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Universidade Federal de Goiás
Bernadete Gatti

Sistema educacional reflete desigualdades sociais

Criada em 18/09/19 16:28. Atualizada em 19/09/19 14:54.

Confira a entrevista com a professora da Fundação Carlos Chagas, Bernadete Angelina Gatti 

Michele Martins

Com cerca de 48 milhões de estudantes e mais de 2,5 milhões de professores na educação básica, segundo censos educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o sistema educacional brasileiro tende a refletir grandes dilemas de uma nação marcada pela situação de desigualdade social crônica. Para estudar esta realidade, a professora do Departamento de Pesquisas Educacionais, Pesquisa, da Fundação Carlos Chagas, Bernadete Angelina Gatti, tem dedicado sua carreira acadêmica. Ela é considerada uma das principais referências acadêmicas em estudos sobre educação básica, tendo presidido comitês científico de Educação de agências governamentais como o CNPq e da CAPES no Brasil ou em consultorias na UNESCO e outros organismos nacionais e internacionais.

Para Bernadete Gatti, a formação de professores no Brasil precisa passar por uma reformulação dos atuais currículos dos cursos de licenciatura. Este foi um dos principais pontos que a professora defendeu em uma conferência que ministrou na UFG durante o primeiro Encontro de Licenciaturas e Educação Básica da UFG, que ocorreu em agosto. Processo histórico da Educação no Brasil e as apostas na inovação no campo educacional são os principais assuntos de destaque nesta entrevista para o Jornal UFG. Acompanhe:

Bernadete Gatti
Fotos: Pedro Gabriel

Historicamente, a educação no Brasil nunca foi prioridade de uma de política de Estado. Qual principal análise pode ser feita sobre os impactos dessa realidade na formação educacional dos brasileiros?

Os impactos são observáveis por alguns dados. Chegamos ao ano de 1950 com mais de 50% da população analfabeta. No Brasil Colônia não tivemos praticamente educação a não ser para privilegiados; no Império o interesse não foi tão maior e na Primeira República, apesar de ter sido antecedida por discussões em que educação do povo apareceu com força, não houve investimentos e políticas significativas quer para a institucionalização escolar, quer para a formação de professores. O duro Manifesto dos Pioneiros da Educação, tanto de 1932 como de 1959 veio nesse contexto: um chamado para a consideração da educação escolar. As vicissitudes das Escolas Normais no século XIX (que se encerrou com apenas quatro delas), mas que se tornaram importantes particularmente a partir da década dos anos quarenta - para formar alfabetizadores e educadores infantis - acaba nos anos 1980 como apenas uma habilitação, entre outras, do ensino médio geral, debilitando a formação desses professores. Hoje temos fragilidades na formação desses docentes mostradas pelas pesquisas sobre currículo dos cursos de licenciatura em Pedagogia. Os resultados da Avaliação Nacional da Alfabetização não são animadores (dados de 2016 – 34% das crianças do 3º ano não sabiam escrever corretamente um texto simples e 45% não tinha proficiência em leitura). É preciso reconhecer que muitos esforços foram desenvolvidos nas décadas de 1990 e 2000, porém, visou-se mais a quantidade do que a qualidade. Os currículos das licenciaturas só mais recentemente começaram a ser discutidos e não sabemos se mudanças relevantes ocorrerão. A ampliação da formação na modalidade EaD, como praticada entre nós, tem contribuído para fragilizar mais essa formação, especialmente no que se refere à realização dos estágios, entre outros aspectos. Não há política de acompanhamento e avaliação eficaz quanto a esse tipo de oferta. 

Quais são as principais desafios que se colocam à formação de professores considerando o atual contexto sociopolítico no qual vivemos?

Já de alguns anos – mais de uma década – estudos sobre as práticas curriculares na formação de professores vêm mostrando que a formação oferecida para o exercício da docência na educação básica deixa a desejar em vários aspectos. É uma formação fragmentada, dentro dos próprios cursos, e, entre cursos de licenciatura, não contribuindo para a construção de uma identidade profissional. A articulação entre teorias e práticas não é concretizada, a relação dos conteúdos importantes para a atuação na educação básica associados a condições pedagógicas para a criação de ambiências de aprendizagem, nas escolas, para crianças e adolescentes não é foco das formações, e, muitas das licenciaturas quase não apresentam formação relativa às questões da educação. A formação em educação para as licenciaturas de especialidades é muito genérica e reduzida. O foco fica excessivamente bacharelesco. A Resolução 2/2015 do Conselho Nacional de Educação (CNE) veio sinalizando novos caminhos, inclusive na consideração das diversidades, das questões éticas e dos direitos humanos, com a proposição de uma base comum nacional para a formação de professores, propondo que a formação dos futuros docentes deve ter relação com os sistemas escolares e as escolas. Sua vigência vem sendo adiada desde então. Atualmente está em discussão no CNE documento sobre os desdobramentos dessa resolução que, em princípio, está prevista para vigência em 2020. Estamos muito atrasados na reformulação dessa formação, a qual foi estruturada nos anos trinta do século passado, e já estamos no final da segunda década do século vinte e um, em um tempo histórico-social com dinâmica muito diferente daquela do início do século passado e, pelos dados pouco se avança na formação de professores para a Educação Básica.

A senhora defende a inovação quanto aos processos de formação dos professores. Que tipo de inovação poderia ocorrer nos atuais projetos políticos pedagógicos dos cursos de licenciatura?

A inovação pode ocorrer se houver nas instituições e no coletivo dos docentes das licenciaturas vontade política para mudar. Esta se alicerça em consciência clara de que o que se está realizando não atende às necessidades do trabalho formativo que futuros professores deverão desenvolver com aqueles que estarão na educação básica como aprendentes. As orientações atuais não impedem inovações. Aliás, no último trabalho da equipe com a qual pesquiso, já publicado, levantamos e analisamos várias inovações que encontramos. São inovações realizadas por docentes em licenciaturas, ou, por instâncias de gestão da educação básica com docentes de ensino superior. São muito interessantes e trazem bons resultados. Embora sejam iniciativas pontuais, há muitas sendo realizadas. No entanto, não localizamos inovações em um curso como um todo, o que seria o mais desejável. Mas, não quer dizer que não existam.

É possível apontar uma visão geral sobre o atual panorama das principais pesquisas em educação? Qual deve ser o foco dessa produção científica sobre prática docente?

Primeiro, e tenho falado isso muitas vezes, é preciso clarear o conceito de prática docente corrente na área. Práticas são tomadas, em geral, como tecnicismo, ou seja, há uma redução conceitual sobre práticas docentes, o que leva ou à recusa de pesquisar ações docentes, ou ao empobrecimento do enfoque dos estudos. Compartilho com colegas a ideia de que práticas docentes são práticas sociais, práticas culturais, pois são relações entre pessoas em dado contexto sócio-histórico, em certas condições locais e institucionais, com finalidades específicas: educar ensinando, construindo possibilidades de escolhas didáticas fundamentadas em conhecimentos e saberes. Isso pressupõe o domínio de várias perspectivas teóricas que ajudam a nortear questões para a investigação educacional sobre práticas docentes, investigações essas que por sua vez poderão realimentar as teorizações em prol de uma educação melhor para nossas crianças e jovens, em seus contextos de vida e aspirações. Isso nos põe longe de associar práticas como doutrinação ou treino.

Os professores compõem uma das maiores forças de trabalho do país, e mesmo assim, está entre as profissões mais desvalorizadas. Por qual caminho deve se dar a valorização da carreira de professor? 

Soluções para questões sociais não são simples. E, a valorização dos professores da Educação Básica é uma questão social. Nas instituições de ensino superior nem sempre as licenciaturas são valorizadas, em muitos casos, e ouvimos isso em algumas de nossas pesquisas; elas são consideradas cursos de segunda categoria. A compreensão que formar docentes é uma tarefa complexa não tem perpassado o ethos das instituições formadoras. O currículo oferecido (estou falando do conjunto, não deste ou daquele curso) é empobrecido e, em muitos casos há grande redução nas horas de formação efetiva. A representação de curso fácil é encontrada nas representações sociais de entrevistados. Romper com isso pode ser o início de um processo de mudança representacional sobre a formação e o trabalho docente. Uma formação mais digna e mais consistente é um caminho, tanto a inicial como a continuada. A mudança de percepção de gestores e políticos sobre o papel essencial dos docentes da Educação Básica se faz necessária e isso exige atuação de pesquisadores, associações, sindicatos, etc. A construção de identidade formativa e identidade profissional dos professores precisa ser implementada e isso demanda superar a fragmentação entre as licenciaturas, propiciando a criação de um espírito comum, quebrando com o conceito de que professor de ensino médio, por exemplo, é mais do que docente da educação infantil, ou que docentes de matemática são mais do que alfabetizadores. Um espírito comum que ligue a todos em suas formações e seu trabalho e que lhes propiciem ter força social. Estudo de Paula Louzano e Gabriela Moricone realizado em 2014 mostra que em países nos quais o magistério é representado mais como talento, vocação, e que, para ser exercido, basta saber alguma coisa, esforços públicos e institucionais para qualificar os profissionais docentes são menores e a carreira é pouco considerada.

Fonte: Secom UFG

Categorias: Entrevista Humanidades