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Universidade Federal de Goiás
Ditadura

Pesquisa desenvolve livro-jogo sobre a ditadura

Em 04/03/26 11:38. Atualizada em 04/03/26 11:42.

Pesquisador criou um formato artístico e lúdico para preservar a memória histórica do regime militar no Brasil

Arthur Gabriel

Para refletir sobre o papel social da arte na concepção crítica e sensível da realidade, o designer gráfico Antônio Dellatore desenvolveu o livro-jogo intitulado Entre cartas e cinzas da ditadura: narrativas, interesses de classe e gamearte a favor da memória. A pesquisa foi realizada no mestrado em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (UFG), sob orientação do professor Flávio Gomes de Oliveira.

Antônio explica que o livro-jogo contém três personagens: "Quando o jogador se depara a fazer a leitura do material, ele encontra o eu-pesquisador, que se refere a mim mesmo como autor expositivo dos fatos históricos, o eu-sensível, que partilha vozes e experiências dolorosas da ditadura, e por fim o eu-lírico, que conta uma história fantasiosa de alguém que está em Goiânia presenciando algumas das violências do período da ditadura".

Ele explica que o eu-lírico é responsável por construir os enigmas e pistas do livro-jogo. "O eu-lírico aparece escrito à mão, por cima da impressão do material. É como se ele tivesse descoberto aquele dossiê da ditadura e assim ele começa a escrever a própria história".

Pesquisa ditadura
Materialidade: dissertação, em formato de arquivo, foi entregue em um saco de lixo com outros elementos narrativos do jogo | Foto: Arquivo Pessoal

O eu-lírico dispersa seis pistas dentro do jogo, algumas escondidas por manchas gráficas e outras codificadas. O jogador deve encontrar a ordem certa para ler essas pistas. Em seguida, deve-se resolver um pequeno enigma. Depois da resolução, o jogador recebe uma matriz com letras embaralhadas que compõem uma frase. Essa frase final conduz o jogador a uma chave, desencadeando a conclusão da narrativa.

Antônio explica que utiliza registros históricos, principalmente do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) como elementos narrativos do jogo. A pesquisa também envolveu outras materialidades. "Quando defendi minha dissertação, entreguei o jogo envolto num saco de lixo todo empoeirado. Isso para mostrar o descaso que esses documentos sofrem até os dias de hoje. Há um desinteresse em olhar para algumas máculas da história brasileira. Assim, tento estabelecer uma coesão desse sentimento de invisibilização que atravessou o período da ditadura e encontra-se no presente", conta.

Referências

A ideia da dissertação-jogo, segundo Antônio, surgiu de uma mescla de referências no processo de mestrado. Traduzir um evento histórico complexo em um jogo interativo é uma tarefa que demanda sensibilidade. O principal desafio foi a distância temporal. "Tenho 26 anos, o golpe ocorreu há 60 anos. Sei que na lógica dos jogos, por vezes, a violência acaba se tornando um canal em que as coisas percorrem. Tentei encontrar um jeito sensível de tratar sobre a ditadura e principalmente sobre as vítimas". Isso foi feito de uma forma que o próprio eu lírico da narrativa também compartilhasse a dor e a indignação desse período.

O pesquisador diz ter se inspirado na obra O Porão, de Vítor Soares e Giovanni Arceno, que consiste em um livro-jogo ambientado no período da ditadura militar. A história cita personagens e situações reais vividas pela luta armada de resistência ao regime. Antônio também relata que sua dissertação tem uma natureza de dossiê, que procura compor uma coleção organizada dos anos ditatoriais entre as décadas de 1960 à 1970 por meio de uma percepção estética.

Game-arte: convite à reflexão

A pesquisa abraça o conceito de "game-arte", uma linguagem artística que envolve elementos de interação, o que facilita o contato e a imersão do leitor-espectador com a narrativa experienciada. Refere-se ao conjunto de elementos estéticos e visuais que irão compor um produto artístico e criativo que é baseado na multilateralidade, ou seja, uma obra de arte que é capaz de promover uma experiência completa e significativa.

Antônio acredita que esse formato artístico e performático acaba tomando características que são comumente associadas a jogos de entretenimento. Mas ele afirma que a game-arte ultrapassa essa lógica ao criar uma provocação.

"A ideia de inserir o conceito de game-arte é capaz de oferecer a percepção de uma dinâmica comunicacional mais acessível para as pessoas. Isso faz com que o livro-jogo em si seja um convite atrativo para imergir na narrativa, com reflexão, e de forma provocativa".

O pesquisador cita o trabalho da Suzete Venturelli, uma das principais referências em game-arte no Brasil. Ela trata de assuntos como ecologia, sexualidade, papéis de gênero e experiências sensoriais através dessa perspectiva. Antônio acredita que, em sua dissertação, a game-arte tomou um papel de colocar o jogador num papel ativo que escava as memórias da ditadura.

"Mas isso também depende da vontade do jogador, por mais que a game-arte estabeleça essa provocação. O jogo pode ser completamente ignorado, o processo narrativo pode não ser completamente concluído. Acho que é nisso que se encontra um pouco da beleza da memória: às vezes escolhemos quais memórias iremos ou não trazer à tona", afirma.

 

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Ditadura
Regime militar instaurado em 1964 no Brasil durou até 1985 | Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã

 

Importância atual do livro-jogo

Antônio compartilha seus sentimentos acerca da escrita do jogo no contexto atual do país: "Olhar para o Brasil do passado e perceber que a gente permitiu que os golpistas não fossem devidamente punidos e ter a conclusão dessa dissertação semanas depois de um militar ser condenado por crimes contra a democracia foi quase distópico pra mim. Não tinha esperança de que o interesse desses militares em desestabilizar a democracia fosse combatido. A materialização desse jogo é mais uma prova de que podemos fazer diferente. A arte é uma forma de provocar e instigar esse debate", discorre.

Ele acredita que o livro-jogo pode funcionar como uma ferramenta capaz de elucidar e educar as pessoas a partir de um formato diferente. "Eu acredito muito no poder emancipador dos jogos. Eles podem ser um canal de educação não formal. Isso num processo muito forte de trazer conteúdos para as pessoas em geral de uma maneira muito mais imersiva".

 

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Fonte: Secom UFG

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