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Universidade Federal de Goiás
Integridade Acadêmica nova versão

Integridade Acadêmica

Criada em 18/12/19 13:57. Atualizada em 08/01/20 11:32.

Publish or perish não é mais a regra

Tatiana Duque Martins*

Tatiana Duque

Quem não sofre com a pressão de ter que publicar um certo número de artigos científicos em periódicos, com certos índices de impacto para alcançar avaliações satisfatórias que tornem possível conseguir financiamento de pesquisas ou mesmo progressão na carreira?
Tendo sido usada pela primeira vez no contexto acadêmico no livro "The Academic Man: A Study in the Sociology of a Profession", de Logan Wilson em 1942, a expressão “Publish or Perish (Publique ou Pereça)”, desde então, é a responsável pelas diversas métricas para avaliar e comparar o sucesso de pesquisadores de áreas diferentes e, baseado nelas, determinar quem é bom e quem é mau pesquisador.
O fato é que, por se sentirem pressionados a publicar, as reações dos pesquisadores, muitas vezes, tem sido a de proteger sua carreira em detrimento do desenvolvimento científico.
A cultura do “Publish or Perish” é percebida como a razão para o crescimento de más condutas na atividade acadêmica, tendo sido diretamente relacionada às ocorrências de práticas como a divisão de trabalhos científicos para ter mais de uma publicação resultante de uma única pesquisa, autorias fantasmas, falsificação e fabricação de dados, plágios e diversos conflitos de interesses.
A necessidade de publicar, cada vez mais, é tida como a maior causa da descrença em publicações científicas, pela falta de reprodutibilidade detectada em trabalhos científicos e, portanto, pela perda da essência da razão de se publicar os resultados de uma pesquisa, que é a de debater e de avançar no tema da pesquisa, mas não o avanço como o personagem pesquisador, mas como a contribuição científica per se. Cultura do “Publish or Perish” coloca o pesquisador sobre a ciência, seu nome, suas métricas, passam a ser o objetivo e o desenvolvimento científico fica em segundo plano.
No mundo, a percepção dos “efeitos colaterais” do “Publish or Perish” já começaram a ser combatidos, culminando com a publicação da `Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA, disponível em: https://sfdora.org/read/pt-br/)’ , o manifesto dos cientistas da área da biologia de São Francisco – EUA e, recentemente, com a publicação de novas regras de avaliação de pesquisadores adotadas por universidades e instituições de fomento dos Países Baixos.
Essa avaliação consiste numa forma de valorizar os aspectos distintos das áreas de pesquisa, valorizar as diferentes atividades exercidas pelo pesquisador, como suas atividades na administração, no ensino, na pesquisa e na extensão e promete ser um meio mais individual de compreender a atividade, os resultados e o envolvimento do pesquisador com sua atividade, em sua plenitude. Seu objetivo é o que acessar liderança acadêmica de alta qualidade e tornar a ciência acessível a todos, fomentando o “Open Science”.
O texto, já disponível para leitura (https://www.vsnu.nl/files/documenten/Domeinen/Onderzoek/Position%20paper%20Room%20for%20everyone%E2%80%99s%20talent.pdf), tem a chamada “Room for Everyone’s Talent - Towards a New Balance in Recognising and Rewarding Academics (Lugar para o Talento de Cada Um – Em Busca de Um Novo Balanço no Reconhecimento e da Premiação de Acadêmicos) que demonstra seus maiores objetivos e discrimina-os da seguinte forma:
“1. Permite a diversificação e vitalização da carreira, promovendo assim a excelência em cada uma das áreas principais; 2. Reconhece a independência, qualidades individuais e ambições dos acadêmicos, bem como reconhece o desempenho da equipe; 3. Enfatiza a qualidade do trabalho em vez de quantidade de resultados (como número de publicações); 4. Incentiva todos os aspectos da ciência aberta; e 5. Incentiva a liderança acadêmica de alta qualidade.” (tradução livre)
Apesar de não ter ainda resultados para comentarmos, esse manifesto tem recebido apoio de diversas instituições da Europa e Américas, o que denota a grande busca dos acadêmicos por alternativas ao massacrante “Publish or Perish”. É apenas um primeiro passo, mas evidencia que mudanças importantes estão a caminho, que serão fundamentais para religar o cientista à ciência, permitir que os tempos da ciência e não do homem sejam respeitados, que toda e qualquer área do conhecimento receba seu devido reconhecimento e, mais importante, que a boa conduta acadêmica volte a ser inerente à profissão.

Professora Tatiana Duque Martins é professora Associada do Instituto de Química da UFG e Coordenadora do Comitê de Integridade Acadêmica – CIA/UFG

 

 

Fonte: Secom UFG

Categorias: colunistas