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Universidade Federal de Goiás
Capa Cristiane Lemos

Na roda viva da superexploração

Em 20/05/26 15:12. Atualizada em 20/05/26 15:13.

"Pedagogia neoliberal" estigmatiza a proteção trabalhista, adoece as pessoas e leva à perda de horizonte

Cristiane Lemos

Os versos de Chico Buarque – "a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega o destino para lá" – da música "Roda Viva", feita no período da ditadura militar brasileira, continuam a nos provocar. Os versos traduzem o desejo de autonomia. No entanto, a "roda viva" que arrasta o destino sugere perda de controle sobre nossas próprias vidas. Assim, neste 1º de Maio, permanecem questões centrais para reflexão: a "classe-que-vive do trabalho" ainda consegue resistir? Ainda podemos decidir nossos próprios caminhos e ter voz ativa? A ideia da "roda viva", criada em um contexto de repressão, continua sendo uma metáfora potente para pensar as contradições entre autonomia e limites na vida de quem trabalha, bem como os desafios atuais da resistência.

Diante do avanço da superexploração do trabalho e da perda de direitos históricos conquistados, parece haver por parte de muitos a sensação de impotência diante da resistência. As relações laborais tornam-se cada vez mais instáveis, marcadas pela terceirização, pela pejotização e pela precarização. Ao mesmo tempo, os sindicatos parecem mais enfraquecidos, enquanto o individualismo do "empreendedor de si mesmo" reforça a impressão de que "está tudo dominado" pelos interesses do lucro.

O processo de precarização também atinge camadas tradicionalmente associadas ao prestígio social. Um exemplo é a medicina, historicamente vista como carreira de ascensão e estabilidade. Dados da Demografia Médica no Brasil mostram a intensificação das jornadas: em 2019, cerca de 45,9% das(os) profissionais entrevistadas(os) afirmaram trabalhar mais de 60 horas por semana, contra 32,4% em 2014. Entre aquelas(es) com jornadas superiores a 80 horas semanais, o percentual subiu de 16,9% para 28,9% no mesmo período.

Os dados mais recentes aprofundam este quadro. Em 2025, entre cirurgiãs(ões), 67% possuíam quatro ou mais locais de trabalho, 74% atuavam como pessoa jurídica e 63% recebiam por produção. Paralelamente, o emprego formal entre médicas(os) caiu de 54% em 2012 para 33,3% em 2023, além da expressiva redução dos vínculos estatutários.

Esse movimento não se restringe à medicina. Dados da PNAD Contínua 2024 do IBGE, divulgados em 2025, indicam que trabalhadores de plataformas digitais também enfrentam jornadas superiores à média nacional, com cerca de 44,8 horas semanais, podendo ultrapassar 46 horas no caso de entregadores. Já pesquisas qualitativas coordenadas pelo sociólogo Ricardo Antunes registram relatos de motoristas e entregadores submetidos a jornadas que podem alcançar 70 ou até 80 horas semanais, revelando formas extremas de intensificação do trabalho. Apesar da maior carga horária, esses trabalhadores tendem a receber menos por hora, especialmente porque parte do tempo dedicado ao trabalho, como espera e deslocamento, não é remunerada.

CLT vira meme nas redes sociais

Fica evidente que as relações de trabalho vêm se transformando. O enfraquecimento dos vínculos formais e as perdas de direitos historicamente conquistados passaram a ser naturalizados e, em muitos casos, até celebrados, revelando uma mudança cultural no mundo do trabalho. A Consolidação das Leis do Trabalho tornou-se alvo de ironias e memes nas redes sociais. Expressões como "xô, CLT" e "se der tudo errado, viro CLT" viralizaram, associando o emprego formal ao sinônimo de fracasso ou à falta de ambição.

O problema se agrava quando esses estigmas chegam às crianças e adolescentes. Em caso noticiado em São Luís, um menino de nove anos foi vítima de racismo em uma escola particular, chamado de "CLT" e alvo de uma "carteira de trabalho" utilizada ofensivamente, evidenciando como preconceitos sociais e raciais se reproduzem no ambiente escolar.

Em matéria publicada pelo portal UOL, o sociólogo Ruy Braga analisa como termos, antes associados à estabilidade e conquista, passaram a ser tratados de forma pejorativa, expressando uma mudança profunda na cultura do trabalho atual. Em lugar da valorização dos direitos trabalhistas, consolida-se uma visão que exalta a instabilidade, o risco permanente e o empreendedorismo individualizado, enquanto trabalhadoras(es) com proteção legal passam a ser estigmatizadas como acomodadas ou ultrapassadas.

O setor público também não permanece imune a esse processo. Caso emblemático é o da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), responsável pela gestão de hospitais universitários federais, que substituiu o regime estatutário tradicional por contratações sob o regime celetista (CLT). O aspecto mais revelador é que muitos militantes e trabalhadoras(es) passaram a defender a CLT no setor público como alternativa menos precária diante de formas ainda mais frágeis de contratação.

Esse fenômeno está diretamente relacionado à reestruturação produtiva do trabalho iniciada a partir da década de 1970 e fortemente influenciada pelo toyotismo. Diante das crises do capitalismo e do avanço das lutas sociais, o capital respondeu com novas formas de organização produtiva baseadas em flexibilidade, intensificação do trabalho e enfraquecimento de direitos. Desde então, ganharam força a terceirização, o desemprego estrutural e a ampliação da subordinação dos trabalhadores.

Como destaca Ricardo Antunes, consolida-se um padrão que já não se consegue "acumular sem destruir". A dinâmica contemporânea apoia-se em um trípode destrutivo: financeirização, neoliberalismo e reestruturação produtiva. Com a chamada Indústria 4.0 baseada na automação, digitalização e inteligência artificial, intensifica-se a substituição do trabalho vivo por algoritmos e máquinas, elevando a produtividade ao mesmo tempo em que reduz postos tradicionais de trabalho. Essas transformações também produziram uma nova linguagem do trabalho. Termos como "empreendedorismo", "colaborador", "liderança", "metas", "resiliência" e "inovação" difundem a ideia de autonomia, enquanto muitas vezes ocultam relações de exploração e insegurança laboral.

No Brasil, políticas de austeridade alinhadas ao receituário neoliberal vêm se ampliando desde a década de 1990, com sucessivas medidas de flexibilização e retirada de direitos da classe trabalhadora. Entre seus marcos recentes estão a Reforma Trabalhista de 2017, aprovada no governo Michel Temer, que após o golpe parlamentar priorizou reformas exigidas por setores empresariais, e a reforma da Previdência de 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, que endureceu regras de acesso à aposentadoria e reduziu a proteção social.

Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal vem fortalecendo entendimentos favoráveis à pejotização. Ao validar contratos civis mesmo em situações típicas de vínculo empregatício, amplia-se o espaço para formas de contratação sem direitos, com maior informalização e transferência de riscos para a classe trabalhadora. Para amplos setores do Direito do Trabalho, trata-se de um dos mais duros golpes recentes no sistema de proteção laboral construído ao longo do século XX.

A pejotização e a terceirização também avançam em espaços públicos. Exemplo disso são editais do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) que exigem contratação via pessoa jurídica. No sistema público de saúde, destaca-se ainda a expansão das Organizações Sociais de Saúde. Segundo o Censo das Organizações Sociais de Saúde Brasileiras (2021), realizado pela Fundação Getúlio Vargas e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), havia 1.015 estabelecimentos públicos de saúde geridos por OSSs no país, sendo 69% concentrados em apenas 20 entidades privadas.

Esse movimento, contudo, não se restringe à saúde. Na educação, multiplicam-se creches e serviços conveniados com entidades privadas; na cultura, museus, bibliotecas e centros culturais públicos são frequentemente administrados por OSs; nas universidades e repartições públicas, atividades permanentes como limpeza, vigilância, manutenção e atendimento vêm sendo amplamente terceirizadas. Em diferentes áreas, observa-se a substituição de vínculos públicos estáveis por formas flexibilizadas de contratação, revelando que a precarização do trabalho também avança no interior do próprio Estado.

É verdade que o Brasil registrou, nos últimos anos, importante redução da taxa de desemprego. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a desocupação ficou em 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro de 2026. Embora tenha havido alta em relação ao trimestre imediatamente anterior, trata-se do menor índice para esse período do ano desde o início da série histórica da PNAD Contínua.

Contudo, esse avanço convive com contradições profundas. A informalidade no mercado de trabalho permanece em patamar elevado, alcançando 37,5%, o equivalente a cerca de 38,3 milhões de trabalhadoras(es) em ocupações sem carteira assinada, sem CNPJ regularizado ou em outras formas de inserção precária. Em outras palavras, trabalhar voltou a ser mais possível para muitos, mas nem sempre em condições dignas e protegidas.

Gênero, raça e sexualidade

As desigualdades do mundo do trabalho também se expressam de forma marcada por gênero, raça e sexualidade. Dados do IBGE mostram que, em 2022, as mulheres seguiam participando menos do mercado de trabalho e recebendo rendimentos inferiores aos dos homens. No mesmo período, a informalidade atingia 45,4% entre mulheres pretas ou pardas, contra 30,7% entre homens brancos. Além disso, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que pessoas LGBTQIA+, especialmente travestis e pessoas trans, estão mais expostas à informalidade, à discriminação e à vulnerabilidade ocupacional.

Estudos produzidos pelo Ipea, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo próprio IBGE indicam que, embora a informalidade tenha historicamente sido compreendida como problema social a ser superado, parte das(os) trabalhadoras(es) passou a valorizar elementos como autonomia, flexibilidade de horários e menor subordinação direta. Entretanto, essa aparente adesão deve ser interpretada com cautela. Em muitos casos, ela ocorre sob condições estruturais restritivas, marcadas pela escassez de empregos formais, baixos salários e precarização crescente. Como lembrava Carolina Maria de Jesus, "quem inventou a fome são os que comem", frase que segue atual em um país onde milhões trabalham muito e ainda vivem sob insegurança material.

Nesse sentido, observa-se uma pedagogia neoliberal que atua na desconstrução da antiga utopia da sociedade salarial brasileira. A expectativa de conquistar emprego protegido, salário digno, estabilidade ao longo da vida laboral e aposentadoria segura deixa de compor o horizonte de amplos segmentos da juventude trabalhadora. Quando esse futuro deixa de parecer alcançável, tende também a perder seu valor simbólico, podendo inclusive converter-se em objeto de descrença ou rejeição. Ricardo Antunes explica que o imenso desemprego combinado com uma crise profunda da economia e com o avanço intenso das tecnologias de informação e comunicação resulta em trabalhadoras(es) que passam a sonhar com qualquer trabalho.

Adoecimento físico e psíquico

Como sintetiza a canção de Chico, "tem dias que a gente se sente como quem partiu, quem morreu". A referência expressa a experiência subjetiva de perda, desalento e esvaziamento que atravessa a vida de muitos trabalhadores no presente. Essa deterioração das expectativas também se manifesta materialmente nas condições de saúde da "classe que vive do trabalho", termo usado por Ricardo Antunes.

Segundo o Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEAT 2023), o Brasil registrou 603.825 acidentes de trabalho em 2023. Além disso, entre 2013 e 2023, foram contabilizados 1.569.684 afastamentos superiores a 15 dias decorrentes de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, números que tendem a ser subestimados diante da elevada informalidade e da dificuldade de registro entre trabalhadores sem vínculo formal.

No caso do trabalho por plataformas digitais, evidências recentes apontam para a exposição cotidiana a acidentes, violência e insegurança, somados à ausência de proteção social e à intensificação das jornadas. Esse cenário revela que a superexploração do trabalho não se expressa apenas em termos econômicos, mas também na ampliação do adoecimento físico e psíquico, evidenciando os limites sociais e humanos das atuais formas de organização laboral.

Nesse cenário, a noção de policrise, mobilizada por Áquilas Mendes, ajuda a compreender que o capitalismo contemporâneo já não produz apenas crises isoladas e passageiras. Crises econômica, sanitária, ambiental e social passaram a se combinar e agravar umas às outras. Nessa perspectiva, a violência também é econômica, social e política: manifesta-se na fome, no desemprego, no adoecimento, na perda de direitos e no avanço de tendências autoritárias e violentas, atravessando o cotidiano da população trabalhadora.

Neste contexto de superexploração de trabalho, da sedução ideológica de ser "empresário de si mesmo" e dos retrocessos de direitos trabalhistas, aquilo que deveria ser fonte de realização converte-se em desrealização do ser social, alienação e estranhamento. Como formulou Karl Marx, sob as condições de exploração do capitalismo o/a trabalhador/a tende a não se reconhecer no próprio trabalho, tornando-se estranho a si mesmo, ao que produz, aos outros e ao gênero humano.

Jornada 6x1

Mas esta roda viva não gira só em torno do seu eixo: ela é atravessada por contradições. Apesar do processo da determinação social a que estamos submetidas(os) no capitalismo, a nossa história está repleta de movimentos de resistência, inclusive em contextos que pareciam impossíveis. No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos na atualidade é a luta contra a jornada 6x1.

O projeto que prevê o fim da escala 6x1 – em que se trabalha seis dias e se descansa apenas um – surgiu a partir da indignação de um jovem trabalhador do Rio de Janeiro diante da dificuldade de viver dignamente sob esse modelo. A proposta ganhou força ao ser encampada pela deputada Erika Hilton e transformada na PEC 8/2025. Atualmente, o tema avançou na Câmara dos Deputados: a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a admissibilidade da proposta, que agora seguirá para comissão especial e, posteriormente, para votação em plenário.

A exaustão provocada por este regime produziu uma novidade relevante em um país marcado por forte polarização política. Segundo o Datafolha, 71% das(os) brasileiras(os) defendem o fim da escala 6×1, enquanto apenas 27% são contra a mudança. Apesar de todo o processo de sedução da lógica empreendedora, sustentada por uma permanente pedagogia neoliberal, há um reconhecimento coletivo crescente de que a vida não faz sentido se for apenas nascer, trabalhar e morrer. Afinal, não somos mercadoria; somos gente que pulsa, sente e sonha. Como lembravam os Titãs: "A gente não quer só dinheiro/A gente quer dinheiro e felicidade/A gente não quer só dinheiro/A gente quer inteiro e não pela metade…"

Regimes exaustivos como a escala 6×1 tendem a impactar as mulheres de forma ainda mais severa. Para muitas trabalhadoras, o único dia de descanso não representa tempo livre, mas a continuidade do trabalho doméstico acumulado ao longo da semana. Além do trabalho remunerado, recaem sobre elas as tarefas de cuidado com crianças, idosos, alimentação e manutenção da vida cotidiana, atividades essenciais ao funcionamento da sociedade, mas historicamente invisibilizadas e pouco reconhecidas. Assim, a luta pela redução da jornada e pelo direito ao descanso também é uma pauta profundamente ligada à igualdade de gênero, ao reconhecimento do trabalho de cuidado e à possibilidade concreta de viver para além do trabalho.

A ideia de reduzir jornadas está longe de ser inviável. Em diferentes países, experiências recentes demonstram que menos tempo de trabalho pode significar mais qualidade de vida, preservação da saúde e até ganhos de produtividade. Na Islândia, testes realizados entre 2015 e 2019 com milhares de trabalhadoras(es) do setor público foram considerados bem-sucedidos, com manutenção ou melhoria da produtividade e aumento do bem-estar. No Reino Unido, projetos-piloto da semana de quatro dias registraram redução do estresse, menor rotatividade e melhora no equilíbrio entre vida e trabalho. Já na França, a jornada legal de 35 horas semanais tornou-se referência internacional ao demonstrar que limites ao tempo de trabalho podem coexistir com economias complexas e altamente produtivas.

É claro que, numa sociedade dividida em classes, os interesses são antagônicos e, por isso, as relações sociais tendem ao conflito. Parte do empresariado tem se posicionado contra o fim da escala 6×1, alegando aumento de custos, queda de produtividade e perda de competitividade. Essas posições revelam a prioridade dada por parte de setores dominantes à lógica da competitividade e da produtividade no debate sobre o tempo de trabalho. Mas isso não é novidade: desde a luta pelo fim da escravidão, houve setores que se opuseram à abolição sob o argumento de que a economia quebraria.

Importante lembrar que, desde a Revolução Industrial, a luta da classe trabalhadora por menor jornada e melhores salários esteve diretamente ligada à melhoria das condições de vida. No início do século XIX, a expectativa de vida mundial girava em torno de 30 anos. No Reino Unido, em meados daquele século, era de cerca de 40 anos e superou 81 anos em 2023, segundo dados compilados pela plataforma Our World in Data. Embora se reconheça que os avanços biomédicos tenham contribuído para esse processo, a elevação da longevidade esteve fundamentalmente associada às lutas sociais que ampliaram direitos, reduziram jornadas e melhoraram as condições materiais de existência.

A roda viva que não para mostra que, mesmo nestas condições aparentemente impossíveis formas de resistência continuam brotando. No Brasil, mobilizações como o "breque dos apps" organizadas por entregadores de plataformas como iFood e Uber, a atual greve dos técnicos administrativos das Universidades Federais e a paralisação das(os) trabalhadoras(es) dos hospitais universitários federais administrados pela Ebserh revelam a permanência da organização coletiva.

No exterior, chama atenção o ressurgimento das grandes greves nos Estados Unidos, como a dos roteiristas de Hollywood conduzida pela Writers Guild of America em 2023 e a paralisação da indústria automotiva liderada pela United Auto Workers. Mesmo em um país marcado pelo liberalismo econômico, tais mobilizações demonstram que a luta coletiva segue viva.

Para finalizar, quero relatar uma experiência que tive recentemente ao assistir à peça Restinga de Canudos, protagonizada pela Cia de Tijolo e apresentada no Itaú Cultural. A montagem me impactou porque, em vez de se concentrar na figura de Antônio Conselheiro, traz à cena as histórias de pessoas comuns que viveram e resistiram naquele período: agricultoras(es), poetas, rezadeiras(es), cantadoras(es), indígenas, professoras e sobretudo mulheres em seus cotidianos.

O espetáculo suscita reflexões profundamente atuais ao denunciar o eugenismo, valorizar o protagonismo das mulheres nordestinas e lembrar que a Proclamação da República não significou melhoria imediata para a população trabalhadora. Ao contrário, manteve desigualdades e ampliou dificuldades materiais para os de baixo.

Mesmo em condições aparentemente impossíveis, a resistência do povo da Guerra de Canudos permanece inspiradora. Para os de baixo, Canudos não representava atraso, mas a possibilidade concreta de escapar da seca e da fome – a esperança de "rios de cuscuz" e de que "o sertão vai virar mar".

Ao final da peça, a imagem projetada de um sertanejo preso, cercado por policiais mestiços, parecia dirigir seu olhar ao público. Daquela cena, foi-nos lançada uma pergunta incômoda: nestes tempos em que tudo parece impossível, ainda queremos ter voz ativa? E que estamos fazendo para resistir?


Cristiane Lemos é professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenadora do Grupo de Pesquisa e Educação de Trabalho, Educação e Saúde (Gepets) e colaboradora da Rede BrCidades.

 

Este artigo foi originalmente publicado no site Outras Palavras.

 

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Fonte: Secom UFG

Categorias: artigo Humanidades ICB