Goiás Todo Rosa: projeto aprimora diagnóstico do câncer de mama
Projeto que começou com exames genéticos amplia política assistencial de saúde pública
Kharen Stecca
Congressos médicos costumam ser associados a longas palestras com profissionais de renome que trazem as últimas novidades, tratamentos e rotinas do setor para atualização dos profissionais. Mas e se para além de uma fala longa e monológica fosse possível mostrar a medicina na prática e permitir que dúvidas fossem sanadas na hora? Essa foi a proposta do evento realizado pelo Projeto Goiás Todo Rosa durante o Congresso Brasileiro de Mastologia 2026, realizado em Goiânia em maio.
Em uma sala com diversas estações nomeadas por cores, os médicos da atenção primária de saúde puderam acompanhar profissionais de renome da mastologia brasileira, como Carlos Alberto Ruiz, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, Daniel Buttros, presidente da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Mastologia, José Cláudio Casali da Rocha, oncologista do A.C.Camargo Cancer Center, entre outros profissionais.
Em cinco estações, eles mostraram todo o processo envolvido no diagnóstico de casos de câncer de mama, desde o rastreamento inicial do câncer na paciente, passando pela rotina de exames preventivos, exames mais detalhados em casos específicos – como é o exame genético realizado na Universidade Federal de Goiás (UFG) e parte do projeto Goiás Todo Rosa – até o tratamento e acompanhamento pós-tratamento de forma humana e integrativa.
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O Jornal UFG acompanhou esse treinamento promovido pelo Projeto Goiás Todo Rosa em detalhes. Em um quiz interativo, um dos médicos mostrou porque alguns exames não auxiliam e devem ser dispensados (até para agilizar o retorno do paciente) e outros são tão importantes, como é o exemplo da mamografia. Outro profissional detalhou o caminho necessário para solicitar os exames na regulação de saúde de forma a agilizar o diagnóstico em caso de um nódulo na mama, aumentando assim a chance de cura ao detectar rapidamente os casos de câncer.
Em uma das salas, um médico demonstrava como é importante deixar a paciente confortável para que ela fale para além do texto decorado que ela pensou para a consulta, prestando atenção em detalhes dos movimentos da paciente que passou por tratamento, ensinando técnicas para melhorar alongamento de membros e, principalmente, tornando o ambiente acolhedor de forma que a paciente se sinta impelida ao próprio cuidado.
A ideia do Goiás Todo Rosa com ações como esta é repensar toda a linha de atendimento na área de mastologia, com o objetivo de aumentar a quantidade de pacientes que chegam aos serviços de saúde de forma mais rápida e não apenas quando o câncer já está avançado.
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Do exame genético à mudança de rotina assistencial
O estado de Goiás foi pioneiro ao disponibilizar, via Projeto de Lei Estadual de 20 de julho de 2020, o rastreamento dos genes BRCA1 e BRCA2 (sigla em inglês para a expressão genética para o câncer de mama) para pacientes e familiares com câncer de mama. Atualmente, o exame foi ampliado e já entrega a análise de nove subtipos genéticos, permitindo enxergar a probabilidade de diversos tipos de câncer.
A professora da Faculdade de Medicina da UFG e coordenadora do projeto, Rosemar Macedo Souza Rahal, explicou que o projeto teve seu pontapé inicial na Universidade, começando como uma pesquisa focada em painéis genéticos de pacientes oncológicos e seus familiares. "Por meio de um convênio com o estado de Goiás, essa pesquisa saiu dos muros da Universidade e foi convertida em uma política de saúde pública assistencial". O convênio foi firmado em 2023 pela UFG e o Estado, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape).
Mas esse caminho não foi simples. A subsecretária de Políticas de Atenção em Saúde da UFG, Amanda Limonde, relatou na abertura do treinamento que, embora o estado fosse o primeiro do país a oferecer o exame genético, a regulação em saúde ficava esperando e a demanda não chegava ao centro. Ao tentar entender o que ocorria, mesmo com as reorganizações dos fluxos, percebeu-se vários motivos: os profissionais da ponta (atenção primária e atenção especializada) muitas vezes não conheciam os caminhos técnicos ou o perfil de paciente que deveria ser encaminhado para o rastreamento genético. "Havia uma dificuldade de entendimento sobre o 'itinerário' da paciente – em qual fila da regulação inseri-la e como seguir o fluxo correto do sistema", avaliou Amanda.
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Também ficou claro que o programa estava focado apenas no exame, sem considerar o "todo global" que impacta a paciente desde a sua casa até a unidade de saúde. Com isso, o projeto ganhou o escopo atual. Rosemar afirmou que o grande diferencial do Goiás Todo Rosa no atual momento é o uso da expertise acadêmica para instigar e consolidar uma política de Estado que beneficie as mulheres do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a professora, esse tipo de treinamento é inédito no Brasil. "A metodologia envolve abrangência total do processo. O foco vai desde o rastreamento inicial até o pós-tratamento da paciente oncológica". O treinamento utilizou estações que também foram filmadas e microfonadas para gerar material didático a ser replicado em outros municípios e universidades.
Além disso, os médicos participantes participaram de pré-testes antes e depois do treinamento e passarão também por pós-teses (com 30 e 60 dias do evento) para medir a mudança de percepção dos profissionais e corrigir possíveis distorções de conduta ou informações incorretas.
Outro ponto é que o projeto não se limita apenas aos médicos, mas abrange diversas frentes da jornada da paciente, incluindo a capacitação de profissionais da atenção primária, médicos que realizam biópsias, técnicos de mamografia e patologistas. Rosemar também destacou a seleção dos instrutores: "Priorizamos professores catedráticos com grande conhecimento científico e habilidade de comunicação".
Por outro lado, também foram escolhidos com cuidado os participantes do treinamento. "Foram convidados dez profissionais de saúde de cada uma das dez macrorregiões de Goiás, com o objetivo de que eles atuem como multiplicadores de informações e ajudem a aumentar o rastreamento da doença, combatendo a falta de informação", avaliou. O treinamento foi gravado e a ideia é replicar essa formação para mais pessoas.
Participação
Silvia Regina foi uma das médicas que participou do treinamento. Atuando na linha de frente da saúde em Itumbiara (GO), a médica ressalta que momentos de reciclagem e atualização são fundamentais para os profissionais que trabalham com os protocolos do SUS. Durante o treinamento, a médica elogiou o formato interativo das estações, afirmando que a dinâmica facilita o aprendizado e favorece a evolução do tratamento das patologias. Para Silvia, o maior desafio é garantir que a informação técnica chegue com clareza a quem realiza o primeiro atendimento nas unidades de saúde, garantindo o êxito do sistema público.
Giovana Alvarenga é residente de ginecologia e obstetrícia em Goiânia, no Hospital das Clínicas da UFG. Ela enfatizou como as estações que simulam a prática clínica auxiliaram na compreensão do fluxo da paciente, desde a atenção primária até a chegada ao hospital terciário.
Em sua análise, a base do sistema ainda carece de treinamento para realizar um rastreamento mais assertivo e superar burocracias da regulação. Giovana destaca que a ação multidisciplinar do Goiás Todo Rosa "é um grande ganho" para os participantes, pois permite visualizar as dificuldades do diagnóstico e agilizar o início do tratamento especializado.
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Teste genético beneficia a prevenção?
Goiás foi o primeiro estado a implementar e colocar em vigor uma lei que dispõe sobre a realização desse teste (Lei Estadual 20.707, de 14 de janeiro de 2020). Até o momento, o projeto atendeu mais de 900 pacientes com o teste genético. Pesquisas indicam que cerca de 22% dos pacientes vão apresentar a alteração genética que podem favorecer o surgimento do câncer de mama. A professora da Faculdade de Medicina da UFG, Rosemar Macedo Sousa Rahal, ressalta que "a identificação de uma mutação genética pode mudar o tratamento da paciente, uma vez que as abordagens cirúrgicas e medicamentosas podem ser alteradas".
Os familiares também podem ser rastreados com antecedência a partir da detecção da mutação e isso melhora o prognóstico desses pacientes, que serão monitorados mais rapidamente. Segundo a professora Elisângela Lacerda, do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, responsável pelos testes genéticos no Centro de Genética Humana do ICB, a filha de uma paciente que tem a mutação genética pode, além de fazer o teste pelo SUS, ser acompanhada com mamografias realizadas precocemente em caso de resultado positivo no teste genético (hoje a indicação comum é apenas a partir dos 40 anos), além de ter orientações específicas sobre estilo de vida, métodos anticoncepcionais e uso de hormônios.
Dependendo da alteração genética que for encontrada, segundo Elisângela, alguns tratamentos não podem ser utilizados, como a radioterapia. O teste, como explica a professora, coloca determinados pacientes e seus familiares em um grupo de maior atenção e linhas de cuidados especializadas, possibilitando que o diagnóstico precoce seja feito em tempo hábil, aumentando significativamente as chances de cura e garantindo um tratamento mais adequado e humano.
O QUE DIZ A LEI?
A Lei Estadual 20.707, de 14 de janeiro de 2020, garante que o teste genético seja solicitado por um médico geneticista, mastologista ou oncologista nos casos em que a paciente tenha laudo que comprove câncer de mama ou ovário com tumor antes dos 40 anos ou triplo negativo diagnosticado antes dos 50 anos.
Outro caso é quando há histórico de câncer familiar diagnosticado antes dos 50 anos por dois parentes consanguíneos em linha reta ou colateral até o terceiro grau (isso inclui irmãs, mães, bisavós e tias).
Para os casos em que for detectada a mutação genética é assegurado diagnóstico e acompanhamento psicológico e multidisciplinar especializado, bem como a realização de mastectomia profilática e de reconstrução da mama pelo SUS.
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Fonte: Secom UFG






