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Universidade Federal de Goiás
Andréa Vetorassi

PANORAMA

Criada em 10/03/20 11:59. Atualizada em 10/03/20 12:25.

Consciência Cidadã

Andréa Vettorassi*

Andréa Vetorassi

No dia 7 de abril de 2011, um rapaz de 23 anos entrou em uma escola municipal em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, atirou contra alunos em salas de aula lotadas, matou onze jovens entre 12 e 14 anos e, em seguida, cometeu suicídio. O assassino era ex-aluno daquela escola.
Evidentemente o caso chocou o país e foi profundamente comentado nas mídias, entre familiares, nos círculos sociais. Mas o que mais me incomodou naquele momento foi o teor das justificativas que as pessoas buscavam para um ato tão doloroso e que escancarava males profundos de uma sociedade perversa: elas giravam em torno da possibilidade do atirador ser ateu, ou muçulmano, ou HIV positivo, prerrogativas que lhe sentenciavam como o “louco”, o “doente”, o “outsider”, ou seja, alguém que está do lado de fora da sociedade, que não compactua com seus contratos morais e que representa o “outro”, a aberração, o diferente.
Na época, fortemente incomodada com o teor desses comentários, escrevi a seguinte mensagem em uma rede social:
“Não questiono o ódio das pessoas frente aos acontecimentos no Rio... Mas gostaria de fazer uma observação de cunho sociológico após acompanhar debates: o atirador tem que ser ateu, muçulmano ou HIV positivo para que possamos justificar seus atos!? Enquanto preconceitos e intolerâncias continuarem se propagando entre os “cidadãos de bem”, assassinos nas escolas e Bolsonaro´s na política ganharão cada vez mais espaço”.
Pois bem... Quem diria que, nove anos depois, o então improdutivo deputado federal Jair Bolsonaro, já bastante conhecido por comentários misóginos, racistas e homofóbicos no Congresso Nacional e na mídia, bem como por reproduzir amplamente fake news como as em torno de um suposto “kit gay” distribuído nas escolas, se tornaria o presidente da república. E então resgatei com uma certa inquietação essas elucubrações de tantos anos atrás, pois há muito o que refletir sobre o perfil desse “cidadão de bem”, que deu cada vez mais voz e espaço para ideais conservadores e segregacionistas como os presentes no espectro de Bolsonaro.
A expressão “cidadão de bem” já denuncia o cerne do problema: qualquer um de nós que se responsabilize em olhar com um pouco mais de cuidado e generosidade para os diversos tipos de pessoas e pensamentos que existem no mundo perceberão que definições para o “bem” e para o “mal” são subjetivas, cambiantes e dizem muito mais sobre a perspectiva de quem define o que é bom ou mau do que da possibilidade de sermos categóricos nessa definição. Se você se julga, sem nenhuma sombra de dúvidas, um cidadão que representa o bem, provavelmente está fechado para olhar as inúmeras identidades, consciências e contextos que constroem um cidadão. Não basta seguir as regras e leis para representar o bem, até porque as próprias regras e leis escancaram profundas desigualdades e hipocrisias vividas em nosso país. É urgente a construção de uma consciência cidadã.
A etimologia da palavra consciência possibilita avançarmos nessa reflexão: é o saber em ressonância com alguma outra dimensão. Essa outra dimensão, então, não é a obrigação moral de olharmos com empatia e respeito para outras identidades, individualidades, formas de pensar e agir no mundo?
Na contemporaneidade, lugares e tempos são fragmentados, já que as informações e experiências, por meio das tecnologias, são muito mais rápidas e globalizadas. Ao mesmo tempo em que temos mais acesso a inúmeras identidades, símbolos e formas de pensar, somos também mais individualistas: cada cultura vai construindo sua própria imagem do que seja a realidade, e essa realidade é frequentemente confundida com uma verdade absoluta, como se nossa forma de ser, pensar e agir representasse, afinal, o BEM. E então, como representante legítimo do bem, “eu” me sinto no direito de eliminar o que é diferente “de mim”. Num contexto de conservar o que por séculos foi legitimado no Brasil como a representação do bem, o cidadão que elege Bolsonaro se identifica com a exclusão da mulher, do negro, dos LGBTQ+, dos não cristãos, dos migrantes/estrangeiros ou dos pobres de qualquer relação de poder, seja ela a existente no congresso nacional ou dentro da universidade, por exemplo.
No entanto, há espaço para o vislumbre de novos tempos. Há que se mencionar que novas identidades são formadas em momentos de crise, e a etimologia da palavra crise refere-se à oportunidade (crisis). Ou seja, a identidade se transforma quando se é forçado a uma escolha ou quando há a oportunidade de escolher. Escolhemos, a partir do contato com o diferente, o que queremos e o que não queremos ser, e entendemos melhor nossas heranças culturais e consciências coletivas.
Quanto mais difícil o reconhecimento da identidade do que é diferente, do que é “estranho”, mais tensas e defensivas são as relações entre os grupos sociais. As identidades do povo brasileiro estão sendo colocadas umas frente às outras, e esse processo é opressor, é construído num contexto de desigualdade e crise. Atiradores em escolas não são algo externo à nossa sociedade: representam muito de nossa cultura e do quanto produzimos violências em nossa cotidiano, sejam físicas ou simbólicas. Assim como Bolsonaro não é uma aberração política: mais uma vez é uma crise identitária escancarada e todos nós, invariavelmente, fazemos parte dessa crise, independentemente de quais escolhas fizemos nas últimas eleições. Mas se crise é, como sua etimologia revela, uma oportunidade, vale a pena a reflexão coletiva... Quais oportunidades, afinal, estão sendo ofertadas agora? E o quanto podemos aprender e transformar com elas?

Andréa Vettorassi é bacharel e mestre em Ciências Sociais pela UFSCar e doutora em Sociologia pela UNICAMP. É professora adjunta da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFG. Estuda fluxos migratórios e é membro do NEST - Núcleo de Estudos sobre o Trabalho da UFG

 O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

Fonte: Secom UFG

Categorias: colunistas FCS