a pesquisadora Lara Damiane de Oliveira analisou o curta-metragem A Fraude, produzido em 1968 por um grupo de estudantes de Goiânia e de uma escola de cinema de São Paulo.

O filme, dirigido por Jocelan Melquíades de Jesus, conta a história de um estudante que se divide entre o trabalho e os estudos para o vestibular. Ao conferir o resultado do processo seletivo, ele descobre que foi considerado "excedente" – termo que se referia àqueles que, embora tivessem alcançado a nota de corte do curso escolhido, não conseguiam entrar na faculdade por causa do número reduzido de vagas.

Embora seja um enredo de ficção, o filme se baseou em fatos reais, incluindo uma mobilização de estudantes que acusavam a UFG de fraude no vestibular de 1968, no auge da ditadura militar. Eles alegavam que a Faculdade de Medicina havia diminuído arbitrariamente as notas de vários candidatos para impedir que eles atingissem a nota de corte e, assim, eliminar a figura dos excedentes.

Entretanto, interpretações historiográficas e o próprio filme A Fraude sugerem que a manobra serviu para excluir estudantes com posicionamentos "progressistas" ou "subversivos". Além disso, os estudantes conectavam a falta de vagas e a precarização das universidades aos acordos entre o Ministério da Educação e a agência norte-americana Usaid (United States Agency for International Development).

Esses acordos previam que os Estados Unidos prestassem assessoria técnica para a reforma do ensino superior brasileiro. Os estudantes denunciavam esses acordos como uma forma de subserviência do regime militar ao imperialismo dos Estados Unidos e uma tentativa de privatizar ou "desnacionalizar" o ensino.

Lara explica que o reitor da UFG à época, Jerônimo Geraldo de Queiroz, teve um desgaste público com o regime militar, porque a Universidade estava com problemas estruturais. O governo obrigava a matrícula de estudantes, mesmo que as universidades não tivessem mais estruturas.

"A UFG travou esse embate com a ditadura. O ministro da educação, Tarso Dutra, na época, ameaçou intervir novamente na reitoria da UFG, tal qual havia feito com Colemar [Natal e Silva, primeiro reitor da UFG, entre 1961 e 1964]. E foi aí que o vestibular começou a ser eliminatório", acrescenta Lara.

Dessa forma, a alegada fraude no vestibular foi vista pelos estudantes não como um erro administrativo isolado, mas como uma extensão da política repressiva da ditadura que buscava controlar o pensamento crítico e moldar a universidade de acordo com os interesses militares e estrangeiros.

 

Filme Ditadura
Cena final se passa no Monumento das Três Raças, na Praça Cívica, em Goiânia | Imagem: Reprodução

 

Ação cultural como resistência

A pesquisa, que foi orientada pelo professor Rafael Saddi Teixeira, revela ainda que a própria realização do filme A Fraude foi um ato de resistência cultural, utilizando o cinema como ferramenta de luta política para dar voz à revolta estudantil contra o autoritarismo. Grande parte da equipe técnica e do elenco do filme era composta por estudantes que já estavam na mira dos órgãos de repressão, sendo citados em Inquéritos Policiais Militares (IPMs) e relatórios do Sistema Nacional de Informações (SNI).

Lara faz um paralelo entre o contexto abordado na pesquisa e o momento atual, em que o Brasil vive uma série de ataques à universidade pública, que colocam em risco a autonomia das instituições.

"Questionamentos sobre a liberdade de cátedra – com esse surto de estudantes filmando professores e denunciando supostas doutrinações – e a validade do que é produzido nas universidades, descredibilizando essas instituições, as gestões, os professores… infelizmente é uma tática comum de projetos obscurantistas e negacionistas", aponta a pesquisadora.

Ela acrescenta que isso se reflete nas percepções dos jovens sobre a universidade. "Se o filme pode nos apontar algo sobre o momento que vivemos, é que a universidade pública é um bem muito valioso da sociedade brasileira e que a juventude, em toda a história, empreendeu grandes lutas políticas para estar na universidade, para que a universidade fosse gratuita e de qualidade".

Acesse aqui a dissertação Contra os tigres de papel: juventude, cinema e resistência ao regime militar em Goiás no filme "A Fraude" (1968).

 

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Fonte: Secom UFG

Categorias: Arte e Cultura FH destaque Notícia 4