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Universidade Federal de Goiás
energia solar UFG

Energia solar muda o sistema energético brasileiro

Em 13/04/26 09:40. Atualizada em 07/05/26 14:07.

A grande novidade da nossa matriz nos últimos anos não deve ser vista como solução mágica, mas complementaridade

 

energia solar UFG
A Universidade Federal de Goiás produz hoje metade da energia que consome, por meio de painéis solares | Foto: Carlos Siqueira/Secom UFG

 

Kharen Stecca

A energia solar é a fonte mais barata e limpa da matriz energética brasileira. No entanto, nos últimos anos, tem enfrentado um desafio que leva o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a ordenar desligamentos temporários de grandes usinas, cada vez com mais frequência, para evitar colapsos no sistema elétrico. Até poucos anos atrás, quando a sociedade era apenas consumidora da energia, essa não era uma preocupação. Inclusive em 2001 e 2002 houve exatamente o oposto: o Brasil teve grandes problemas com a baixa produção energética e a alta demanda.

Mas com o crescimento do uso da energia solar como matriz energética e a popularização das "usinas de telhado" – apelido dado à geração solar em pequena escala residencial e industrial – surgiram diversas informações truncadas que normalmente advêm justamente do desconhecimento sobre como funciona a matriz energética brasileira. Para entender esse sistema, o Jornal UFG conversou com professores da Universidade Federal de Goiás e com a Associação Brasileira de Produtores de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) para mostrar como essa nova matriz mudou o mercado de energia elétrica nos últimos anos e como é possível entender os gargalos desse sistema elétrico que, ao mesmo tempo, é um dos mais limpos do mundo, mas que ainda pode ser melhor aproveitado.

A série sobre o assunto será dividida em três partes. Esta primeira reportagem traz um panorama sobre os cortes energéticos e o que significam dentro do sistema. A segunda matéria explica como funciona esse sistema e quais as possibilidades para o futuro do setor. A terceira reportagem traz um panorama das pesquisas realizadas na UFG para o aprimoramento do setor energético brasileiro.

Equilíbrio da rede

O professor Enes Gonçalves Marra, da Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação (EMC) da UFG explica que a energia elétrica exige um complexo modelo de produção e distribuição que precisa ser muito bem orquestrado para garantir o equilíbrio da rede. "A energia produzida não pode exceder o consumo, sob o risco de provocar um colapso no sistema elétrico".

Quando há uma "sobra" de energia – o que tem acontecido com uma frequência muito maior de 2023 para cá, com o aumento das usinas solares em momentos de alta incidência solar e baixo consumo  – o ONS solicita que as usinas centralizadas interrompam a produção para garantir a estabilidade e a segurança do fornecimento nacional. "Assim como no passado o problema foi o excesso de consumo para uma baixa produção de energia, agora vivemos o exato oposto do problema e isso pode gerar o mesmo desequilíbrio", ressalta o professor.

Segundo o coordenador estadual em Goiás da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Francisco Maiello, esses cortes, que se intensificaram significativamente desde o início de 2024, já acumulam um prejuízo de quase R$ 3 bilhões para o setor. A incerteza gerada pelos cortes diários, somada à alta taxa de juros e à volatilidade do dólar, segundo ele, tem afastado investidores que buscam segurança jurídica para contratos de longo prazo. Os dados da associação revelam uma desaceleração clara: enquanto em 2024 foram adicionados 15 GW à matriz, em 2025 esse número caiu para 10 GW, representando uma queda de quase 30%.

 

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Fonte: Consultoria Volt Robotics Designer | Arte: Cristiane Iam/Secom UFG

 

Energia em "tempo real"

A raiz dessa dificuldade técnica é a impossibilidade de armazenar energia na forma elétrica em larga escala. Como explica Enes, diferente das hidrelétricas, que funcionam como "baterias de água" nos reservatórios, ou dos combustíveis fósseis (diesel, gás, petróleo) que podem ser estocados, a eletricidade solar precisa ser consumida no exato momento em que é gerada. "Embora existam tecnologias de armazenamento químico em baterias, elas ainda são consideradas caras e não atingiram a maturidade tecnológica necessária para viabilizar economicamente o suporte a grandes redes, o que obriga o sistema a descartar o excedente de produção", ressalta o professor.

Esse cenário de desperdício já atinge proporções alarmantes: dados da Absolar apontam que cerca de 20,6% do potencial de geração (aproximadamente um quinto da produção) de usinas eólicas e solares está sendo cortado por razões energéticas ou operacionais. Esse valor subiu muito ao longo dos anos com a evolução do sistema.

Enes afirma que essa situação impacta diretamente a viabilidade econômica do setor, uma vez que o investidor é remunerado pela energia que efetivamente vende. Com uma parcela significativa da capacidade produtiva ficando ociosa por ordem do sistema, o negócio torna-se menos atrativo, o que pode desencorajar novos aportes financeiros e frear a expansão de grandes parques solares no país.

 

O DILEMA ENTRE LUCRO E SEGURANÇA DO SISTEMA: CHERNOBYL E FUKUSHIMA

A gestão de grandes sistemas de energia é marcada por um conflito constante entre a viabilidade econômica e a segurança operacional. No Brasil, o Operador Nacional do Sistema (ONS) frequentemente tem ordenado que usinas interrompam a produção para evitar um excesso de carga que poderia colapsar a rede.

Essa medida, embora tecnicamente necessária, gera tensões com investidores, que deixam de lucrar ao serem impedidos de vender a energia que suas usinas são capazes de gerar. Segundo o professor Enes Gonçalves Marra, da EMC/UFG, o risco surge quando o interesse econômico se sobrepõe à prudência técnica, levando a decisões que podem resultar em catástrofes. E a história está cheia de exemplos.

O acidente de Chernobyl – usina nuclear de geração de energia – em 1986, na Ucrânia, é citado como um exemplo drástico dessa negligência. Na ocasião, a realização de um teste levou à desativação de proteções essenciais do reator, o que Enes descreve como um ato de imprudência. Ele destaca que o problema central naquele caso não foi apenas a tecnologia em si – que era perigosa e exigia cuidado extremo –, mas as decisões humanas que ignoraram protocolos de segurança em favor de objetivos operacionais ou de produtividade, tornando-se a verdadeira fonte do acidente.

Da mesma forma, o desastre de Fukushima, em 2011, no Japão, ilustra como o lucro pode silenciar alertas de segurança. O especialista lembra que os proprietários da usina receberam avisos antecipados sobre a chegada do tsunami, e o procedimento correto seria desligar a usina e esvaziar os reatores. No entanto, em uma aposta de que a água não atingiria o local, os gestores optaram por manter a operação para não interromper o faturamento.

Nesse cenário, o "dinheiro falou mais alto", afirma Enes, resultando no vazamento de radiação após a inundação dos reatores. Para o professor, esses casos históricos servem de alerta para qualquer matriz energética: a decisão de interromper ou não uma produção nunca deve ser puramente técnica ou econômica, mas deve considerar o impacto social e ambiental.

Ele enfatiza que o maior risco das usinas não é o "perigo nuclear" ou o risco técnico isolado, mas a tendência de tomar decisões visando o lucro imediato em detrimento da segurança coletiva. Agir de forma racional e menos negligente é, portanto, o que garante a viabilidade da vida humana e a estabilidade de todo o sistema elétrico.

 

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Fonte: Secom UFG

Categorias: Setor energético Ciências Naturais EMC Especial Notícia 1