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Arquitetura e Serviço Social se unem para transformar patrimônio cultural em direito à moradia

Em 14/07/26 14:52. Atualizada em 14/07/26 14:56.

Projeto Ybipitanga apoia famílias de baixa renda na preservação e promove conscientização

 

Projeto Ybipitanga
Patrimônio Mundial da Unesco, Cidade de Goiás é conhecida por sua arquitetura colonial e ruas de pedra | Foto: Iphan

 

Kharen Stecca

Na Cidade de Goiás, patrimônio cultural da Unesco desde 2001, um projeto da Universidade Federal de Goiás (UFG) está redefinindo o que significa preservar um patrimônio mundial. O projeto de extensão Ybipitanga, que integra o programa federal Conviver (Canteiro Modelo de Conservação), destaca-se nacionalmente por um diferencial único: a parceria entre os cursos de Arquitetura e Urbanismo e de Serviço Social. Enquanto cerca de 30 projetos semelhantes operam no Brasil, o escritório de Goiás é o único que possui essa convergência interdisciplinar para atender famílias de baixa renda em áreas tombadas.

A integração desses dois cursos nos debates sobre patrimônio, acompanha uma virada epistemológica no campo nos últimos anos. Como explica a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e coordenadora do projeto, Karine Oliveira, quando se trata de arquitetura e preservação do patrimônio, historicamente as práticas de preservação focam quase exclusivamente na "materialidade" das edificações e monumentos. "A nova visão foca na vida que acontece dentro dessas casas, tratando o patrimônio como algo próximo da realidade cotidiana e do afeto".

Segundo a professora, existia uma visão muito punitiva – "não pode fazer isso, não pode fazer aquilo" – e uma fiscalização rígida, afetada pelo "poder de polícia" do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Essa nova abordagem propõe que a preservação seja feita por meio da sensibilização e do apoio técnico, em vez de apenas normas de gabinete", complementa Tálita Nogueira, também coordenadora do projeto.

Estudos mostram que quase 80% da população moradora da área tombada de Goiás vive em situação de vulnerabilidade e não tem recursos para manter os imóveis conforme as exigências normativas. O diretor do Campus Cidade de Goiás, Álison Cleiton de Araújo, professor do curso de Serviço Social e também coordenador do projeto, explica que a entrada da área no Ybipitanga em 2023 permitiu enxergar a preservação à luz das políticas públicas e da afirmação de direitos, como o direito à moradia e à cidade.

A presença do Serviço Social contribui com um dos maiores desafios da preservação: o trato direto com famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O Serviço Social atua na mediação de expectativas, traduzindo a linguagem técnica para os moradores e auxiliando na triagem socioeconômica através de critérios ancorados nas políticas públicas nacionais.

 

Projeto Ybipitanga
Maquetes ajudam a visualizar as intervenções | Foto: Divulgação/Projeto Ybipitanga

 

Tecnologias sociais e diálogo

Para facilitar a compreensão dos projetos de restauro e reforma, a equipe desenvolveu tecnologias sociais inovadoras. Um dos projetos realizados pelo projeto é o atendimento a uma família de mulheres da cidade. Segundo Álison, a moradora é uma pessoa envolvida com a Folia de Reis no município e sua casa também é um local de participação coletiva. "O projeto foi pensado de acordo com as peculiaridades da vida dessa moradora", explica.

Segundo o professor, uma grande dificuldade era que ela entendesse o projeto. Para isso, eles criaram uma maquete física flexível de mais de um metro. Com ela, a moradora pôde visualizar onde as paredes seriam movidas e como o espaço seria adaptado para suas necessidades comunitárias, superando a dificuldade de leitura de plantas técnicas.

Além disso, o projeto elaborou duas cartilhas educativas de forma a auxiliar os moradores a acessar o programa. A primeira detalha as etapas burocráticas para receber o auxílio técnico e a segunda explica que o foco do Ybipitanga é a realização de pesquisas e produtos técnicos como levantamentos arquitetônicos, mapas de danos, inventários, projetos arquitetônicos, já que o programa federal muitas vezes carece de orçamento imediato para a execução física das obras.

Preservação de saberes e futuro

Projeto Ybipitanga
Participantes do projeto de extensão | Foto: Divulgação/Projeto Ybipitanga

O projeto também atua na capacitação e no resgate de técnicas construtivas vernaculares, como o adobe e a taipa, que são as técnicas utilizadas nesses casarões. A grande questão, segundo Karine, é que essa técnica é incompatível com o uso do cimento comum. Ao mesmo tempo, os trabalhadores que conhecem esses saberes são cada vez mais raros. A proposta da Universidade é reconhecer esses saberes, estudá-los e aprimorá-los de forma a formar pessoas capacitadas para essas reformas, mas também resgatar esse conhecimento.

As coordenadoras contam que elas e os estudantes colocam a mão na massa literalmente, para aprender sobre o sistema. Isso porque o curso de Arquitetura em Goiás oferece três disciplinas obrigatórias de Canteiro Experimental, o que permite esse contato com a prática. Com isso, também acabam criando mecanismos para que a técnica seja repassada a trabalhadores da área, por meio de oficinas, perpetuando a técnica e possibilitando a restauração desses casarões.

Uma das iniciativas do projeto foi a realização de uma série de documentários produzida para homenagear os mestres artífices locais, detentores desses saberes tradicionais que correm o risco de desaparecer. O documentário realizado com recursos do Iphan mostra a trajetória de Edson de Camargo (carpinteiro), Aristides Peres Filho (oleiro) e Francisco de Deus Oliveira (tijoleiro de adobe). Em um dos episódios, um dos mestres destaca que, embora o adobe seja um material excelente e resistente – "segura até uma bala" –, o trabalho é muito pesado e cansativo, o que dificulta a passagem da tradição para as novas gerações.

Uma linha do projeto também realiza oficinas com as crianças da educação básica em Goiás. Nas oficinas as crianças aprendem a fazer tijolos de adobe e tintas de terra. "Isso cria consciência sobre a preservação deste patrimônio da forma correta desde a infância", afirma Tálita.

Apesar dos desafios, como a falta de uma política pública permanente com dotação orçamentária fixa, o projeto Ybipitanga em Goiás serve como um caso de sucesso para o restante do país. O objetivo final, segundo Álison, é que essa experiência se consolide como uma política de Estado, garantindo que a preservação do patrimônio histórico caminhe de mãos dadas com a dignidade humana e a qualidade de vida dos moradores.

 

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Fonte: Secom UFG

Categorias: Habitação Humanidades destaque Notícia 1