Bloco de microconcreto ecoeficiente reduz custos na obra
Pesquisa de professor da UFG deve gerar três patentes que já estão em fase de registro
Kharen Stecca
Um bloco de microconcreto que funciona por um sistema de encaixe e elimina o uso da argamassa produzido com produtos ecoeficientes. Esse foi o resultado da pesquisa de doutorado do professor Haroldo Dias Flauzino Neto, do curso de Arquitetura e Urbanismo do Campus Cidade de Goiás da Universidade Federal de Goiás (UFG), realizada na Universidade de São Paulo (USP). O projeto deve gerar três patentes que já estão em fase de registro: o design do bloco de encaixe e duas misturas diferentes de microconcreto que incorporam fibras recicladas de coco e de garrafas pet. O projeto ainda está sob sigilo devido à tramitação da patente, mas após essa etapa deve ser disponibilizado ao público.
Batizado de Mating Connection, o componente é um bloco de microconcreto com um sistema de encaixe por "acasalamento", onde todas as peças são iguais e reversíveis, permitindo que a parte superior se ajuste perfeitamente à inferior de outro bloco. Segundo o pesquisador, o grande diferencial do design é ser totalmente de encaixe, o que elimina a necessidade de argamassa de assentamento e autoportante, eliminando a necessidade de vigas e pilares.
Segundo ele, diferente de outros modelos existentes no mercado, o encaixe do bloco é mais concentrado e avantajado, o que proporciona maior resistência mecânica e estabilidade – ao contrário de blocos tradicionais que podem "escorregar" se não utilizarem argamassa. Além disso, o sistema foi pensado de forma integrada para instalações prediais, possuindo canais que facilitam a passagem de conduítes e fiação elétrica sem a necessidade de quebrar as paredes.
Ecoeficiência
O projeto trabalha com princípios da ecoeficiência, termo que o pesquisador prefere à "sustentabilidade”. Isso porque, embora o processo minimize significativamente os impactos ambientais, ele não é 100% isento deles. A composição utiliza o microconcreto, uma mistura de agregados pequenos que, nesta pesquisa, atingiu índices de resistência estrutural superiores ao concreto e ao cimento isolados.
A inovação reside na adição de fibras. Foram testadas duas fórmulas. A adição de fibra de PET (polietileno tereftalato) – utilizada em um formato não linear (poligonal de 45 graus), o que oferece maior aderência – e fibra de coco, um fibra natural desidratada que, quando combinada à fibra de PET, apresentou resultados de resistência ainda mais expressivos. O uso das fibras contribui para a redução do teor de cimento, reconhecido como um dos principais emissores de gás carbônico, além de possibilitar o uso de um insumo de menor custo.
"O uso dessas fibras, somado à inserção de um material calcário (filler), permitiu reduzir a quantidade de cimento na mistura", explica Haroldo. O pesquisador conseguiu utilizar um cimento de baixo custo e menor resistência inicial, mas que, após a composição, ultrapassou as exigências das normas de desempenho da construção civil.
Resistência
Os testes laboratoriais mostraram que o material possui um índice de retração muito menor que o concreto comum, evitando que o bloco dilate e comprometa o sistema de encaixe. "Em ensaios de impacto de corpo mole, que simulam acidentes cotidianos, a parede com fibras mostrou alta tenacidade; o impacto de um pêndulo pesado resultou em danos quase imperceptíveis a olho nu", afirma Haroldo.
Além da resistência, o bloco é ligeiramente mais leve que o tradicional, facilitando a logística de transporte e a execução por meio de autoconstrução. "Estima-se que a eliminação da argamassa e a eficiência do sistema possam gerar uma redução de 25% a 30% no custo final da obra", avalia o professor.
O projeto foi autofinanciado pelo pesquisador, que contou com o apoio da UFG para sua licença de doutorado na USP. Inicialmente, segundo ele, a ideia era criar um painel monolítico, mas limitações de equipamentos laboratoriais e prazos de titulação levaram à adaptação para o formato de blocos de encaixe.
Cartilha
O professor ressalta que o futuro da tecnologia foca na acessibilidade. A intenção do pesquisador não é vender a patente para uma empresa exclusiva, mas sim realizar a transferência tecnológica para os interessados. Ele planeja desenvolver uma cartilha didática para que as pessoas aprendam a fabricar tanto a forma quanto o microconcreto, promovendo o acesso à mão de obra qualificada e materiais de alta resistência.
O professor ressalta que os resultados contribuem para a viabilização de construções de baixo custo, de execução simples e sem necessidade de mão de obra especializada, o que dá à pesquisa uma importante dimensão social, possibilitando que pessoas de baixa renda possam executar suas próprias edificações de forma autônoma.
Novos estudos já estão no horizonte, incluindo a incorporação de terra local às misturas para melhorar o desempenho térmico e acústico das edificações, uma técnica tradicional que pode auxiliar a criar soluções cada vez mais econômicas e eficientes.
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Fonte: Secom UFG
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