Redpill: como o discurso de ódio contra mulheres ganha espaço nas redes sociais
Estudo analisa como influenciador constrói autoridade e ecoa discurso misógino
Ana Beatriz Santiago
Em meados de 2023, um vídeo de Thiago Schutz, conhecido como coach de masculinidade redpill, ganhou grande repercussão no cenário digital brasileiro e lhe rendeu o apelido de "Calvo do Campari". Na gravação, o influenciador afirma que as mulheres tenderiam a manipular os homens em função de seus próprios interesses e desejos.
Ainda que, para algumas pessoas, o episódio tenha parecido apenas uma piada passageira e, para outras, um conselho banal, reduzi-lo a um simples meme seria ignorar a dimensão de seus efeitos. Mais do que um conteúdo de humor momentâneo, o vídeo reforça visões problemáticas sobre as relações entre homens e mulheres.
Conteúdos como os produzidos por esse influenciador não são casos isolados. Eles exemplificam um tipo de discurso que circula no universo redpill, movimento de caráter misógino no qual certos grupos de homens sustentam a ideia de uma suposta masculinidade biologicamente dominante, perspectiva que também é reforçada e difundida por Schutz.
Em sua pesquisa de mestrado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sabrina Cesar Serra buscou compreender os mecanismos argumentativos, retóricos e discursivos que levam milhares de homens, e em alguns casos também mulheres, a aderirem, reproduzirem e reiterarem as ideias propagadas por esse influenciador.
O estudo, orientado pelo professor Rubens Damasceno-Morais, se voltou para o modo como esses conteúdos operam, buscando compreender como conquistam a adesão do público, geram identificação e seguem circulando com força nas interações digitais.
Sabrina explica que o interesse pelo tema surgiu quando o vídeo de Schutz passou a viralizar não apenas nas redes sociais, mas também em veículos de notícia no Brasil. Diante da grande repercussão do episódio e de seu teor violento, ela passou a observá-lo com olhar investigativo, percebendo ali não apenas um "meme", mas um acontecimento discursivo que exigia análise mais atenta.
"A partir desse acontecimento, a investigação passou a se orientar pela busca de compreender como esse enunciador constrói seu ethos (credibilidade), se ele se ancora em determinadas representações sociais da mulher e se tais representações sociais reverberam no conteúdo das interações estabelecidas entre os usuários que comentam seus vídeos", detalha.
A pesquisadora também foi movida pela urgência social que atravessa o tema. Ela ressalta que o Brasil apresenta índices alarmantes de violência contra a mulher, como evidenciam dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Segundo Sabrina, "conteúdos como os produzidos por Schutz podem atuar como vetores discursivos de reforço desse cenário violento, na medida em que incentivam formas hostis de pensar e agir em relação à mulher e legitimam desigualdades de gênero”.
Autolegitimação: a aliança do público
Segundo a pesquisa, o influenciador Thiago Schutz não se dirige ao público da mesma maneira. Ao longo de seus vídeos, ele assume diferentes posturas, aquilo que os estudiosos chamam de ethos, isto é, uma imagem de si. Em termos mais simples, trata-se da forma de se apresentar ao público para parecer confiável, convincente e digno de credibilidade.
Para desenvolver a análise, a pesquisadora reuniu 79 shorts (vídeos curtos), coletados da página oficial do influenciador no YouTube e, desse conjunto, selecionou quatro vídeos considerados os mais violentos e com maior número de interações entre os usuários.
Sabrina identificou que, em cada vídeo, o influenciador assume diferentes ethé (plural de ethos). Nos vídeos, aparecem o ethos de especialista, de conselheiro, de redentor e de justiceiro. Cada uma dessas formas de se apresentar (imagens de si, ethos) cumpre uma função específica. "Essas imagens funcionam como dispositivos de autolegitimação, porque fazem com que ele pareça alguém que sabe, orienta, alerta, salva ou denuncia", explica.
O segredo, segundo Sabrina, é que "a credibilidade não decorre só do conteúdo dito, mas da persona discursiva que ele encena diante do seu público-alvo, em sua grande maioria, homens". Um exemplo disso aparece na análise de um dos vídeos, em que a pesquisadora destaca a importância do vestuário, em conjunto com a fala do influenciador, na construção de uma imagem de credibilidade diante do público que ele busca alcançar.
No vídeo em questão, Thiago Schutz aparece usando casaco escuro e óculos escuros, embora esteja em casa, em um contexto que não exigia esse tipo de vestimenta. Para a pesquisadora, essa escolha não é casual. "Tais escolhas são intencionais e produzem um verniz de autoridade sobre o ethos do enunciador, isto é, sobre sua imagem", destaca.
O estudo revela que ele se veste de forma semelhante ao personagem Neo, do filme Matrix. Esse aspecto é significativo porque o nome do movimento antifeminista redpill foi inspirado justamente em uma cena do filme. Em específico, na cena em que o protagonista Neo deve escolher entre a pílula vermelha (redpill, em inglês), que lhe trará a verdade, e a pílula azul, que o manterá sob o conforto da ilusão.
Ao se vestir de forma semelhante ao personagem da ficção, o coach/influenciador busca associar sua imagem (ethos) como aquele que é capaz de revelar a verdade aos outros (nesse caso, aos "homens vítimizados"), tal como Neo. Para Sabrina, "o vestuário, associado ao discurso mobilizado, ajuda a projetá-lo como alguém capaz de revelar a ‘verdade’ a homens supostamente enganados pelas mulheres".
A pesquisa mostra ainda que, para sustentar sua autoridade, Schutz se apoia em certas compreensões sociais da mulher, as quais o estudo define como representações sociais. Foram apontadas seis representações sociais principais: a mulher primitiva, a oportunista ou usurpadora, a cuidadora, a impura, a envelhecida ou desvalorizada e a vitimista.
Essas representações sociais da mulher "cumprem a função de sustentar a construção dos ethé de Schutz e, simultaneamente, legitimar sua autoridade perante o público masculino", explica Sabrina. Em outras palavras, além do discurso e do vestuário, o influenciador mobiliza representações hostis e depreciativas sobre a mulher para fortalecer sua imagem de credibilidade diante do público.
Sabrina acrescenta que "a imagem de credibilidade (ethos) edificada pelo enunciador, em composição com a mobilização das representações sociais da mulher, funcionam como engrenagens argumentativas, ora legitimando o motivo de os homens serem supostamente 'preteridos ou explorados' pelas mulheres, ora funcionando como uma espécie de alerta moral cuja solução exigiria alguém especializado no assunto".
A pesquisadora ainda complementa que, agindo assim, “o influenciador se projeta como uma espécie de herói autoproclamado, uma voz lúcida, autorizada e indispensável, supostamente destinada a abrir os olhos dos homens para os perigos quase épicos da manipulação feminina e a guiá-los, como um grande iniciado, pelos perigosos labirintos das relações heterossexuais".
Efeito mimético: a reprodução de padrões
Além de analisar os ethé construídos pelo influenciador nos vídeos selecionados, a pesquisadora também investigou as interações entre os internautas que comentam esse conteúdo. Segundo ela, essas interações se organizam em torno da compreensão sobre o que é a mulher, discutindo como ela deve ser, como deve se comportar e quais lugares deve ou não ocupar nas relações sociais, sobretudo nas relações amorosas.
Nesse ambiente digital, os internautas disputam argumentos, posicionamentos e sentidos, muitas vezes atravessados por um elevado nível de violência verbal. Um exemplo disso ocorre quando um usuário defende o fim da Lei Maria da Penha, sob a justificativa de que ela vitimizaria os homens. Em resposta, outro internauta confronta esse posicionamento ao afirmar que, na verdade, tal defesa revelaria o desejo de "bater em mulher sem ser punido", observa Sabrina.
Sabrina mostra que, em sua maioria, os internautas que interagem por meio dos comentários repetem e, por vezes, até ampliam as representações da mulher mobilizadas pelo influenciador, produzindo um efeito mimético, isto é, um efeito de ressonância.
"O aspecto mais relevante é que esse processo mimético ocorre inclusive quando alguns usuários buscam refutar parcialmente o influenciador, pois acabam retomando, ainda que de modo não intencional, o mesmo repertório discursivo". Como observa a pesquisadora, mesmo os argumentos de discordância, em certos casos, continuam limitados ao quadro representacional e discursivo estabelecido pelo conteúdo difundido pelo influenciador.
Esse fenômeno "prismático" (aquilo que ecoa) se mostra como uma ferramenta argumentativa e discursiva proeminente na medida em que retroalimenta a credibilidade dos argumentos proferidos nos conteúdos do influenciador.
Assim, Sabrina conseguiu confirmar sua hipótese inicial: os ethé construídos por Schutz "funcionam, ao mesmo tempo, como mecanismos de autolegitimação discursiva e como vetores de difusão de interpretações misóginas sobre a mulher, contribuindo para a formação de uma bolha epistêmica que retroalimenta sua credibilidade no ambiente digital".
Para a pesquisadora, "a importância do estudo está em descortinar o funcionamento argumentativo de certos discursos que se estruturam, ganham força e afetam as interações na internet, hoje parte central da vida social. Mais do que circular no ambiente digital, esses discursos ecoam, se atualizam e recolocam em movimento formas violentas de pensar e interpretar o outro".
Desse modo, o estudo se apresenta como mais uma ferramenta para pensar formas de enfrentamento de problemas sociais dessa natureza, pois contribui para ampliar a compreensão de como determinados discursos se estruturam, circulam e produzem efeitos tanto na vida social on-line quanto off-line.
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Fonte: Secom UFG
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