Pesquisador percorre mil quilômetros de bicicleta para estudar trilhas no Cerrado
Geógrafo atravessou, durante 15 dias, o Caminho dos Goyazes em busca de alternativas para conservação do bioma
Arthur Gabriel
Durante 15 dias, as estradas de terra e trilhas que cortam o coração de Goiás serviram de laboratório para o geógrafo Diego Pinto de Mendonça. Doutorando em Geografia na Universidade Federal de Goiás (UFG), ele percorreu 1.060 quilômetros de bicicleta, atravessando o Caminho dos Goyazes. O objetivo era investigar como as Trilhas de Longo Curso (TLC) podem contribuir para a conservação do Cerrado e a permanência de seus povos tradicionais.
Sob orientação do professor Ronan Eustáquio Borges, a pesquisa buscou entender as implicações territoriais dessas rotas. O trajeto conecta quatro grandes trilhas: o Caminho dos Veadeiros, a Rota do Rio Areias, os Caminhos do Planalto Central e o Caminho de Cora Coralina. A expedição foi realizada de 8 a 22 de dezembro de 2025.
Diego relata que a logística da viagem precisou ser muito bem planejada. Na lista estavam itens de camping, alimentação, água, manutenção da bicicleta, equipamentos eletrônicos, além dos itens utilizados para o trabalho de campo, como GPS, drone e caderno de anotações.
Segundo ele, a companhia de amigos durante o percurso foi crucial, uma vez que separaram uma quantidade de comida para levar em determinado trecho, considerando que não encontrariam restaurante ou lanchonete. Os companheiros foram Teruo Rosa Kuramoto durante todo o percurso, Rodrigo Vilela de Castro no Caminho dos Veadeiros e Murilo Mendonça Oliveira de Souza de Alto Paraíso a Pirenópolis.
Diego conta que é cicloviajante há muito tempo. Durante o mestrado, ele pesquisou o Caminho de Cora Coralina e realizou quatro cicloviagens pela trilha. Sua maior cicloviagem foi o Projeto Pedalar é Preciso, que resultou no documentário 456 dias – Uma viagem de bicicleta pelo Brasil.
O pesquisador conta que encontrou maior dificuldade na trilha Caminho de Cora Coralina. "É um trecho muito técnico para bicicleta, tem muita serra, muito single track [locais onde passa somente uma bicicleta por vez, os famosos trieiros de vaca], o terreno também exige muito do ciclista, com muitos trechos de cascalho".
Diego também menciona ter encontrado dificuldade durante uma subida na Rota do Rio Areias, saindo do povoado Baixa do Rio Verde. "É uma subida muito íngreme e longa, para mim foi a subida mais forte de todo o trajeto".
Velocidade da percepção
Para Diego, a bicicleta oferece a "velocidade da percepção". Diferente do carro, que isola o viajante da realidade local, ou da caminhada, que limita o alcance geográfico, a bike permite cobrir grandes distâncias mantendo a permeabilidade social.
"O carro passa rápido demais, ignorando paisagens e pessoas. A bicicleta tem o ritmo ideal. Ela desperta curiosidade e um encantamento nas comunidades, o que facilita o contato e as entrevistas necessárias para a pesquisa".
Outra questão que Diego pontua é a boa aceitação que o viajante de bicicleta tem ao passar pelos lugares. A curiosidade das pessoas é despertada e a recepção costuma ser positiva. Essa aceitação pela figura dos cicloviajantes favorece o contato com as pessoas, possibilitando conversas em diferentes lugares.
O pesquisador relata que, durante o percurso, a interação com moradores locais marcou a sua percepção sobre a utilidade da trilha. Ele conta que no povoado da Capela, distrito de Cavalcante, foi recebido por Adriana, que é uma moradora que recebe caminhantes e ciclistas em sua casa.
"Ela tem um espaço para camping na frente de sua casa, mas como estava chovendo muito, ela deixou montarmos as barracas na sua varanda". Diego afirma que a trilha gera renda para a comunidade, além de toda a interação que possibilita encontros e trocas humanas ricas.
O papel das trilhas
Diego afirma que o papel do Caminho dos Goyazes é ser um instrumento de conservação da biodiversidade e conectividade de paisagens. A princípio, percebe-se que a trilha possibilita a integração institucional, colocando em contato gestores, voluntários, entusiastas, pesquisadores e diferentes instituições, favorecendo o intercâmbio de informações e experiências entre as unidades de conservação.
Futuramente, segundo ele, é possível visualizar a criação de corredores ecológicos a partir da ligação entre as trilhas, fomentando parcerias e ações acerca da conectividade de paisagens entre as unidades de conservação.
Na perspectiva das unidades de conservação, ele conta que há locais com diferentes níveis de degradação. "A agropecuária intensiva é bastante presente por todo o caminho, vemos também o impacto da mineração em alguns pontos, a urbanização também preocupa em alguns lugares, assim como os empreendimentos turísticos, especialmente na Chapada dos Veadeiros e em Pirenópolis".
O professor aponta que a trilha surge como uma alternativa que, se planejada e pensada em conjunto com as pessoas que estão ao longo do caminho, pode contribuir para minimizar alguns desses impactos. Mas se não for bem planejada, pode se tornar mais um problema que se somará aos outros.
Outro ponto positivo das trilhas é a dispersão do fluxo de turistas de um só local. Lugares pouco explorados começam a ser conhecidos e contribuem para que o fluxo turístico não fique concentrado em locais bastante conhecidos.
"As pessoas que percorrem o caminho precisam, principalmente, de alimentação e hospedagem, utilizando também serviços como transporte, guias de turismo e diversos outros serviços relacionados ao turismo. Isso faz com que exista a possibilidade de geração de renda em outros locais menos conhecidos", afirma Diego.
Potencial Internacional
Para Diego, o Caminho dos Goyazes tem fôlego para se tornar uma referência mundial, equiparando-se ao Appalachian Trail (EUA) ou ao Caminho de Santiago (Espanha). Isso porque a trilha engloba locais de grande importância natural e cultural, incluindo dois Patrimônios Culturais da Humanidade (Cidade de Goiás e Brasília) e um Patrimônio Natural da Humanidade (Chapada dos Veadeiros).
"As pessoas, as paisagens, a hospitalidade e a gastronomia goiana também são fatores que contribuem para que o potencial do Caminho dos Goyazes seja imenso. São muitos motivos que tornam esse caminho incrível", finaliza.
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Fonte: Secom UFG
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