Adoecimento mental na universidade: trabalho, tabu e preconceito
Pesquisas revelam que sofrimento mental de professores, técnicos e estudantes continua cercado por estigmas e despreparo institucional
Silvia Zanolla
O adoecimento mental é um tema recorrente e cada vez mais grave na sociedade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2022), desde a pandemia covid-19 o número de adoecimento mental aumentou 25% no mundo (depressão e ansiedade lideram o ranking). Especificamente, ao se tratar da comunidade universitária, os mais atingidos são os alunos em 35% (um a cada três), enquanto 30% dos docentes enfrentam doenças mentais – destacando-se esgotamento por exaustão ou síndrome de Burnout –, ao passo que a docência é uma das profissões em que há maior número de afastamentos do trabalho.
Na Universidade Federal de Goiás (UFG), com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/FE), entre 2019 e 2022 realizamos a pesquisa "Trabalho, racionalidade e adoecimento docente", financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), pela qual investigou-se a dinâmica da lógica do trabalho de professores como variável do quadro de adoecimento mental. Disso resultou o livro Trabalho, racionalidade e adoecimento (2022) com a participação de pesquisadores de várias universidades do Brasil.
Em meio à diversidade de concepções teóricas, práticas e metodologias, mais de 28 pesquisas diferentes demonstraram desafios ao ambiente saudável coincidindo como causas principais de sofrimento: desmobilização da categoria; estrutura salarial e espacial; competição entre pares e grupos políticos; gestão conflituosa e autoritária; sobrecarga de atividades; prazos exíguos para entrega de formulários, notas, relatórios etc.; divergências entre professores e alunos; inadequação às novas tecnologias; exigências produtivistas rigorosas.
Ao que tudo indica, tais pesquisas continuam atuais. Realizadas em diferentes instituições, mesmo naquelas com programas sociais voltados ao acolhimento e ao apoio emocional, elas demonstram que ainda há muito a se fazer. Uma vez que nas universidades comparece na comunidade em geral despreparo para lidar com o adoecimento de professores, técnicos e alunos, é preciso falar sobre isso. Desmistificar a realidade. Afinal, em sentido psicanalítico, a representação das doenças mentais configura tabu à medida que, no cotidiano das instituições, adoecer mentalmente não raro causa – de modo inconsciente ou não – desconforto, estranhamento, medo e preconceito.
Lidar com pessoas doentes mentais gera estresse e projeção reativa nos "saudáveis" à medida que reconhecer tal enfermidade "a aproxima de pessoas ditas normais". Uma vez que tal estranhamento individual, institucional e coletivo – que não raro se dá como histeria oculta – demonstra despreparo, isso alarma o "ambiente máximo da inteligência racional" gerando mecanismos de defesa variados.
Ora, por outro lado, contraditoriamente, a realidade e as pesquisas ensinam que não há saúde possível se não se sabe lidar com doenças. Não se trata de "normalizar doenças mentais", mas de evitar o preconceito, compreender o quanto estas compõem o humano. Nesse sentido, a saída seria a união multidisciplinar entre saúde e educação apoiadas por áreas afins no sentido de superar tais dificuldades.
Logo, avançar contra a dor e o sofrimento mental na academia requer investimento amplo em todos os seus setores, preparo político e organização da categoria, mas, acima de tudo, mudança de mentalidade sobre o próprio significado estigmatizado do sentido de saúde e doença e seus impactos tão presentes e ao mesmo tempo tão negados em meio à produção intelectual.
Silvia Rosa da Silva Zanolla é psicóloga e professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG).
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Fonte: FE






