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Universidade Federal de Goiás
Coluna Junho 2013

Junho de 2013 ainda está em disputa

Em 02/06/26 15:42. Atualizada em 02/06/26 15:43.

Treze anos depois, as ruas seguem desafiando interpretações simplificadoras

 

Junho 2013
Protestos de Junho de 2013 levaram milhares de pessoas às ruas de todo o país | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

Luís Augusto Vieira

Treze anos depois, Junho de 2013 continua sendo um acontecimento incômodo. Não porque falte memória sobre ele, mas porque sobra disputa em torno de seu significado. Para alguns, Junho teria sido uma grande explosão democrática e popular. Para outros, teria sido apenas a abertura de um ciclo conservador que desembocaria na crise política dos anos seguintes. O problema é que nenhuma dessas leituras, tomada isoladamente, dá conta da complexidade daquele processo.

Junho de 2013 não foi um acontecimento homogêneo. Foi uma irrupção contraditória, marcada por reivindicações legítimas, sujeitos diversos, disputas de direção, presença juvenil, críticas à representação política e forte insatisfação com as condições de vida nas cidades. A luta contra o aumento das tarifas do transporte público, que esteve na origem das manifestações, expressava muito mais do que uma demanda pontual. Tratava-se de uma crítica concreta ao modo como a vida urbana vinha sendo organizada: longos deslocamentos, transporte caro e precário, serviços públicos insuficientes e desigualdade no acesso à cidade.

Por isso, reduzir Junho a uma explosão espontânea e progressista é insuficiente. Mas também é equivocado interpretá-lo, desde sua origem, como uma conspiração conservadora ou como antessala automática da extrema direita. Junho foi atravessado por contradições reais da sociedade brasileira. Nele estiveram presentes trabalhadores, estudantes, juventudes urbanas, setores médios, militantes organizados, pessoas sem experiência política anterior e grupos que passaram a disputar, nas ruas, os sentidos das manifestações.

A ampliação dos protestos modificou sua composição e sua pauta. O que começou com a questão do transporte se desdobrou em críticas à corrupção, aos gastos públicos, à qualidade dos serviços, à violência policial, à representação política e às formas tradicionais de mediação institucional. Essa multiplicidade foi, ao mesmo tempo, força e limite. Força, porque revelou um mal-estar social amplo. Limite, porque a ausência de direção política clara abriu espaço para disputas de sentido e apropriações contraditórias.

As ruas de Junho foram também palco de disputa de classes e de projetos. Não havia nelas um único sujeito político. Havia interesses, expectativas e interpretações distintas sobre o que estava em jogo. Parte das reivindicações apontava para mais direitos, melhores serviços públicos e ampliação da democracia. Outra parte passou a expressar rejeição genérica à política, antipartidarismo e indignações que, posteriormente, seriam reorganizadas por forças conservadoras.

Esse é um ponto decisivo. As apropriações posteriores de Junho não autorizam apagar suas dimensões populares e progressivas. Mas suas dimensões populares também não permitem ignorar que havia, desde aquele momento, uma disputa aberta pela direção política das ruas. O que estava em jogo era justamente a capacidade de transformar indignação social em projeto coletivo. Sem organização, programa e mediação política, a energia das ruas pode assumir caminhos diversos, inclusive aqueles contrários às aspirações que inicialmente a moveram.

Revisitar Junho de 2013, portanto, não é exercício de nostalgia. É parte de uma disputa sobre a memória das lutas sociais no Brasil recente. A forma como interpretamos Junho influencia a maneira como compreendemos a crise política, a democracia, os movimentos sociais, a juventude, o direito à cidade e os limites da representação institucional.

Talvez a maior lição de Junho esteja em sua própria ambivalência. As ruas podem revelar contradições profundas, mas não resolvem sozinhas os rumos da história. Podem abrir possibilidades democráticas, mas também podem ser disputadas por forças regressivas. Podem expressar demandas populares legítimas, mas precisam de organização coletiva para não serem capturadas por projetos que lhes são estranhos.

Junho de 2013 ainda está em disputa porque o Brasil que o produziu também continua em disputa. A precarização da vida, a crise dos serviços públicos, a desigualdade urbana, a descrença nas instituições e a dificuldade de construir projetos coletivos permanecem como questões abertas. Mais do que perguntar se Junho foi "bom" ou "ruim", talvez seja necessário perguntar: quem disputou seus sentidos? Quem ficou pelo caminho? E que formas de organização coletiva ainda precisamos construir para que a indignação social não seja separada da luta por direitos, democracia e emancipação?

 

Luís Augusto Vieira é professor do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Goiás (UFG) Campus Goiás e líder do Motyrõ – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Questão Social e Direitos Humanos na periferia do capitalismo.

 

Nota do autor: este artigo deriva de reflexões desenvolvidas no trabalho "Junho de 2013: sobre sujeitos, classes e bandeiras de lutas", apresentado no XVIII Encontro Nacional de Pesquisadoras/es em Serviço Social (ENPESS), em 2024.

 

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Fonte: Campus Goiás

Categorias: colunistas Humanidades Campus Goiás