O desenho de Marcelo Solá no encalço do mundo
Exposição "Ainda assim por isso mesmo" reúne cerca de 90 obras do artista goiano
Paulo Duarte-Feitoza
Há três anos que Goiânia não recebia uma grande exposição individual de Marcelo Solá, um de seus artistas mais celebrados. Para quem visitou, em 2023, no Centro Cultural UFG, a exposição Os desenhos inéditos do Gabinete Vermelho, a experiência ainda ecoa, ao menos na minha memória, mas certamente também na de quem passou por aquela galeria e se deixou envolver pelas paredes vermelhas que abraçavam trabalhos tão singulares.
Um ano depois, em 2024, Mariana Belley e Jarleo Barbosa, à frente da organização de um dos eventos recentes mais marcantes da cidade, o festival Fabular – Para ler o mundo, me convidaram para conversar com o artista. Confesso: me preparei, e muito. Havia uma admiração já consolidada por sua obra, mas também um certo receio diante da possibilidade de não conseguir acessar aquilo que a tornava tão singular. A conversa, fluida, generosa, escapou ao roteiro previsto e se construiu em torno de temas que hoje me parecem centrais em seu trabalho: a arquitetura do desenho, sua iconografia pessoal e, sobretudo, a importância de ver o mundo com atenção.
É com essas duas memórias, o impacto daquela exposição e a experiência direta do encontro, que visitei, já por três vezes, na nova individual em cartaz no Centro Cultural Octo Marques, Ainda assim por isso mesmo, com curadoria de Daniela Labra. Não se trata apenas de uma nova mostra, mas de um retorno aguardado num equipamento cultural público goianiense, que recoloca sua obra em circulação na cidade e convida o público a reencontrá-la sob outras condições de leitura.
Nesta nova individual, algo se organiza, para mim, de maneira ainda mais evidente: o desenho como estrutura orgânica. Mesmo quando opera na pintura, seu trabalho parece sempre partir do desenho, como se ele fosse seu verdadeiro arquiteto, o princípio organizador de formas, tensões e narrativas.
Não é irrelevante lembrar que o artista integra uma geração de artistas goianos que, a partir dos anos 1990, passa a tensionar certos legados modernistas, experimentando uma linguagem decididamente contemporânea e, sobretudo, reelaborando o urbano de maneira singular. Em sua produção, essa dimensão aparece como uma espécie de ruído incorporado, um campo de forças que atravessa e organiza suas imagens.
Essa percepção se amplia quando consideramos a exposição Coleção hidrolands grafisch atelier, que acompanha a individual, e que reúne uma seleção da coleção do artista, organizada por ele em parceria com Isabela Preto, com expografia de Cleandro Elias. Ali, torna-se visível uma constelação de afinidades: artistas cuja produção gravita em torno do desenho ou de um entendimento de mundo dito primigênio (Demir, Poteiro, Siron, Pitágoras, Pedro Kastelijns, Chico Silva, Conceição Silva, Emília Simon, Moacir, entre tantos outros), muitas vezes atravessado por um gesto que poderíamos chamar, sem ingenuidade, de primário ou inaugural.
Vejo nesses trabalhos uma aposta na força inaugural do traço, naquele momento em que desenhar é também uma forma de descobrir o mundo, quase que pela primeira vez. Nesse sentido, a coleção não funciona como apêndice, mas como chave de leitura, permitindo compreender gostos, recorrências e aproximações que atravessam sua própria produção.
Chamam a minha atenção, nesse contexto, os trabalhos realizados a quatro mãos, especialmente aqueles desenvolvidos em parceria com Estêvão Parreiras e Pablo Martin. Há neles uma dimensão de abertura e de generosidade que desloca a ideia de autoria como território fechado. A história da arte oferece precedentes para esse tipo de gesto, e aqui ele se apresenta como desdobramento quase natural de um pensamento compartilhado que se constrói em relação.
Neste sentido, a exposição atual não apenas reafirma a consistência de sua pesquisa, mas também amplia suas possibilidades de leitura, ao colocar obra e coleção em diálogo direto. Para quem já acompanhava seu trabalho, trata-se de um reencontro; para quem chega agora, de uma porta de entrada privilegiada.
Ao final, o que permanece é a impressão de que o desenho, aqui, é, além de linguagem, uma forma de "escuta" visual. Um modo de organizar os barulhos do mundo sem silenciá-los, de dar forma ao que é disperso sem fixá-lo completamente. Talvez seja justamente por isso que esta seja uma exposição que se experimenta, e que merece ser visitada com tempo e atenção.
A já recorrente citação de Paul Klee sobre a linha como um ponto que sai a passeio tornou-se, por sua repetição, quase indigesta. Ainda assim, aqui, é difícil não lembrá-la. Porque, no trabalho de Marcelo Solá, as linhas de fato saem. E, sobretudo, passeiam.
Paulo Duarte-Feitoza é curador, professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).
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Fonte: FAV
Categorias: artigo Arte e Cultura fav






