Projeto da UFG ajuda a preparar Goiás para o envelhecimento populacional
Mapeamento do Iptsp aponta necessidade de ampliar acesso a cuidados paliativos e qualificar profissionais de saúde
Ana Beatriz Santiago
O envelhecimento populacional é um dos desafios da saúde pública contemporânea e exige que a sociedade repense não apenas como prolongar a vida, mas como cuidar dela em sua fase final. O projeto "Fim da Vida e Cuidados Paliativos na Terceira Idade", do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (Iptsp/UFG) em parceria com a Secretaria de Saúde de Goiás, busca transformar esse cenário dos últimos anos de vida, garantindo dignidade ao processo.
Após concluir uma etapa de validação em cinco Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) de Aparecida de Goiânia, por meio de um convênio entre a Secretaria Municipal de Saúde da cidade e o Iptsp, o projeto iniciou, em janeiro de 2026, uma nova fase: o mapeamento das 73 ILPIs pelo estado de Goiás.
Os resultados colhidos até o momento revelam uma lacuna crítica na assistência. A pesquisa identificou que praticamente 70% dos idosos residentes nas instituições deveriam estar recebendo cuidados paliativos, mas há uma grave escassez de profissionais preparados para essa abordagem.
A professora Marta Rovery de Souza, idealizadora do projeto, explica que uma das barreiras encontradas foi o fato de muitas Unidades Básicas de Saúde (UBS) sequer reconhecerem as ILPIs em seus territórios como parte de sua responsabilidade sanitária, tratando-as como entidades isoladas da rede pública.
Como resposta, o projeto já gerou produtos práticos para o serviço público, incluindo fluxogramas de atendimento e cadernos de campo para orientação das equipes. Os dados parciais também ganharam projeção internacional, por meio de um trabalho aceito no Congresso Internacional de Cuidados Paliativos, em São Paulo. "Também tivemos um trabalho aceito agora em junho, para apresentação de resultado parcial na Espanha", detalha Marta.
Cuidados Paliativos
Diferentemente do que muitos acreditam, cuidados paliativos não significam uma desistência terapêutica. Segundo o psicólogo clínico do Núcleo de Apoio ao Paciente Paliativo (NAPP) do Hospital Alberto Rassi (HGG) e egresso do projeto, Dimilson Vasconcelos Bezerra, é uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida.
Ele destaca a importância das conferências familiares para alinhar a comunicação e preparar os cuidadores para o luto antecipado ou para a desospitalização. "As pessoas confundem muito o cuidado paliativo, pensando que não é mais possível fazer nada. A gente lida com muita fragilidade emocional", explica o psicólogo. O tratamento, ressalta, abrange as dimensões psicológica, social e espiritual do ser humano.
Marta complementa: "Cuidado paliativo é um cuidado que não visa a cura, mas sim o conforto, porque a cura já não existe. Então partimos do pressuposto de que o cuidado paliativo é para aquela pessoa cuja vida já está ameaçada. Então a proposta é que essa pessoa possa receber os cuidados que aliviam a sua dor e o seu sofrimento".
Dimilson defende ainda a ampliação do entendimento sobre o tema. "O cuidado paliativo não é só para quem está morrendo. Isso é um grande preconceito das pessoas, inclusive de profissionais de saúde que encaminham pacientes para cuidado paliativo somente no momento em que ele está em terminalidade, em processo ativo de morte. O cuidado paliativo começa desde o momento em que há um diagnóstico de uma doença que ameaça a vida".
A necessidade de se falar da morte
A coordenadora do projeto enfatiza que o nome "Fim da Vida" é uma provocação necessária para quebrar o tabu sobre a morte. "Todo mundo comenta que esse nome é difícil. Então eu vejo que alcancei o objetivo, porque eu acho que nós, no Ocidente, temos muita dificuldade de falar da morte e nós precisamos falar disso. Então, quando a gente fala do final da vida, isso é uma discussão extremamente importante, que não enfrentamos, e isso traz muita dor para as pessoas também".
Além disso, com o aumento da expectativa de vida, cresceram também as doenças crônicas, o que exige uma nova mentalidade. A professora destaca que a universidade tem o papel fundamental de provocar o governo e a sociedade a enfrentarem o tabu da finitude. "O envelhecimento é algo que, se tivermos sorte, vamos viver. Então essa é uma discussão para todos nós. Afinal, como vamos envelhecer? Quem vai cuidar da gente? Porque, de novo, vai ser uma hora em que precisaremos ser cuidados".
Política Nacional
Embora o Brasil ainda apresente índices baixos em rankings mundiais de qualidade de morte, houve avanços significativos com a aprovação da Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS em 2024. A legislação visa descentralizar o atendimento para municípios e estados, diminuindo a concentração de serviços especializados na região Sudeste.
"É um direito receber cuidados paliativos quando o paciente estiver numa situação de terminalidade. O Brasil é um país onde se envelhece muito mal. Precisamos melhorar esse índice", afirma Marta. "Não dá mais para esperar. Está na hora de acelerar o processo de discussão de estratégias de enfrentamento adequadas ao envelhecimento brasileiro".
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Fonte: Secom UFG






