Estudo aponta associação entre Telegram, Jornal Nacional e violência política no Brasil
Pesquisa da UFG revela que hábitos de consumo de mídia estão relacionados ao crescimento de comportamentos políticos extremistas no país
Da Redação
Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) identificou associação estatisticamente significativa entre o consumo de conteúdo político no Telegram (aplicativo de mensagens instantâneas) e maior predisposição ao apoio à violência política no Brasil. O Jornal Nacional também apresentou efeito relevante em um dos modelos estatísticos aplicados.
A dissertação, intitulada Comunicação e radicalismo partidário no Brasil: hábitos de consumo de mídia, bolhas informacionais e comportamento político extremista, foi desenvolvida pela jornalista Aline Santos, sob orientação do professor Magno Medeiros (FIC) e coorientação do professor Pedro Mundim (FCS). A pesquisa utilizou dados da survey nacional Polarização Política – UnB, realizada presencialmente em junho de 2024 com 2.506 entrevistados.
Para examinar a relação entre mídia e comportamentos extremistas, o estudo concentrou-se em uma subamostra de 1.221 respondentes que opinaram sobre violência política. A análise foi conduzida por meio de modelos estatísticos — regressão linear (OLS) e regressão logística (Logit) — que permitem verificar se há associação entre o uso de determinados meios de comunicação e o apoio à violência, além de estimar a intensidade dessa relação.
Telegram
O Telegram foi a única plataforma digital que apresentou significância estatística consistente nos dois modelos. O resultado sugere que dinâmicas como bolhas informacionais, câmaras de eco e exposição seletiva, intensificadas por sistemas de recomendação algorítmica e circulação rápida de conteúdos, podem contribuir para o fortalecimento de posições mais radicalizadas.
Segundo Aline, o ambiente da plataforma favorece a formação de comunidades ideologicamente homogêneas, com menor exposição a perspectivas divergentes, o que pode ampliar percepções de conflito e legitimar discursos mais extremos.
Polarização e contexto democrático
A relevância da pesquisa se amplia diante do cenário brasileiro recente, marcado por episódios de violência política, como os ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes, em Brasília, além do aumento de ameaças, agressões e tensões motivadas por disputas partidárias.
O estudo estabelece uma distinção conceitual importante entre polarização política e radicalismo partidário, aprofundando a compreensão desses fenômenos no contexto brasileiro. A polarização é compreendida como o acirramento da divisão ideológica entre campos políticos opostos. Já o radicalismo partidário envolve um passo além: a adoção, normalização ou legitimação de condutas extremistas, incluindo a aceitação do uso da violência como instrumento de disputa política.
Embora fatores econômicos e crises institucionais também influenciem esse contexto, os dados indicam que os padrões de consumo informacional são um componente relevante para compreender o avanço de comportamentos políticos extremistas no país.
Efeito da mídia tradicional
Além do Telegram, o Jornal Nacional, principal telejornal da TV Globo, apresentou efeito estatisticamente significativo no modelo de regressão logística. O resultado pode estar relacionado a fenômenos como o "consumo hostil", que ocorre quando o público interpreta conteúdos sob forte viés partidário, e à "saliência de conflito", caracterizada pela centralidade das disputas políticas na percepção dos espectadores.
Diferentemente dos Estados Unidos, onde há ampla produção acadêmica sobre mídia e radicalização política, o Brasil, segundo a pesquisadora, ainda possui escassez de estudos empíricos que correlacionem hábitos de consumo de mídia e radicalismo partidário com base em dados estatísticos.
Para a autora, compreender essas dinâmicas é essencial para qualificar o debate público, fortalecer políticas de enfrentamento à desinformação e contribuir para a proteção da democracia brasileira.
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Fonte: FIC
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