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Universidade Federal de Goiás
Goticos

Na terra do sertanejo, góticos celebram identidade e estilo de vida alternativo

Em 08/01/26 14:43. Atualizada em 15/01/26 18:51.

Levantamento mostra quem são as pessoas que se identificam com essa subcultura no Centro-Oeste

 

Goticos
Góticos goianos superam preconceitos e se reúnem em eventos que reúnem música, feiras e desfiles | Foto: Undergoth

 

Piter Salvatore

Na capital brasileira conhecida pela música sertaneja, as vielas pulsam com as batidas de uma cultura underground. Para além dos estereótipos, a subcultura gótica em Goiânia é destaque na região Centro-Oeste do país.

O conceito de gótico surgiu na Europa, sobretudo entre os séculos 18 e 19, como uma vertente estética e literária que explora o mistério, o sobrenatural, o medo e os conflitos psicológicos. Marcado por cenários sombrios, o gótico reflete angústias morais e existenciais da modernidade.

Em Goiânia, o Encontro Gótico, evento realizado pela produtora independente Undergoth, criada em março de 2024, já se consolidou como uma das maiores festas da região. Em sua sexta edição, ocorrida em maio de 2025, o evento bateu seu primeiro recorde, com mais de 600 ingressos vendidos. Os encontros reúnem música, feiras, desfiles temáticos e sorteios de prêmios.

O impacto do movimento é inédito, segundo o professor da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da Universidade Federal de Goiás (UFG) Edgar Franco, o Ciberpajé, que vive em Goiânia há 17 anos.

"É impressionante perceber como o gótico, que tem muitos subestilos, versões, visões e possibilidades de interpretação, tem revigorado, não só no Brasil, como no mundo, e isso é percebido pela força da cena goiana, com o surgimento de novas bandas e com os eventos que têm acontecido incessantemente", considera.

Segundo Jéssica Sales, uma das idealizadoras do Encontro Gótico e integrante da Undergoth, o objetivo do projeto é integrar as pessoas da cena para que elas possam se conhecer e se divertir em conjunto. "Os encontros surgiram do diálogo com amigos que conhecemos em rolês em Brasília. A gente viu que não tinham eventos para a galera gótica aqui em Goiânia, então decidimos fazer os nossos".

As redes sociais contribuem para a disseminação. Vídeos do evento goiano no Instagram e no TikTok foram vistos milhares de vezes. As publicações também geraram repercussão em páginas de memes e notícias na mídia.

 

Góticos
Edgar Franco, o Ciberpajé, professor da FAV/UFG (de chapéu vermelho): góticos são "autores de si mesmos" | Foto: Arquivo Pessoal

 

Preconceito

A estudante de Psicologia, taróloga e frequentadora dos eventos, Helena Xavier, enxerga o crescimento da cena como um lugar de solidariedade, pertencimento e política. "Eu sempre acreditei na subcultura como uma comunidade, um espaço para fazer trocas. Gosto como o gótico aborda a questão da subversão, da não aceitação de padrões sociais".

Segundo ela, o intuito da identidade gótica é incomodar as estruturas tradicionais. No entanto, a estudante não deixa de sentir os efeitos do preconceito sempre que está caracterizada.

"Às vezes, o que magoa nem é o estranho que tá olhando torto, e sim justamente as pessoas que você não julgaria por nada. Esse preconceito que vem de quem você confia. São pessoas que a gente espera uma compreensão, uma curiosidade, mas, na verdade, só tem o pré-julgamento".

Helena ainda ressalta que a discriminação perpassa as entrelinhas do seu cotidiano, como o trabalho, obrigando-a a performar algo que ela não necessariamente é.

"Eu tenho receio dos meus piercings incomodarem, das tatuagens, da cor do meu cabelo, do meu corte de cabelo. Então eu sinto que, quando vou numa entrevista, por exemplo, eu tenho que performar, esconder o máximo. Muita gente pensa que o personagem vem quando estamos caracterizados, mas é muito pelo contrário", relata.

Em paralelo, Ciberpajé aponta que os membros da subcultura gótica são "autores de si mesmos", e que, ao fazerem parte do grupo, podem desenvolver habilidades específicas, como a expressão e a comunicação.

"Há pessoas tímidas que se transformam a partir dessa visualidade, dessa construção corporal. Elas têm uma personalidade aparentemente tímida, mas que, no contexto cultural que frequentam, acabam atraindo atenção por essa condução performática específica que delineiam em seu corpo. Acho que isso é uma das coisas mais incríveis e que mais demarcam o território e a estética da cultura gótica contemporânea", comenta o professor.

Outro aspecto levantado pelo professor é que a subcultura gótica pode ampliar a busca pelas múltiplas formas de expressão artística. De acordo com ele, "inevitavelmente, a pessoa que se insere nessa cultura desenvolve gostos peculiares que a levam a buscar experiências cinematográficas, literárias, nos quadrinhos e na música".

Artistas

Góticos
Banda goiana Amados Mortos | Foto: Divulgação

A cena regional também tem sido berço de projetos artísticos. A banda goianiense Amados Mortos nasceu do movimento. A vocalista Seven Anne argumenta que a cena "pulsa cada vez mais forte", e que "existem muitos espaços que acolhem a música, tanto da subcultura gótica quanto do rock alternativo, até do metal também, como uma resistência cultural de várias tribos".

Segundo a artista, existem vários pubs, festivais e produtoras independentes voltadas para a cena, além de bastante engajamento social nas redes. "Tudo isso cria várias possibilidades de encontros e amizades", completa.

Anne comenta que o som da banda é diretamente inspirado pela literatura gótica e seu universo de signos obscuros. Para ela, ser um grupo musical no estado do sertanejo faz parte da identidade sonora da banda: "É como se a gente erguesse uma bandeira preta no meio do deserto".

Ciberpajé também integra esse movimento com a banda Posthuman Tantra, uma iniciativa experimental que dialoga com um dos subgêneros da música gótica, o Dark Ambient. O projeto tornou-se conhecido pelas performances que, segundo o professor, "têm muitos elementos goticistas", tendo iniciado suas atividades em 2004.

"Nós incluímos, nos sons dos sintetizadores eletrônicos, essa massa sonora, que também provém desses experimentos com instrumentos inusitados, além de, eventualmente, usarmos também os elementos tradicionais do rock, gótico, do heavy metal, que são a guitarra, o contrabaixo e a bateria", descreve.

Quem são os góticos do Centro-Oeste?

O Jornal UFG elaborou um questionário com o objetivo de traçar o perfil do público que faz parte da cena no Centro-Oeste. A pesquisa foi disponibilizada no Instagram e no grupo do WhatsApp da produtora Undergoth, que reunia 374 pessoas quando o questionário foi lançado. A pesquisa obteve 75 respostas.

Mais de 87% dos góticos que responderam à pesquisa são de Goiás, 10,8% vivem no Distrito Federal e 1,4% moram no Mato Grosso do Sul. Dos góticos goianos, 62,3% vivem na capital e 37,7% moram na região metropolitana de Goiânia.

O perfil dos góticos também é majoritariamente de jovens adultos, com 39,2% na faixa etária de 25 a 34 anos. Ainda assim, a proporção de jovens de até 18 anos (16,2%) é a mesma do grupo de góticos entre 35 e 44 anos (16,2%).

A cena gótica é composta majoritariamente por mulheres cisgênero, que representam 48,6% das respostas. Homens cisgênero constituem o segundo maior grupo, com 29,7%. Outras identidades incluem pessoas não binárias (8,1%), pessoas trans (4,5%) e indivíduos que preferiram não declarar sua identidade de gênero (5,4%). Pessoas que se identificam como gênero fluido e agênero representam, cada um, 1,4% dos participantes.

Apesar de enfrentarem a discriminação no mercado de trabalho, a maioria das pessoas góticas no Centro-Oeste (40,5%) está empregada sob o regime CLT. As demais ocupações se distribuem entre estudantes (23%), trabalhadores autônomos (14,9%), artistas (9,5%), servidores públicos (4,1%) e aposentados (1,4%).

O pertencimento à subcultura gótica ao longo do tempo é outro fator refletido entre os góticos do Centro-Oeste. A maioria demonstra um engajamento duradouro: 24,3% dos entrevistados estão na subcultura entre 6 e 10 anos. A segunda maior parcela, 28,4%, está há um período menor, de 1 a 5 anos, e 12,2% têm menos de um ano de pertencimento. O envolvimento de longa data também é notável, com 17,6% dos indivíduos góticos manifestando um comprometimento de 11 a 20 anos, e um percentual igual (17,6%) dedicado à cena há mais de 20 anos.

De acordo com a maioria dos respondentes, o primeiro contato com a subcultura ocorreu com a música, seja por meio de bandas, rádios ou plataformas on-line, como o Spotify, representando 64,9% das respostas. O levantamento também mostra a influência de filmes e séries de TV (44,6%), literatura (33,8%), contato com amigos ou familiares (24,3%), internet (fóruns, redes sociais antigas) (21,6%) e redes sociais atuais (Instagram, TikTok, YouTube, entre outras) (18,9%).

Outro fator destacado foi o preconceito explícito: 33,8% afirmaram ter sofrido preconceito várias vezes e 25,7% relataram ter sofrido algumas vezes. Além disso, 17,6% disseram ter sofrido preconceito raramente, enquanto 23% indicaram nunca ter passado pela experiência (veja gráfico abaixo).

 

 

As respostas também indicam os elementos mais apreciados pelos membros da subcultura. A música lidera o ranking, totalizando 33,8%, seguida pelo senso de comunidade, identidade e pertencimento (21,6%) e, em terceiro lugar, a produção artística, composta por cinema, literatura e outras artes, que representa 20,3% dos participantes da pesquisa. Somam-se a essa estatística a filosofia (14,9%) e os visuais (9,5%) (veja gráfico abaixo).

Movimentando também um mercado de consumo, 35,1% dos góticos do Centro-Oeste gastam entre R$ 51 e R$ 150 com itens relacionados à cena, como roupas, acessórios, ingressos para eventos, música, entre outros. No entanto, 18,9% assumiram que não costumam gastar com esses itens.

Tendo em vista a variedade de eventos nas capitais e em outras cidades, como Catalão e Anápolis, 35,6% dos góticos disseram frequentar festas, shows e encontros algumas vezes no ano; 96% vão toda semana e 21,9% não vão ou raramente frequentam os eventos.

 

 

Uma palavra maltratada

O pesquisador Daniel Serravalle de Sá, organizador do livro O Gótico em Literatura, Artes, Mídia, conta que, inicialmente, a palavra gótico era apenas um adjetivo relacionado aos Godos, uma tribo de cultura germânica que ajudou a derrubar o Império Romano.

"Hoje o gótico já se estabeleceu como substantivo e, na língua inglesa, por vezes é até usado como verbo — to gothicize — para descrever uma guinada lúgubre sobre determinados assuntos", explica.

Já para teóricos da literatura sombria, como Fred Botting, o gótico é um modo discursivo que discute o medo e o mal na humanidade em cada época, apresentando o mundo por meio de uma "estética negativa".

O estudioso da subcultura gótica no Brasil, Henrique Kipper, autor dos títulos A Happy House in a Black Planet, explica que o prefixo "sub" é um indicativo de que a cultura gótica é uma divisão da cultura global, e que a subcultura é formada por uma visão de mundo e estética derivadas da herança artística que os outros pensadores defendem.

O pesquisador ainda argumenta que as pessoas se aproximam da identidade gótica por identificação, e que a "pergunta de ouro" para se fazer seria não por que esta ou aquela pessoa se tornam góticas, mas por qual motivo continuam sendo.

"Eu brinco que a identidade cultural não é nem espiritual nem biológica. Não é nem algo que vem da sua encarnação anterior, nem está nos seus genes. Inclusive, essa história de que a cultura é genética é um papo muito do fascismo. Tem a ver com a sua história pessoal e com escolhas. Você encontra uma narrativa e uma subcultura é uma narrativa social, coletiva. E, de repente, você percebe, 'nossa, essa narrativa me representa, né?'", discorre.

Assim como Kipper, Ciberpajé defende que a subcultura gótica é algo globalizado. "Acredito que essa cultura, em determinada medida, espalhou-se pelo globo porque encontra nas pessoas essa identificação, independentemente de onde elas estejam", arremata.

 

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Fonte: Secom UFG

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