Extensão rural muda papel das pequenas propriedades
Modelo vivo criado na Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG promove a valorização da agricultura familiar
Maria Victorino
Kharen Stecca
O Setor de Pecuária Sustentável, vinculado à Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ) da Universidade Federal de Goiás (UFG), tem como representação o símbolo do "vórtex". "Esse símbolo traz o significado de um projeto que tem um epicentro consolidado, mas que não consegue calcular a dimensão de onde as suas irradiações podem parar", explica o coordenador do Setor, professor Paulo Hellmeister.
O ambiente criado para a implementação do projeto, dentro da EVZ, é, para ele, um modelo de espaço vivo de extensão que está de "portas e porteiras abertas" para os produtores rurais aprenderem o manejo sustentável da agropecuária. E é com essa proposta que diversos projetos estão sendo desenvolvidos não em paralelo, mas em ligação, dentro da área.
O espaço tem aproximadamente 50 hectares, sendo 42 deles compostos por uma reserva de mata e os outros oito distribuídos em módulos que compõem o projeto, por meio da associação de produção animal com a conservação ambiental. Tudo foi pensado de forma a tornar o projeto um campo de possibilidades que possam ser repetidas em pequenas propriedades rurais: desde a escolha das criações até detalhes como a construção dos comedouros, coberturas e cercas.
"A maior parte dos materiais usados para a construção do espaço é reaproveitada: madeiras, telhas e pneus que a Universidade iria descartar se tornaram úteis para a estruturação do local", ressalta o professor Marcos Ceron, um dos responsáveis pelos projetos do setor.
Porco piau
Uma das grandes estrelas do projeto é o porco piau, uma raça crioula nacional. O Projeto Porco Piau surgiu com a intenção de resgatar essa raça tão importante para a suinocultura. O grande diferencial é que ela é adaptada aos biomas Cerrado e Mata Atlântica. "Ela é uma raça descendente de animais europeus trazidos por colonizadores que passaram por um longo processo de adaptação e domesticação no Brasil", explica Marcos Ceron, responsável pela criação do projeto na UFG.
Entre as características físicas e biológicas da raça, destacam-se a alta resistência a doenças, ao sol e às condições ambientais adversas, sendo ideal para sistemas de criação ao ar livre, onde os animais podem manifestar seu comportamento natural de 'fuçar'.
Segundo o professor, diferente dos híbridos industriais, o porco piau possui um crescimento mais lento, levando quase um ano para chegar ao ponto de abate. "A carne possui alto marmoreio [gordura entremeada], alta deposição de gordura na carcaça e uma composição muscular de fibra vermelha oxidativa, o que a torna mais parecida com a carne bovina do que com a suína convencional", detalha.
Isso faz com que surja um produto diferenciado – um produto de "boutique", como ele explica –, que pode ser uma boa fonte de renda ao pequeno produtor pelo alto valor agregado. A partir dele podem ser produzidos salames, presuntos e copas diferenciadas.
Além disso, o resgate da raça tem outras vantagens, como a preservação de genes úteis para programas de melhoramento genético de animais. Atualmente a UFG pertence ao programa Guardiões dos Porcos Crioulos, por conta do Projeto Porco Piau. O projeto nacional tem como objetivo fazer o resgate de várias raças crioulas existentes no Brasil para combater a erosão genética causada pela industrialização.
Por meio do processo de busca por produtores de porcos crioulos e caracterização das raças encontradas (perfil de orelha, chanfro, altura e pelagem), o projeto faz o georreferenciamento dos animais, o que evita a endogamia – o cruzamento entre parentes, que pode causar problemas genéticos na população de porcos crioulos.
O Projeto Porco Piau começou no ano de 2025 e no momento cria cinco filhotes da raça. Marcos explica que o processo de industrialização e a Revolução Verde trouxeram pacotes tecnológicos para a agropecuária e, consequentemente, as raças suínas comerciais com deposição de carne magra. "Hoje a suinocultura brasileira utiliza essa mesma raça comercial, conhecida popularmente como o 'porquinho rosa'. Com isso, a criação dos porcos crioulos foi sendo extinta e de difícil comercialização".
O Setor de Pecuária Sustentável e o Projeto Porco Piau têm como um dos objetivos ensinar e facilitar, principalmente para os pequenos agricultores familiares, a criação e a produção sustentável de porcos piau.
Do eucalipto ao pequi
Outros dois módulos ligados ao Setor de Pecuária Sustentável são os de eucaliptos e pequi sem espinhos, no molde de Integração Lavoura Pecuária e Floresta (ILPF). Em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), em meio hectare foram plantadas 160 mudas de pequi sem espinhos.
Segundo o professor Marcos Ceron, essa espécie de pequi não é fruto de melhoramento genético, mas foi encontrada na natureza, na região de Minas Gerais. A Emater fez a clonagem da planta, possibilitando o plantio em maior escala. "A produção desse fruto na EVZ será de grande importância, pois ele vai agregar ao Projeto Porco Piau, servindo de alimento para os suínos crioulos".
Uma das pesquisas previstas é justamente o efeito da alimentação com esses frutos na carne desses porcos. Nessa área, segundo a professora Francine Calil, será plantado, junto com o pequi, o feijão guandu.
Marcos explica que o porco deposita os ácidos graxos que consome na gordura corporal. "Os suínos europeus são tão caros e cobiçados por conta desse alto teor com qualidade de gordura animal". Os pequis plantados em meio hectare no setor vão produzir frutos ricos nesses ácidos de cadeia longa de alta qualidade, fazendo com que a carne tenha outro sabor e se transforme em um produto visado pelas boutiques de carnes e pela charcutaria, por conta do marmoreio na carne.
Para além das pesquisas, o projeto mostra uma oportunidade para os pequenos produtores: além da criação dos porcos, existe a possibilidade de produção de pequis para a alimentação dos animais e também para a comercialização do fruto.
Em outra área, o projeto também desenvolveu um plantio de eucaliptos, plantados em fevereiro de 2025. O sistema integra o componente arbóreo (eucalipto), o componente agrícola (atualmente milho plantado entre as linhas) e o componente animal, que será introduzido futuramente, quando as árvores crescerem. A área total destinada a esse módulo é de 3 hectares.
A professora Francine Calil, responsável pelo arranjo desse sistema, explica que ele foi pensado como algo que pudesse ser replicável para os produtores, não inviabilizando outros usos da área no mesmo período de tempo. "Foi pensado um arranjo de linhas triplas com espaçamento de 3 metros entre as linhas, 2,5 metros entre plantas e 24 metros entre eles para que outros usos possam ser feitos. No futuro, a ideia é que seja feito o corte das linhas laterais e deixada a linha central por mais tempo para que seja utilizada como madeira para serraria, aumentando o valor agregado".
Marcos acrescenta que, no estágio atual, os animais (ovelhas) ainda não podem entrar na área porque as árvores estão crescendo e são pequenas o suficiente para que os animais as danifiquem ou comam suas folhas. Francine também ressalta que, futuramente, será introduzida a criação de cabras .
O uso do eucalipto, segundo a professora, visa criar um microclima favorável, proporcionando sombra que diminui o estresse térmico e melhora o bem-estar animal. "Quando o ambiente é mais confortável e sombreado, os animais tendem a comer mais e ter um melhor desempenho". Apesar de ser uma espécie exótica, o eucalipto é muito utilizado nas propriedades convencionais devido ao rápido crescimento – três metros por ano – e pode também ser uma possibilidade mais rápida para os produtores, já que o pequi e o baru demoram a crescer.
Nesse ciclo de sustentabilidade, os animais também contribuem para as culturas, melhorando a qualidade do solo com a geração de adubo orgânico, fechando um ciclo de nutrientes dentro da propriedade.
IMPORTÂNCIA DAS ÁRVORES NOS SISTEMAS INTEGRADOS DE PRODUÇÃO
- Formação de microclima favorável para o desenvolvimento animal (redução da velocidade do vento, controle da temperatura e umidade relativa do ar);
- Redução da compactação e erosão do solo;
- Atenuação progressiva do impacto da chuva;
- Qualidade e quantidade da intensidade da radiação luminosa;
- Melhoria na qualidade do ar;
- Sequestro de gás carbônico;
- Serviços ambientais e produção de bens;
- Geração de renda no setor rural (madeira, frutos);
- Alternativa energética estratégica – fonte renovável.
Ovinos
Além dos porcos crioulos, o Setor de Pecuária Sustentável também tem o módulo de criação de ovelhas e carneiros da raça brasileira Santa Inês e da africana Dorper. Esses animais têm como característica a ausência de chifres. "Os machos apresentam rugosidade no nariz e o pescoço curto e grosso, já as fêmeas têm o pescoço mais alongado e fino", explica a professora Eliane Miyagi, da EVZ, responsável pelo projeto de ovinocultura.
Mesmo que Goiás ainda não apresente um rebanho numericamente considerável, a carne de cordeiro ainda é muito procurada, principalmente nas datas festivas de Páscoa e Natal. Tanto as ovelhas como os porcos piau estão inseridos no pastejo rotacionado, outro projeto do Setor que consiste na divisão da área para alternar entre a ocupação dos animais e a produção de plantio. Com o apoio da Associação de Criadores de Caprinos e Ovinos de Goiás, o Setor pretende divulgar cada vez mais as qualidades da carne e as vantagens de se criar ovinos no estado.
Além do sombreamento natural, o setor está fazendo um teste com um sombrite de tecnologia israelense em polietileno com tratamento especial de alumínio para refletir a radiação solar que pode diminuir até oito graus a área coberta. Eliane explica que a produção desses ovinos, juntamente com o porco piau, serve de vitrine para a agricultura familiar, mostrando que em um só lugar pode ser possível trabalhar com diversidade de espécies de animais.
Abelhas sem ferrão
Um novo módulo de pesquisa e extensão deve ainda ser implementado no Setor: a criação de abelhas sem ferrão. Utilizando as espécies nativas Jataí e Mandaçaia, o sistema combinará abelhas com a criação de peixes.
Segundo o professor Paulo Hellmeister, o grande diferencial dessa iniciativa é o seu caráter ecopedagógico. "Por serem espécies que não possuem ferrão, as abelhas permitem uma interação segura e direta, sendo ideais para atividades de educação ambiental com crianças de escolas municipais e visitantes. O objetivo é que esses estudantes vejam de perto como a preservação de insetos polinizadores é vital para o equilíbrio do ecossistema local".
Para o produtor, a criação de abelhas é também mais uma forma de diversificar seus produtos com a produção de mel. "A ideia é aproveitar o máximo do espaço e criar uma megabiodiversidade", afirmam os coordenadores do Setor.
Compostagem
Fechando o ciclo de sustentabilidade, o sistema também realiza compostagem. O processo transforma restos de poda e o esterco produzido pelas ovelhas e porcos em um adubo orgânico valioso. "O sistema é montado de forma didática e eficiente, seguindo uma estrutura de 'lasanha' ou 'sanduíche', intercalando camadas de fonte de carbono (palhada) e nitrogênio (dejeto)", explica o professor Marcos Ceron.
Para que a transformação ocorra, a técnica utiliza a fermentação aeróbica, que exige a presença de oxigênio e água para a ação das bactérias que decompõem o material. "Dependendo do substrato utilizado, o composto orgânico fica pronto para uso entre 90 e 120 dias", detalha.
Além da compostagem comum, o Setor também utiliza a minhocultura para a produção de húmus, um fertilizante ainda mais rico, gerado a partir do consumo dos resíduos por minhocas. Essa prática, segundo o professor, é um pilar essencial para a agricultura familiar, pois permite ao pequeno produtor converter um potencial poluente ambiental em um insumo que reduz a necessidade de adubos químicos.
No modelo acadêmico, o adubo gerado é aplicado nas hortas e pastagens da unidade, fazendo com que o nutriente retorne ao animal na forma de alimento.
Projetos
Outro módulo do Setor de Pecuária Sustentável é a restauração da borda da mata que compõe os 42 hectares do local. Em 2025 uma queimada consumiu parte da reserva e hoje o Setor está em processo de restauração da área. Também há projetos futuros de implementação do ILPF de baru e de um quintal produtivo, espaço para o plantio de alimentos saudáveis e de pequena quantidade. O projeto deve ter o formato de uma mandala e vai produzir alimentos e peixes.
Também está prevista a primeira sala de aula aberta da UFG – um espaço de coworking rural, em parceria com o professor Michael Mendes, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), em que diferentes cursos da Universidade poderão usufruir do local. A sala ecopedagógica, segundo Paulo, é diferente das salas convencionais: "não terá carteiras, mas mesas para promover um 'espaço de convivência' e facilitar a vinda de produtores e escolas municipais para atividades de educação ambiental".
Com essas iniciativas, o Setor pretende ser uma vitrine de possibilidades para o produtor rural, mas produzindo conhecimento com a participação desses pequenos proprietários. Outra intenção é promover a interdisciplinaridade, não só com os cursos da área agrária, mas também com outras áreas.
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Fonte: Secom UFG
Categorias: Agropecuária Ciências Naturais EVZ Especial Notícia 3






