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Universidade Federal de Goiás
Coluna Inova

Futebol, basquete e propriedade intelectual: um elo evidente na camisa canarinho

Em 15/07/26 13:57. Atualizada em 15/07/26 13:57.

Uso do Jumpman no uniforme brasileiro mostra como o esporte é vitrine global para estratégias de marca

 

Camisa Nike
Jogadores da seleção brasileira com o uniforme azul, que estampa o Jumpman da Nike | Foto: Divulgação/Jorda/Nike

 

Tatiana Ertner

A Copa das Copas tem-nos feito experimentar diversas sensações: desde a apaixonante devoção dos times africanos, o comprometimento dos torcedores e a magnificência dos estádios, até a adaptação aos recursos tecnológicos aplicados aos sensores nas bolas, às câmeras disponíveis e aos uniformes confeccionados com materiais ultraleves, mas também carregados de significados. Sim, os uniformes estão o tempo todo nos lembrando da cultura, da história, dos feitos de cada nação, por meio de cores e símbolos que expressam todos os significados. Por exemplo, o uniforme verde da França, fazendo referência à Estátua da Liberdade, presente francês a Nova Iorque, que une França e Estados Unidos no ideal que é o mote da democracia em ambos os países; ou a camisa com bolas cor-de-rosa da seleção da Bélgica, em referência à arte de Magritte e que traz os dizeres "isto não é uma camisa" como uma assinatura, aludindo a A Traição das Imagens.

Todos os significados, os materiais e os designs agregam valor a cada transmissão de jogos, a cada ingresso vendido e a cada item comercializado que tem relação direta com a propriedade intelectual em torno de cada adição e com a forma como ela é explorada. Percebe-se, então, que há uma razão para cada escolha, especialmente sobre o que será exibido nos uniformes.

Isso nos faz refletir sobre a camisa brasileira e tudo o que ela representa.

Desde 1970, quando o Brasil se tornou o primeiro time tricampeão da Copa do Mundo, todos os olhares se voltaram para as apresentações da seleção, dentro e fora de campo. Os uniformes se tornaram uma comunicação que, ao mesmo tempo, comunica força e confiança.

Em 1998, quando o Brasil foi a primeira seleção de futebol a ser patrocinada pela gigante americana Nike, iniciou-se também uma demonstração de poder para além da habilidade: a marca forte que sustenta os melhores, o tipo de propriedade intelectual que traz à mente do consumidor um significado de qualidade, de reputação que exige ser adquirida pelo espectador.

Na Copa das Copas, a seleção brasileira ostentou um novo símbolo que provocou críticos e admiradores: o Jumpman no lado direito. Jumpman, sim! A marca da linha da Nike que tem a estrela do basquete, Michael Jordan, como inspiração.

Por que o símbolo da Jordan Brand, a divisão de alto rendimento e lifestyle da Nike, chancela a camisa da seleção canarinha?

Segundo a justificativa que foi disseminada, a Nike planeja estabelecer um marketing estratégico para fundir a herança do futebol com o streetwear global e a moda de estilo de vida. Ao trocar o tradicional Nike Swoosh pelo Jumpman, a Nike criou valor, informando ao consumidor que aquela "não é uma camisa de futebol", mas uma roupa sofisticada e culturalmente relevante, que vale a pena adquirir e usar.

Na verdade, a Nike está expandindo um mercado, fazendo da seleção brasileira um veículo. Seu alvo não é os brasileiros, mas todo o mundo que viu a seleção em campo. Torcendo ou não para o time, a seleção tendo ou não sucesso, todos notaram a presença inconfundível de Michael Jordan, não mais em uniformes de basquete, mas alcançando o esporte mais popular do planeta.

Isso é fortalecer uma marca.

Mas, significa outra coisa: o fortalecimento dos indivíduos! Nesse caso especial, o fortalecimento de um indivíduo que soube jogar o jogo: o próprio Michael Jordan!

E isso porque essa marca, por si só, já tem uma história forte.

No início da sua carreira, Michael Jordan, assessorado pelos pais, mudou a prática do patrocínio individual a atletas. Desde sempre, os atletas ostentam as marcas de seus patrocinadores, como contrapartida a salários que lhes permitem ter foco no treinamento de alto rendimento. Quando Michael Jordan, em 1984, assinou seu contrato com a Nike para usar um tênis completamente novo, fora das regras e que levava seu nome – o Nike Air –, a prática mudou. Michael Jordan era a aposta certa da Nike, afinal, ele já era tido como uma lenda que estava surgindo.

A mãe de Jordan, Deloris Jordan, com sua dedicação e confiança no talento do filho, teve a perspicácia de convencer a Nike de que o tênis é passageiro, mas se usado por uma estrela do esporte, ele pode ser perene. Convenceu a companhia de que o ativo não era o material esportivo, mas Michael, e eles sabiam disso. Aceitaram reverter em benefício de Jordan 5% de cada tênis vendido que levasse sua marca, em um contrato vitalício. O que Deloris Jordan fez foi reconhecer e saber negociar um poderoso Personal Branding que garante até hoje a Jordan um rendimento passivo de mais de US$ 100 milhões anuais só com respeito a esses royalties provenientes da marca que se baseia em sua imagem e que o coloca até hoje como o único esportista na lista dos mais ricos dos EUA.

E as camisas de futebol?

Na verdade, essa não foi a primeira vez que a Nike usou o Jumpman em um uniforme de futebol. Em 2018, o símbolo era ostentado pelo Paris Saint-Germain (PSG), rendendo ao atleta dezenas de milhões de euros diretamente a partir das vendas de uniformes. Como seus royalties variam com as vendas, em 2021, quando o jogador Messi foi contratado pelo PSG, houve um pico de vendas de artigos esportivos do PSG e outro com a conquista do bicampeonato da Champions League (2025–2026) pelo time. O título levou a um estouro de vendas de artigos esportivos com a marca, chegando a um aumento de 4.200% nas primeiras 12 horas após a conquista.

E as camisas, do Brasil?

Bom... as camisas são um sucesso comercial, obviamente! Lançadas em março, já movimentaram R$ 1,2 bilhão e a camisa azul que ostenta o Jumpman de Jordan fidelizou quase 30% do público: a cada camisa que um torcedor adquire, Jordan embolsa R$ 22,50.

Será que Jordan torceu para o "Brazil"?

Em março deste ano, a Jordan Brand firmou uma parceria oficial com a Confederação Brasileira de Futebol para o uniforme e uma coleção de streetwear personalizada com 35 itens, sendo essa a primeira colaboração da marca com uma federação nacional de futebol. Nos produtos desenvolvidos, a individualidade de Jordan é ostentada no uso de paletas de cores azul e amarelo combinadas à famosa textura "Elephant Print" de Jordan, apresentada nos tênis Air Jordan 3 de 1988.

Jordan está aposentado, ainda se beneficiando de uma renda passiva proveniente desses royalties relativos à sua imagem.

A seleção brasileira pode não ter chegado perto da taça este ano, mas inaugurou uma nova era para a propriedade intelectual em torno dos esportes. E Michael Jordan, ou melhor, Deloris Jordan, ensinou aos esportistas que eles, indivíduos extraordinários, precisam conhecer sobre a propriedade intelectual ao redor de seu nome, de seu interesse e de seu talento e fazer uso deste conhecimento. Ele (ou ela!) desbravou esse caminho – um caminho sem limites para o sem número de transeuntes.

 

Tatiana Duque Maritns Ertner de Almeida é professora do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (IQ/UFG), coordenadora de Internacionalização do IQ, mantém linhas de pesquisa sobre propriedade intelectual, projetos de extensão de PI no ensino básico e coordena o curso de especialização em Propriedade Industrial da UFG.

 

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Fonte: IQ

Categorias: colunistas Institucional IQ