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Universidade Federal de Goiás
Capa SBPJor

Encontro discute ética jornalística e qualidade da informação

Criada em 08/11/19 16:22. Atualizada em 08/11/19 17:20.

Situação política e responsabilidade dos veículos foram alguns dos temas abordados

Gustavo Motta

A Faculdade de Informação e Comunicação (FIC/UFG) recebeu no dia 7 de novembro uma mesa temática intitulada “Ética jornalística e qualidade da informação”. Com mediação de Danilo Rothberg, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a mesa contou com a presença dos docentes Ana Carolina Temer (UFG), Josenildo Guerra (Universidade Federal de Sergipe - UFS) e Rogério Christofoletti (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC).

A discussão sobre esse tema faz parte do 17º Encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor), evento que ocorreu na FIC entre os dias 6 e 8 de novembro. Realização de grandes proporções, o encontro reuniu pesquisadores de outras regiões do país. Nos tempos em que fake news, corrupção institucional e polarização política estão no centro das discussões públicas, Ana Carolina Temer destacou a necessidade de se refletir sobre a cobertura jornalística da Operação Lava Jato.

SBPJor mesa
Mesa temática reuniu pesquisadores que lotaram Auditório da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC/UFG). Foto: Ana Fortunato

Brasil em crise

A docente destacou a importância de se refletir sobre o Brasil que assiste à operação e ao contexto de crise política e institucional. “O jornalismo é essencial ao país nesse momento, especialmente por exercer um papel de crítico, juiz e - principalmente - fiador da democracia”, aponta. Nesse sentido, enquanto fiscalizador das instituições públicas e promotor de discussões importantes ao interesse público, a atividade exerce um papel de protagonismo no cenário democrático.

“Entretanto, o que percebemos é que os veículos têm nos saturado com escândalos, sempre maiores, mais volumosos - de modo que, para atingir o interesse das pessoas, não adianta mais falar em milhões de reais desviados. As pessoas já se acostumaram com isso. É preciso falar em bilhões, trilhões, algo sempre maior”. No entanto, se o jornalismo tem o papel de denunciar e acompanhar as ações do poder público, ele também pode saturar esse tema.

A pesquisadora avalia que o jornalismo promove um diálogo com a sociedade. O problema é que a saturação de reportagens sobre escândalos de corrupção e investigações atrapalha a discussão sobre outros assuntos, e prioriza a exposição de discursos que podem estar sujeitos aos interesses editoriais dos veículos e à criação de personagens, narrados como heróis ou vilões. E se a criação de heróis acompanhou a cobertura jornalística sobre a Lava Jato, tem-se visto recentemente a divulgação de escândalos que desconstroem essas narrativas.

Nesse contexto, Ana Carolina Temer acredita que o País da Lava Jato precisa ser repensado, com seus escândalos, radicalismos e contradições. “Estamos em um purgatório da democracia, em que a maioria dos cidadãos pensa que pode impor sua vontade sobre uma minoria, enquanto deveríamos aprender a respeitar e conviver com nossas diferenças”. Assim, a pesquisadora espera que as futuras gerações de jornalistas possam promover uma atividade profissional com maior atenção à pluralidade de temas, diálogos e interesses.

Temer
Ana Carolina Temer: "Estamos em um purgatório da democracia"

 

Saiba mais: Anti-intelectualismo e fake news são temas de discussão em evento na Faculdade de Educação

 

Requisitos de qualidade

Josenildo Guerra destacou a importância de se abordar a qualidade jornalística em trabalhos de pesquisa, o que demanda reflexões éticas sobre as responsabilidades dos veículos. Em diálogo com a Administração e a Engenharia de Produção, o professor da UFS aponta que qualidade é “o grau em que um produto satisfaz requisitos”, sendo que “requisitos são as necessidades ou interesses daqueles que acompanham a atividade jornalística - como o público, anunciantes, governo, e os próprios colaboradores do veículo”.

Nesse contexto, o docente tem buscado desenvolver uma metodologia de pesquisa aplicada com objetivo de produzir diagnósticos e propor soluções a problemas de qualidade. “Os requisitos expressam em grande medida as responsabilidades que o veículo assume diante da sociedade”. Assim, cabe definir ações para se fazer um bom jornalismo. 

O pesquisador listou algumas: definição de uma linha editorial; identificação dos requisitos ou responsabilidades (como pluralidade, interesse público, imparcialidade, autonomia, etc); definição dos mesmos (o que é pluralidade, o que é interesse público, etc); definição de diretrizes para se buscar atingir esses requisitos (como modelos de gestão e governança, padrões técnicos, etc); e a execução de uma constante avaliação para se verificar o cumprimento ou alcance das responsabilidades anteriormente traçadas.

Josenildo
Josenildo Guerra: verificação do cumprimento de responsabilidades está entre ações de um bom jornalismo

 

Ética nas pesquisas

Em alusão ao que foi dito pela professora Ana Carolina Temer, Rogério Christofoletti destacou a importância de se tratar da ética com objetivo de preservar a credibilidade jornalística, especialmente em uma época em que “caem as máscaras de alguns ‘heróis’ da República”, os quais tiveram suas imagens construídas por veículos jornalísticos. No entanto, conforme o docente da UFSC, ainda se fala pouco em ética no meio jornalístico: “até pela nossa dificuldade em reconhecer as próprias falhas e limitações”.

No espaço da academia, o pesquisador percebe o mesmo. Tanto que, após uma breve busca, o pesquisador constatou que não existem disciplinas sobre ética nos cursos de Pós-Graduação em Comunicação que foram avaliados com notas 5, 6 ou 7 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - as notas mais altas. “Embora fundamental para nossas práticas, falamos muito sobre linguagens e tecnologias, e ainda pouco sobre a ética”, destaca.

“Isso não significa que os nossos trabalhos sejam realizados sem preocupações éticas, mas as mesmas podem ser realizadas com mais transparência e proteção à integridade daqueles que aceitam participar de nossos experimentos”, aponta. Para Rogério Christofoletti, embora o cuidado ético “não necessariamente produza avanços no conhecimento, o mesmo qualifica a prática científica”.

O primeiro esforço com esse intuito ocorreu em 1996, quando foi fundada a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). “Atualmente, nós temos a Resolução 510/2016, que trata de normas e diretrizes a serem seguidas”. No entanto, o texto está vinculado ao Conselho Nacional de Saúde (CNS), o que aponta protagonismo e hegemonia dessa área nos movimentos de valorização ética nas pesquisas. Outra resolução, a 466/2012, dispõe sobre a proteção de pessoas envolvidas em experimentos científicos, também vinculada ao CNS. Por isso, o pesquisador ressalta que “ainda é previsto um salto metodológico quanto à ética nas pesquisas que envolvam o Jornalismo”.

Entre atitudes que podem ser tomadas para a promoção desse salto, o professor cita algumas: adoção de um Código de Conduta para Pesquisadores; criação de um Comitê de Ética apenas para pesquisas com pessoas; ocupação de mais cadeiras em comitês éticos nas universidades; e a realização de minicursos temáticos com estudantes de Iniciação Científica, além de mestrandos e doutorandos. “Esses esforços nos tornam pesquisadores mais conscientes de nossas limitações, e acredito que isso nos torna pesquisadores melhores”, conclui.

Mesa redonda SBPJor
Da esquerda à direita: Josenildo Guerra, Ana Carolina Temer, Danilo Rothberg e Rogério Christofoletti

 

Saiba mais: Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação promove evento para abordar importância dos Comitês de Ética em Pesquisa

Fonte: Secom/UFG

Categorias: Humanidades