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Universidade Federal de Goiás
Pint of Science

Festival leva debates sobre saúde, filosofia e divulgação científica para a mesa do bar

Em 21/05/26 16:57. Atualizada em 22/05/26 14:12.

No ThorDön Bierhaus, evento proporcionou conversas descontraídas com pesquisadores da UFG sobre temas que atravessam o cotidiano

 

Pint of Science
Professora Bárbara Rocha, da Faculdade de Enfermagem da UFG, falou sobre os riscos de se consultar com o "Dr. Google" | Foto: Evelyn Parreira/Secom UFG

 

Kharen Stecca
Márcia Araújo
Luiz Felipe Fernandes

Quem nunca presenciou ou já foi a própria pessoa que, ao pesquisar um sintoma na internet, foi informada de que estava com uma doença mortal? Entre o medo e o meme, esse comportamento tão comum pode, em vez de informar, trazer riscos à própria saúde. Essa prática de se "consultar" com o "Dr. Google" foi o tema do primeiro dia do festival Pint of Science no ThorDön Bierhaus Pub, no Setor Jaó, em Goiânia, na última segunda-feira (18/5).

É o terceiro ano consecutivo que Goiânia, por meio da Universidade Federal de Goiás (UFG), participa da iniciativa internacional que leva a ciência para a mesa do bar. Cerca de 500 pessoas estiveram presentes nos três dias de evento no ThorDön e na Lado Leste Cervejaria, no Setor Leste Universitário.

Acesse aqui o álbum de fotos do evento.

 

CIÊNCIA NO ROLÊ

O festival Pint of Science foi criado em 2012, na Inglaterra, e chegou ao Brasil em 2015. O evento reúne cientistas, especialistas e professores em bares e restaurantes para discutir temas relevantes em diversas áreas do conhecimento. O festival acontece todos os anos simultaneamente em mais de 25 países.

Em Goiânia, o evento é organizado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio da Secretaria de Comunicação (Secom), em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) e a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI).

Em 2026 o Brasil foi o país com o maior número de municípios participantes: 203 cidades, segundo a organização nacional do evento. Além de democratizar o acesso ao conhecimento científico, o festival contribui para despertar vocações, fortalecer a educação e valorizar a produção científica nacional.

 

A professora Bárbara Rocha, da Faculdade de Enfermagem (FEN) da UFG, abordou o fenômeno "Dr. Google" de forma leve, mas com muitos dados: a busca por sintomas e medicamentos na internet é onipresente, sendo as mulheres, em especial as mães, as que mais buscam as plataformas.

Dados de 2026 indicam que 92,3% da população têm acesso à internet e, destes, 77% buscam informações de saúde on-line, sendo o Google a ferramenta soberana (94,6%), seguido pelo YouTube. Os temas mais buscados são sintomas, uso de medicamentos e hábitos saudáveis.

Mas o fenômeno, como explicou a professora, também é fruto de uma realidade: há dificuldade de acesso ao atendimento médico e uma hiperespecialização da medicina, aliadas a uma sociedade que busca respostas rápidas e fáceis para seus desconfortos. Bárbara também apontou a falta de uma escuta realmente qualificada por parte dos profissionais de saúde.

No entanto, o que devia informar pode desinformar: "Nós vivemos isso na pandemia. Agora há mais dificuldade de pessoas, que antes se vacinavam, buscarem esse serviço, o que fez a cobertura vacinal despencar", ressaltou.

É o fenômeno da infodemia – o excesso de informação e a pouca qualificação para entender essas informações. Segundo dados apresentados na palestra, 70% das pessoas acham fácil encontrar informações, mas 40,8% têm dificuldade de avaliar se a fonte é confiável e 26% não conseguem transformar a informação lida em uma ação prática para a saúde. "Há uma dificuldade de compreender e avaliar criticamente as informações", explicou a professora da UFG.

Mas Bárbara vê com bons olhos essa nova realidade, desde que seja bem utilizada. Para isso ela apresentou recomendações práticas para uma melhor utilização da ferramenta: não fechar o próprio diagnóstico sem ir ao profissional de saúde, mas utilizar a ferramenta para fazer boas perguntas na hora da consulta; desconfiar de promessas de cura ou de teorias conspiratórias; preferir pesquisar em instituições e portais oficiais.

A professora fechou a palestra com uma frase de impacto, mas que resume o cuidado necessário com as ferramentas digitais: "O problema não é pesquisar no Google. O problema é sair da pesquisa já escolhendo o caixão".

 

Leia também: Coaxar dos sapos, vapes e moda: ciência invade o cotidiano no Pint of Science 2026

 

Pint of Science
Apresentação do professor Ricardo Dalla Vecchia abordou filosofia, psicanálise, literatura e cultura pop | Foto: Divulgação

 

Filosofia na mesa do bar

Já a apresentação da terça-feira (19/5) no ThorDön foi sobre as ideias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. O professor Ricardo Dalla Vecchia, da Faculdade de Filosofia da UFG, abordou o tema em diálogo com a psicanálise e a literatura, acrescentando uma pitada de cultura pop. O tom provocativo e bem-humorado embalou uma noite com reflexões sobre memória, convicções e ressentimento, com grande participação do público.

Ricardo iniciou com um exercício de regressão. Primeiro mencionou o Filme MIB – Homens de Preto, onde um "neuralizador" era capaz de apagar as memórias de uma pessoa de determinado período. Então propôs que o público pensasse sobre o que perderia ou quem passaria a ser caso se esquecesse de tudo o que ocorreu no último dia. Depois, na última semana, no último ano, nos últimos 100 anos, nos últimos 2 mil anos... Nesse ponto, ressaltou, perderíamos o cristianismo inteiro.

Aumentando ainda mais a regressão, o professor propôs voltar 6 milhões de anos, ao chamado ponto zero ou o que Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes chamaram de estado da natureza. Mas registrou que Nietzsche foi mais longe. "Eu perguntaria a vocês o que que restaria se nós apagássemos todas as nossas memórias culturais. Restaria esquecer a memória. É a memória que permite ao ser humano fazer promessas, empenhar a palavra, lembrando o que prometeu, e transmitir essas promessas individuais e coletivas. Sem memória não haveria civilização, nem moral, nem conhecimento. É a memória que constrói o sujeito".

Ricardo então ressaltou que aprendemos tanto a lembrar que fomos desaprendendo a esquecer. Segundo ele, é como uma doença de base que se tornou crônica por maus hábitos de memória. "A civilização produziu aquilo que Freud vai chamar de mal-estar. E o agravamento dessa doença é o que Nietzsche chamou de niilismo. Ora, qual é o sintoma dessa falta de sentido? O sintoma, digamos assim, mais evidente, é o ressentimento que se manifesta nos discursos de ódio, nos regimes totalitários, no fascismo".

O ressentido, segundo o professor, não consegue metabolizar suas vivências, especialmente as vivências negativas, aquelas que contrariam o seu desejo, o seu ponto de vista. "Nietzsche usou a expressão dispepsia, é a doença da digestão psíquica. Ele engole a ofensa. Essa disfunção que compromete tanto o presente quanto o futuro do ressentido. É uma incapacidade de assimilar o passado que trava o presente e o futuro".

No fundo, explicou Ricardo, o ressentido se vinga de si mesmo. "Do quê? Da sua fraqueza. Esse mecanismo tem nome: se chama culpa. E, na impossibilidade de lidar com a própria culpa, ele a projeta no outro e diz: se eu sofro, a culpa é sua. Logo, você é mau e o bom sou eu. E aí temos a origem do valor moral do ressentido". Entre outros exemplos de ressentidos, Ricardo citou Dom Casmurro, personagem de Machado de Assis.

 

Pint of Science
A jornalista Kharen Stecca (Secom/UFG) contou a história do Jornal UFG, que completa 20 anos | Foto: Evelyn Parreira/Secom UFG

 

Divulgação científica no Cerrado e o Jornal UFG

Fechando o último dia de festival no ThorDön, na quarta-feira (20/5) os jornalistas Kharen Stecca e Luiz Felipe Fernandes, da Secretaria de Comunicação (Secom) da UFG falaram sobre a importância de realizar divulgação científica, incluindo iniciativas como o Pint of Science.

Em uma palestra com participação do público, eles explicaram a diferença entre comunicação científica entre pares – aquela feita de cientistas para cientistas – e divulgação científica, caracterizada por ações e atividades que buscam aproximar a ciência da sociedade.

Com exemplos e dados, Luiz Felipe mostrou que o brasileiro se interessa por assuntos de ciência e tecnologia, embora o noticiário privilegie determinadas área de conhecimento e o aspecto utilitário da ciência.

Como alternativa a esse tipo de cobertura, Kharen apresentou o Jornal UFG, que completa 20 anos em 2026. Ela contou um pouco da história do veículo, criado em 2006, e sobre sua pesquisa que teve como objeto de análise o próprio jornal. A partir de uma pesquisa de recepção, a jornalista observou como os conteúdos do Jornal UFG são percebidos pelo público leitor.

Também foram apresentadas diversas matérias do Jornal UFG que ganharam repercussão no Brasil e no mundo, tornando a ciência do Cerrado ainda mais conhecida. Entre os exemplos estiveram o projeto Cerúmen, que usa a cera de ouvido no diagnóstico do câncer, o teste rápido para diabetes feito com a lágrima, e a nanopartícula que reverte overdose por cocaína.

 

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Fonte: Secom UFG

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