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Universidade Federal de Goiás
Indígenas capa

Pesquisa investiga origem da LGBTfobia na América do Sul

Em 17/06/24 13:04. Atualizada em 18/06/24 09:11.

Estudo demonstra impacto das categorias de gênero e sexualidade entre povos indígenas por meio das Missões Jesuíticas

 

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"Homem Tupi" e "Mulher Tupi", de Albert Eckhout: pinturas exemplificam representação indígena inventada pela colonização (Imagem: Reprodução)

 

Jayme Leno
Luiz Felipe Fernandes

Um aspecto ainda pouco estudado na história da formação da América do Sul é a origem da LGBTfobia enquanto elemento estrutural de sua cultura. Para preencher essa lacuna, um estudo buscou identificar o impacto da expansão das categorias ocidentais de gênero e sexualidade entre os povos indígenas da América do Sul durante os séculos XVII e XVIII.

O estudo foi publicado recentemente no dossiê "Sexualidade, Gênero e Sociedade" do periódico internacional Humanities & Social Sciences Communications, do grupo Nature. De autoria de Jean Tiago Baptista, atualmente professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em conjunto com Tony Boita, atual gestor do Museu da Diversidade Sexual de São Paulo, a pesquisa foi desenvolvida por meio do projeto "Entre o Arco e o Cesto", enquanto ambos integravam o corpo docente da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A investigação foca na estratégia do projeto colonial em produzir a noção de abjeção sobre corpos que não se encaixavam no sistema normativo de gênero e sexualidade ocidental. "As pesquisas históricas e antropológicas já evidenciaram que havia sido o catolicismo quem forjou a mentalidade fóbica à diversidade sexual e de gênero ainda no período colonial", explica Baptista. "Faltava, contudo, investigar como havia se dado esse processo, bem como qual teria sido o papel das populações indígenas nesta forja".

Para responder a esta problemática, a pesquisa utilizou como fontes históricas um conjunto de 1.212 escritos jesuítas, incluindo manuscritos e livros, bem como vestígios arquitetônicos, esculturas e pinturas pertencentes à Biblioteca Nacional, ao Museu das Missões e ao Sítio Arqueológico São Miguel das Missões, entre outras instituições.

Performances

Baptista explica que conceitos como "masculino", "feminino" e "abjeção" não existiam nas comunidades indígenas de modo isonômico ao Ocidente. "De modo geral, para as culturas sul-ameríndias dos séculos XVI e XVII, não eram os órgãos de um corpo que determinavam suas identidades de gênero e suas orientações sexuais, mas sim suas performances", explica Baptista.

Por exemplo, se uma pessoa performava como caçador ou guerreiro, assim seria tratada na maior parte das vezes, indiferente de seus órgãos físicos. Em virtude dessa concepção em que o corpo performático era determinante, inexistia um sistema punitivo ou discriminatório baseado nas práticas sexuais ou categorizações de gênero.

O principal mecanismo utilizado pelo projeto colonial para implantar a aversão à diversidade sexual e de gênero foi a invenção de novos corpos indígenas. "Foi preciso criar, em primeiro lugar, um conjunto de corpos abjetos, ou seja, aqueles que possuíam performances e práticas desviantes do projeto colonial e que passaram a ser classificados como puníveis", pontua o pesquisador.

É nos esforços para a criação da abjeção indígena que os autores localizam os primeiros passos para a geração de uma cultura baseada na exclusão e autorização de todas as formas de violência contra pessoas sexualmente dissidentes. "Quando vemos a sociedade atual autorizando as mais variadas formas de prejuízos às pessoas LGBTQIA+, como a exclusão de seus patrimônios em museus ou na história nacional, estamos diante de mais uma vitória do projeto colonial", ressalta Boita.

 

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De Bry

Queimados e jogados aos cães: pintura de De Bry mostra a execução de indígenas acusados de "sodomia" pelo exército espanhol (Imagem: Reprodução)

 

Invenções

Ainda conforme o artigo, outras duas invenções foram "o homem indígena" e a "mulher indígena" coloniais. "Delimitar a fluidez dos corpos indígenas às categorias de gênero ocidental era uma condição do projeto colonial a todos que desejassem viver distantes do sistema punitivo que se implantou a partir da criação dos corpos abjetos indígenas", acrescenta Baptista.

A invenção desses dois corpos pode ser percebida nas pinturas "Homem Tupi" e "Mulher Tupi", de Albert Eckhout. Nesse caso, o homem indígena colonial é representado com arco e flecha, associando-o à caça e às aventuras nas matas, ao passo que a mulher indígena colonial é retratada em um cenário doméstico sobrecarregada com cestos e uma criança – entre o arco e o cesto, nada mais deveria existir.

"Dividir o mundo do trabalho a partir das categorias de gênero e sexualidade ocidentais, absolutamente pautadas em órgãos físicos, foi uma importante estratégia de inserção dos povos indígenas no sistema colonial", explica.

Violência

A pesquisa também explora a conexão entre a história dos povos indígenas da América do Sul e a violência de gênero e sexualidade nos tempos atuais. Os pesquisadores chamam a atenção para o fato de que a misoginia e a LGBTfobia na América Latina contemporânea estão em grande parte enraizadas nesses primeiros tempos coloniais.

"A documentação histórica apresenta dados nos quais se pode ver os indígenas se apropriarem das categorias de gênero e sexualidade ocidentais para ingressarem no sistema colonial, mesmo que isso significasse a punição de seus membros por não conformidade com essas normas", ressalta o pesquisador.

Um dos episódios investigados se deu em 1614, quando um indígena que possuía cabelos longos e voz em falsete foi morto após ser amarrado na boca de um canhão – foi um homem indígena quem riscou a pólvora, assim tendo feito para garantir aos colonizadores que era seu aliado, tal qual teria dito a outros homens indígenas após o assassinato.

Em distintos momentos da história colonial é possível identificar a geração de sistema legais altamente punitivos e até mesmo a autorização a qualquer homem em punir um sujeito dissidente, inclusive em praça pública. "Ao serem transformados em 'homens' no sentido de masculino ocidental, determinados sujeitos passaram a acessar um sistema de poder que lhes dava direito de domínio a outros corpos, algo jamais visto naquelas culturas", diz Baptista.

Já com as mulheres indígenas coloniais o sistema de vigilância e punição ganhou outras formas. "Há muitos registros onde padres comemoram o fato de que os homens indígenas passaram a punir fisicamente as mulheres que não lhes correspondiam em obediência e fidelidade, sendo autorizado a qualquer um puni-las no interior do ambiente doméstico ou até mesmo em praça pública".

Segundo o pesquisador, isso representou uma mudança radical para aquelas sociedades onde até então existia uma centralidade no feminino que impedia determinadas violências contra o corpo das mulheres. Em conjunto, esses dados revelam que a LGBTfobia e a misoginia são fenômenos exógenos às culturas indígenas, tendo sido apropriadas de modo a ingressarem no sistema colonial.

 

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Esculturas

Corpos indígenas forjados nas Missões: homens com cabelos longos e pés descalços (à esq.) e mulheres com crucifixos e túnicas (Imagem: Reprodução)

 

Nature

A publicação na revista de um dos grupos editoriais mais prestigiados do campo científico é comemorada pelos autores. "Para nós é como tocar no céu da ciência, sobretudo depois de tantas dificuldades que encontramos como pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIA+ não brancas e provindas da classe popular tentando pesquisar na universidade brasileira dominada por caucasianos burgueses", diz Baptista.

Ele relembra que mesmo sua pesquisa tendo 15 anos, financiamento internacional e estar conectada a importantes universidades do mundo, já enfrentou uma série de tentativas para desarticular sua produção. Apesar das dificuldades, o pesquisador assegura: "O que todo homofóbico, classista e/ou racista brasileiro não sabe é que desistir não está em nossos planos".

Acesse aqui o artigo "Indigenous bodies, gender, and sexuality in the Jesuit Missions of South America (17th–18th centuries)".

Categorias: Estudos Queer Humanidades FCS