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Universidade Federal de Goiás
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Conquistar qualidade de vida ainda é um desafio para a população

Criada em 08/11/10 08:19. Atualizada em 24/01/12 08:26.
Adaptar-se à nova realidade, sem esquecer os hábitos saudáveis é indispensável na conquista de equilíbrio e bem-estar

Por Kharen Stecca, Patrícia da Veiga e Roberto Nunes
Confira a seguir mais trechos da mesa-redonda com a participação da professora da Faculdade de Nutrição, Caroline Dario Capitani, o professor de Psicologia Social da Faculdade de Educação, Emílio Peres Facas, e a professora da Faculdade de Enfermagem e coordenadora da Rede de Pesquisa de Qualidade de Vida em Saúde, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Maria Alves Barbosa.
 
O que os estudos desenvolvidos pelos senhores têm mostrado sobre as mudanças de estilo de vida de nossa sociedade?
Maria Alves – Quando se avalia qualidade de vida é interessante perceber que há domínios em que a qualidade de vida está mais prejudicada. No domínio físico, a pessoa pode estar bem, mas, no domínio das relações sociais ela pode se sentir isolada, não apoiada pela família ou amigos. No domínio meio ambiente, também há influências. Quantas vezes o meio ambiente atrapalha nossa qualidade de vida? Principalmente no período de seca. Quando se pesquisa a qualidade de vida em um grupo, verifica-se em quais domínios ela apresenta deficit. É interessante ver também as ações do governo, quando anunciam a expansão de benefícios como energia elétrica, água tratada e esgoto para a população. Quando se vê uma pessoa que tem tudo isso, pensa-se que ela tem uma boa qualidade de vida. Mas, ao fazer a pesquisa em um determinado grupo, percebe-se que uma pessoa pobre, que vive sem os benefícios básicos, é muito mais feliz do que o vizinho que tem dinheiro e tudo de que precisa na vida. A qualidade de vida é muito individual, é a percepção do próprio indivíduo.
Emílio Peres – O mundo moderno trouxe novas exigências e é importante falar sobre as relações sociais, pois os indivíduos estão cada vez mais isolados, individualizados, em especial no mundo do trabalho, que é a área que pesquiso. Há um impacto direto nas relações interpessoais. Levamos em consideração a importância do reconhecimento do outro pelo seu trabalho, sua contribuição social. E sem esse olhar do outro, o indivíduo fica cada vez mais isolado, mais triste.
 
Há uma ideia de que o meio rural possibilita mais momentos de ócio. Isso existe?
Emílio Peres – A essa ideia do ócio no meio rural, no ponto de vista do trabalho. Talvez a pessoa que trabalha no campo tenha um pouco mais de liberdade para fazer o trabalho. Temos ao longo do tempo todo o processo de expropriação do processo produtivo do trabalhador. Se antes a pessoa preparava a terra, escolhia a semente, escolhia o método de irrigação, hoje isso não existe mais, mas há um pouco mais de liberdade para esse trabalhador. Mas é preciso pensar no ócio de duas formas. Se o trabalhador não trabalha, se ele tende à falta de atividade por “malandragem”, já existe uma condição patológica desse trabalhador, porque o ser humano, por natureza social, vai sempre tender ao trabalho e não à preguiça, ao contrário do que muitas pessoas falam. Há o ócio que vai separar o sujeito de ter uma crise de estafa, uma tendinite, até de agredir o colega. Não é que somos a favor ou contra o ócio, apenas não podemos banalizá-lo a ponto de achar que o ócio é malandragem, que o trabalhador sempre está enrolando para não fazer o trabalho. Um exemplo é o cafezinho, visto como uma forma de enrolar o trabalho. No entanto às vezes a hora do cafezinho é o momento em que o trabalhador tem oportunidade de pensar e de conversar sobre o trabalho com todo mundo, de pensar novas estratégias, porque aí o colega pode dar sugestões. Nós já não temos isso formalmente, não temos tempo nem de conversar com nossos filhos, muito menos com os nossos colegas.
 
O ritmo acelerado de nossas vidas começa a afetar também as crianças. Como os pais devem agir na formação de seus filhos, sem que a infância esteja sobrecarregada de obrigações e de expectativas?
Caroline Capitani – O hábito alimentar é formado na infância. A partir do momento em que a criança começa a receber alimentação complementar, sem ser o leite materno, são os pais, ou quem cuida das crianças, que vão introduzir os hábitos alimentares. Existem inúmeros trabalhos provando que os hábitos alimentares começam a se formar na primeira infância. A partir daí, quando a criança começa a escolher os alimentos, ela vai manipulando o que é a alimentação. E a escolha será feita com o que ela tem disponível em casa, na escola, creche que ela frequenta. É importante que os pais estejam educados sobre o que é uma alimentação saudável. Aí, você vê hoje no supermercado ou nas praças de alimentação do shopping que os pais não têm autoridade para dizer o que é ou não é possível comprar ou comer. Os pais fazem a vontade dos filhos, as mães estão ausentes por causa da a dupla jornada de trabalho e querem agradar.
 
Muita gente não sabe sobre a importância da alimentação no pós-amamentação. O que é importante saber sobre isso?
Caroline Capitani – Existe uma série de orientações que devem ser dadas às mães ou ao cuidador da criança. Eles devem estar cientes sobre o que é ou não importante introduzir na alimentação, porque a criança vai conhecer uma variedade de gostos, texturas, consistências. A criança vai criando um paladar, senão será aquele que só quer doce, porque a vida inteira tomou leite com achocolotado.
 
E como agir com relação a essa compensação dos pais com os filhos fazendo suas vontades?
Emílio Peres – Acho que não é só uma estratégia de compensação, não. É também, na maior parte dos casos. Eles tentam compensar a falta, a ausência em uma gama de situações, não só na alimentação. Mas, por exemplo, quando falamos do professor de Nutrição, lembramos do ditado “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”. Vejo muito o seguinte: quando os pais terão autoridade para dizer “não comam lanche”, se eles também comem? Você não vê os pais comendo um prato de salada e os filhos comendo lanche. Todos estão comendo lanche, é um hábito familiar de sair e comer esse tipo de alimento. E nos supermercados os produtos de maior apelo de consumo, como doces e balas, estão estrategicamente na altura da criança.
 
E como educar essas crianças?
Emílio Peres – É difícil falar de educação. Fala da educação de todo mundo e na hora de fazer não é fácil. Mas é uma questão de colocar esse hábito muito claro desde o começo, desde antes de a criança fazer a birra.
Camila Capitani – Os valores de alimentação estão um pouco trocados. Muita gente não sabe que, se fizer um suco de limão será mais barato e nutritivo do que um refrigerante, mas talvez não mais rápido. Ela compra um refrigerante de uma marca mais barata e acha que isso está excelente. Ela tem uma bebida para consumir no almoço, jantar, mas isso não está acrescentando nada a favor de sua saúde. Hoje há tanta coisa industrializada e as pessoas não sabem compor sua dieta com esses produtos. Isso deveria ser mais fácil.
Em sociedades consideradas mais desenvolvidas, que têm as necessidades de habitação, saneamento, saúde e educação resolvidas, como os Estados Unidos, há um problema gravíssimo da obesidade na população. Como proceder com relação aos fast-foods, com a correria de nosso cotidiano?
Caroline Capitani – É preciso saber como compor sua dieta. Essa obesidade é reflexo da má alimentação e do sedentarismo. Não fazer atividade física e comer uma grande quantidade de açúcar, gordura e carboidrato, geralmente proveniente de produtos industrializados, faz com que tenhamos esse cenário de obesidade. Precisamos resgatar a infância, incentivando a brincar, sair e não ficar apenas na frente do computador e da televisão. Não há segredo na nutrição. Mas na sociedade de hoje, isso não é tão fácil.
 

 

Fonte: ASCOM/UFG