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Universidade Federal de Goiás
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Conferência debate santidade, racismo e o legado de Toni Morrison

Em 16/07/26 14:59. Atualizada em 16/07/26 15:00.

Antropóloga Todne Thomas analisou como os processos de veneração revelam disputas de raça, gênero e classe

 

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Obra de Toni Morrison dá centralidade às experiências e memórias da população negra nos Estados Unidos | Foto: Princeton University

 

Luiz Felipe Fernandes

"Existem muitos santos, por que não Toni Morrison?". Com essa provocação, a antropóloga e professora da Universidade de Yale, Todne Thomas, conduziu sua conferência magna na abertura da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada na última segunda-feira (13/7) no Centro de Cultura e Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal, no Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás (UFG). O evento segue até sexta-feira (17/7).

Assista aqui à transmissão.

A escritora Toni Morrison (1931–2019) se tornou referência na literatura contemporânea ao retratar, com profundidade e inovação narrativa, a experiência da população negra nos Estados Unidos, abordando temas como memória, escravidão, identidade, racismo e pertencimento. Primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993, é considerada uma das vozes mais influentes da literatura mundial.

Todne Thomas, que também preside a Associação de Antropólogos Negros dos Estados Unidos, abriu sua fala com a discussão levantada em um episódio de um podcast do jornal The New York Times, intitulado "Não faça de Toni Morrison uma santa: é um desserviço – para ela e para nós". No programa, veiculado em fevereiro deste ano, críticos literários argumentam que o ressurgimento do interesse pela obra de Morrison transforma a autora numa espécie de santa, colocando-a num patamar "onde não conseguimos alcançá-la".

Para a pesquisadora, o debate revela como as santificações – e suas negações – não são "inerentemente banais ou benignas", mas podem ser permeadas por formas institucionais e extrainstitucionais de "paixão e violência". Os debates sobre a possível santificação de Toni Morrison revelam, segundo ela, dinâmicas importantes sobre raça, gênero e classe, o que inclui as maneiras pelas quais tendemos a venerar e invisibilizar o gênio de escritoras e acadêmicas negras. Em síntese: "quais corpos e obras nós santificamos e quais nós rejeitamos?".

Religiosidade como resistência

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Todne Thomas participou do evento de forma remota | Foto: Yale University

Para Thomas, essas dinâmicas mostram como a "religião vivida" permite a criação de modelos de resistência que desafiam as normas coloniais, muitas vezes representadas pelo próprio catolicismo institucionalizado. A pesquisadora revelou, por exemplo, que a própria Toni Morrison, ao se converter ao catolicismo na adolescência, escolheu o nome de batismo Anthony, em referência a Santo Antônio, que tinha o "dom para as palavras e uma ligação com a África". Ela citou que, no Brasil, esse vínculo pode ser exemplificado por meio do sincretismo com Exu e Ogum, geralmente associados a Santo Antônio.

A conferencista não se limitou à esfera espiritual, conectando a santidade de Morrison às "guerras de cânone" na universidade neoliberal. Ela criticou a marginalização das mulheres negras na Antropologia, cuja produção intelectual é muitas vezes invisibilizada, representando menos de 1% das citações acadêmicas em certas amostras.

Para Thomas, a sobrecarga de trabalho imposta a essas mulheres nas instituições é uma forma de conter seu gênio acadêmico. "Podemos nos perguntar se as antropólogas negras não estariam trilhando seu caminho rumo à santidade enquanto elas percorrem suas trajetórias profissionais".

O terreiro como novo cânone

Ao analisar obras como Amada, Thomas sugeriu que Morrison revisou a própria noção de santidade, afastando-a da perfeição individual e aproximando-a de uma "essência terna" e humana.

"Nessa configuração de santa, Morrison poderia emergir como um ícone para a sua eloquência e vivência, sua irreverência e sutileza, sua capacidade de responsabilizar outros, e não apenas por seu triunfo moral individual – uma mulher revestida de sua humanidade, e não uma pessoa transformada em um modelo que a transcendeu".

Encerrando sua fala, Todne Thomas propôs que a Antropologia negra se compreenda como um "terreiro" – um espaço de organização comunitária autônoma e autorreferencial. "Podemos nos inspirar na sabedoria de Morrison: não há tempo para desespero, nem lugar para autocomiseração, nem necessidade de silêncio, nem espaço para o medo. Falamos, escrevemos, usamos a linguagem. É assim que as civilizações se curam".

 

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Fonte: Secom UFG

Categorias: 35ª RBA Humanidades FCS Notícia 4