Policultura baseada no milho sustentou grandes aldeias do Cerrado colonial
Estudo com participação da UFG reúne evidências inéditas de agricultura diversificada no Brasil central
Da Redação
Durante décadas, pesquisadores debateram as estratégias de subsistência das sociedades pré-coloniais do Cerrado brasileiro: teriam sido caçadoras-coletoras ou agricultoras intensivas de milho? E, em qualquer um dos casos, como se organizavam e como interagiam com a paisagem que habitavam? Um estudo que acaba de ser publicado na revista Science Advances, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Instituto Max Planck, apresenta as primeiras evidências diretas em larga escala capazes de responder a essas perguntas.
A pesquisa, para a qual colaborou o Laboratório de Arqueologia (LabArq) do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás (UFG), mostra que, enquanto algumas populações dependiam de uma ampla diversidade de plantas, o cultivo do milho desempenhou papel central para outras. Em vez de praticarem uma monocultura intensiva, essas comunidades desenvolveram sistemas diversificados de policultura baseados no milho.
"Por muitos anos, o debate sobre o Cerrado se concentrou em dois extremos: forrageamento altamente móvel ou agricultura sedentária intensiva", afirma Eliane Chim, primeira autora do estudo e pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP).
"Algumas sociedades dependiam fortemente do milho, cultivado dentro de sistemas agrícolas diversificados capazes de sustentar grandes aldeias de até 2 mil habitantes. Isso muda de forma fundamental nossa compreensão da produção de alimentos e do padrão de assentamento indígena no Brasil central".
Os pesquisadores analisaram isótopos estáveis de carbono, nitrogênio e oxigênio em dentes e ossos de mais de 100 indivíduos recuperados em 37 sítios arqueológicos dos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Combinadas a novas datações radiocarbônicas obtidas de colágeno ósseo humano, a linhas de base isotópicas da fauna, a evidências arqueobotânicas e a registros paleoecológicos, essas análises permitem reconstruir as dietas da região ao longo do Holoceno tardio com precisão cronológica.
As evidências isotópicas mostram que as pessoas associadas às aldeias a céu aberto obtinham uma parcela substancial de sua dieta a partir do milho, ao passo que populações contemporâneas que viviam em abrigos rochosos próximos consumiam alimentos muito mais diversificados e apresentavam menor consumo de milho. Como esses grupos ocupavam ambientes semelhantes, as diferenças não podem ser explicadas apenas pela ecologia. Elas revelam, antes, a coexistência de tradições culturais e estratégias econômicas distintas na região.
Sistemas resilientes
"Esses resultados desafiam ideias mais amplas sobre como a agricultura se desenvolveu na América do Sul tropical", diz o professor Patrick Roberts, diretor do Departamento de Coevolução do Uso da Terra e Urbanização do Instituto Max Planck de Geoantropologia. "Nossos achados mostram que o milho fazia parte de sistemas resilientes de produção de alimentos em policultura, que combinavam cultivos domesticados, plantas silvestres e conhecimento ecológico local".
Os valores isotópicos dos indivíduos das aldeias Aratu indicam um consumo de milho comparável ao de sociedades urbanas amazônicas que praticavam agricultura intensiva com irrigação e obras de terra, como as do Ucayali e dos Llanos de Mojos. É a primeira vez que o consumo intensivo de milho é documentado de forma direta em populações pré-coloniais do Brasil. Os achados também colocam o Cerrado ao lado da Amazônia como um centro fundamental para a compreensão das inovações biotecnológicas das sociedades indígenas pré-coloniais.
"O Cerrado tem sido frequentemente ofuscado pela Amazônia nas discussões sobre o uso da terra no período pré-colonial. Nossos resultados demonstram que ele também foi um centro de inovação, no qual diferentes sociedades desenvolveram formas distintas de interagir com uma das paisagens tropicais mais biodiversas do mundo", complementa o professor André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e coordenador do projeto.
Para além da arqueologia, a pesquisa contribui para a compreensão da longa história da influência humana sobre uma das savanas tropicais mais ricas do planeta, evidenciando estratégias sustentáveis de uso da terra que ajudaram a moldar as paisagens do Cerrado ao longo de séculos. Segundo os pesquisadores, esses resultados contribuem não apenas para refinar a compreensão da produção de alimentos no passado, mas também para os debates contemporâneos sobre conservação da biodiversidade, conhecimento indígena e manejo de longo prazo dos ecossistemas tropicais.
Os pesquisadores também destacam que este é o primeiro estudo de arqueologia brasileira publicado em uma revista de alto impacto com primeira e última autoria integralmente brasileiras. A pesquisa reuniu 31 pesquisadores de dez universidades brasileiras, em colaboração com o Instituto Max Planck (Alemanha) e com instituições de Portugal, Polônia e Estados Unidos.
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Fonte: USP
Categorias: arqueologia Humanidades MA destaque Notícia 3






