Siron Franco e a linguagem do horror
Exposição permite revisitar trajetória do artista por meio de mais de 100 obras
Paulo Duarte-Feitoza
Adiei este texto durante um bom tempo. Cheguei, inclusive, a pensar que não o escreveria. Confesso que as demandas cotidianas foram me afastando da folha em branco. Contudo, quando a mais comentada exposição de Siron Franco, em cartaz na Vila Cultural Cora Coralina, teve sua segunda prorrogação, pensei que essa nova oportunidade fosse obra da divina providência.
É inegável que a reunião de mais de 100 obras de Siron num mesmo espaço é, por si só, quase um milagre. Ver de perto esse conjunto exige reconhecer o esforço monumental de curadoria, produção, instituições e colecionadores que tornaram a mostra possível. Independentemente de qualquer leitura crítica, trata-se de uma exposição que merece ser celebrada pela rara oportunidade que oferece ao público de acompanhar, em perspectiva, uma das trajetórias mais importantes da arte brasileira contemporânea.
E foi ao percorrer a exposição que me vi novamente diante de uma questão que há algum tempo me inquieta e discuto com meus alunos na disciplina de Estética que ministro na Faculdade de Artes Visuais (FAV) da UFG: como o horror se tornou uma categoria estética.
Ao longo da história das categorias estéticas, o belo e a beleza sempre ocuparam um lugar protagônico. Rios de tinta lhes foram dedicados. A feiura, pelo contrário, permaneceu durante séculos como categoria secundária, quase um apêndice do belo, aparecendo muitas vezes apenas para reafirmar seu triunfo. Foi apenas no século XVIII que essa relação começou a ser tensionada, quando autores como Lessing passaram a perguntar, em seu já canônico texto Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia, se a feiura também seria capaz de produzir prazer estético. Essa autonomia encontraria sua formulação mais consistente no século XIX, com Karl Rosenkranz e sua Estética do Feio, obra que confere à feiura um estatuto filosófico próprio.
Se Rosenkranz deu autonomia filosófica à feiura no século XIX, artistas como Siron Franco revelam que essa categoria, no século XX, torna-se inseparável da experiência histórica do horror. As guerras mundiais, a industrialização da morte, o desenvolvimento tecnológico aplicado à destruição e a experiência inédita da barbárie alteraram profundamente nossa sensibilidade. Em Discurso sobre o horror na arte, o filósofo Paul Virilio lembra que dificilmente compreendemos os caminhos da arte moderna e contemporânea sem reconhecer o impacto desses acontecimentos. Depois deles, o horror deixa de ser apenas um tema representado para tornar-se uma condição da própria imagem.
E é justamente nesse horizonte que me interessa ler a obra de Siron Franco.
Sua pintura não procura produzir imagens conciliadoras, tampouco faz da beleza sua finalidade. Ao contrário, transforma as violências do país em imagens. A ditadura militar, os conflitos no campo, o massacre de indígenas, o acidente radiológico com o césio-137, as diferentes formas de autoritarismo, feminicídios e exclusão perpassam sua obra e constituem um repertório imagético singular. Em Siron, a feiura deixa de ser a negação do belo para tornar-se uma linguagem do horror, capaz de produzir uma forma própria de pensamento visual.
Esse vocabulário visual tampouco surge isolado. Sua pintura dialoga com uma tradição imagética do horror construída ao longo do século XX. Nesse sentido, a exposição evidencia as aproximações que o artista estabelece com Francis Bacon na deformação dos corpos e na intensidade psicológica de muitas de suas figuras, assim como ressonâncias das fotografias que marcaram a memória das guerras, especialmente do Vietnã. O artista incorpora uma memória imagética compartilhada, na qual pintura e fotografia procuram responder à mesma pergunta: como produzir imagens depois do horror? É possível afirmar que seu trabalho funda uma iconografia própria do horror brasileiro, e talvez aí resida uma de suas maiores contribuições.
Um dos grandes méritos da exposição é justamente permitir que esses diferentes momentos da trajetória do artista sejam vistos em conjunto. Das madonas à série dedicada ao césio-137, reunindo obras da coleção de Charles Cosac e do acervo do Museu de Arte de Goiânia, a mostra oferece uma rara oportunidade de compreender, em perspectiva, a dimensão histórica, política e poética de um dos episódios mais marcantes da produção do artista.
Diante de obras dessa força, cabe perguntar até que ponto é preciso enfatizar na montagem aquilo que já se encontra plenamente inscrito na matéria da pintura. Talvez o silêncio bastasse para que essas imagens emergissem com toda a sua intensidade. Nada disso diminui a importância da mostra. Muito pelo contrário. Trata-se de uma exposição que merece ser vista, discutida e revisitada, e, não por acaso, acaba de ser prorrogada até 30 de agosto. Talvez por isso eu tenha adiado tanto a escrita deste texto. Algumas exposições exigem apenas uma visita; outras precisam de tempo para discernir. A de Siron pertence a esta segunda categoria: pela extraordinária reunião de obras, e, também, porque nos obriga a pensar sobre aquilo que muitas vezes preferimos esquecer. Saí da Vila Cultural convencido de que a pintura de Siron nos ensina a olhar demoradamente para as feridas da história e uma de suas maiores conquistas tenha sido justamente esta: transformar o horror em linguagem.
Paulo Duarte-Feitoza é curador, professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).
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Fonte: Secom UFG
Categorias: artigo Arte e Cultura FAV






