Por que Goiânia registrou a maior inflação do país em maio?
Choques climáticos, oscilações nos mercados internacionais e mudanças nos ciclos produtivos geram pressões localizadas
Edson Roberto Vieira
Antônio Marcos de Queiroz
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula a inflação oficial do país por meio do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado para 16 áreas de abrangência compostas por regiões metropolitanas e municípios selecionados.
Além do IPCA, o instituto divulga o IPCA-15, também conhecido pelos agentes econômicos como prévia da inflação oficial. A diferença entre os dois indicadores reside no período de coleta: enquanto o IPCA abrange o mês civil completo, o IPCA-15 adota um calendário móvel, capturando a variação de preços entre o dia 16 do mês anterior e o dia 15 do mês de referência.
O IBGE divulgou o IPCA-15 referente ao mês de maio/2026 e Goiânia foi destaque nacional ao registrar o maior índice dentre as 16 regiões apuradas pelo Instituto. Enquanto a média nacional foi de 0,62%, o indicador goianiense foi de 1,41%.
Dentre os nove grupos divulgados pelo IBGE, o grupo de alimentação e bebidas apresentou aumento significativo tanto no Brasil (1,38%) quanto em Goiânia (1,49%). As elevações de preços dos hortifrutigranjeiros são relativamente frequentes nos primeiros meses do ano, em razão da maior incidência de eventos climáticos adversos que afetam a oferta desses produtos.
Mas, embora se esperasse algum arrefecimento dessas pressões ao longo do segundo trimestre, alguns itens continuaram registrando aumentos expressivos em maio. Dos cerca de 400 produtos que o IPCA acompanha mensalmente, a liderança em Goiânia ficou por conta da cenoura (28,31%), batata-inglesa (27,83%) e cebola (19,94%).
Entretanto, nem todas as pressões observadas nos alimentos podem ser atribuídas às condições climáticas que afetaram os hortifrutigranjeiros. No caso das carnes, por exemplo, podem ser destacadas duas razões para a elevação dos preços internos: a primeira é a mudança do ciclo da pecuária. Com preços menores praticados em períodos anteriores, muitos pecuaristas decidiram ampliar o abate de fêmeas, elevando temporariamente a disponibilidade de carne no mercado doméstico.
Por outro lado, com a recuperação dos preços observada neste ano, o movimento se inverteu, aumentando a retenção de matrizes e reduzindo a disponibilidade futura do produto. A esse processo soma-se o crescimento das exportações de carne bovina, especialmente para a China, o que também contribui para restringir a oferta destinada ao mercado interno e pressionar os preços.
O aumento do preço do leite longa vida também pressionou o IPCA-15 em maio/2026. Nesse caso, o início da entressafra associado às condições de seca reduziu a captação de leite cru e elevou os custos de produção no campo, diminuindo a oferta disponível e forçando a indústria e o varejo a repassarem parte desses custos ao consumidor.
Adicionalmente, tensões no Oriente Médio e seus reflexos sobre o mercado internacional de energia estão pressionando os preços do petróleo e dos combustíveis, elevando os custos de transporte e distribuição. Esse canal é particularmente relevante no Brasil, onde o transporte rodoviário responde pela maior parte da movimentação de cargas, afetando potencialmente os custos de distribuição de diversos produtos, inclusive alimentos perecíveis.
Contudo, a dinâmica global do petróleo não explica, isoladamente, o descolamento da capital goiana. O comportamento dos combustíveis constitui o principal fator associado ao diferencial inflacionário observado em Goiânia justamente por refletir uma assimetria regional. Enquanto os preços desses produtos registraram deflação no cenário nacional em maio/2026, ajudando a conter o índice do país, a capital goiana enfrentou uma forte recomposição local. Impulsionado particularmente pelo etanol (16,62%) e pela gasolina (9,67%), o reajuste na cidade gerou o terceiro maior impacto inflacionário de sua história desde o início da série histórica do IPCA-15 na região.
Esses movimentos antagônicos dos preços dos combustíveis em Goiânia e no Brasil não se restringiram a maio de 2026, podendo ser observados desde fevereiro deste ano. Enquanto os preços médios nacionais dos combustíveis já aumentavam em decorrência das tensões no Oriente Médio e de seus reflexos sobre o mercado internacional de energia, em Goiânia ocorria queda desses preços, em razão da maior concorrência regional e de ajustes específicos da dinâmica de mercado local.
De acordo com informações do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sindiposto), os postos operaram com margens mais apertadas nesse período, promovendo campanhas promocionais agressivas ao menos até o final de abril, quando os preços dos combustíveis em Goiânia voltaram a se aproximar dos preços nacionais em maio de 2026. Como resultado, os preços dos combustíveis em Goiânia registraram alta de 9,94% em maio/2026, enquanto, na média nacional, o grupo apresentou queda de 1,41%.
O desempenho da inflação em Goiânia mostra que a dinâmica dos preços continua sendo influenciada por fatores de oferta, muitos deles fora do alcance da política monetária. Choques climáticos, oscilações nos mercados internacionais e mudanças nos ciclos produtivos tendem a gerar pressões localizadas e temporárias, mas com impactos relevantes sobre o custo de vida da população.
Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás, n. 191, abril de 2026.
Edson Roberto Vieira e Antônio Marcos de Queiroz são professores da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE) da UFG.
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Fonte: FACE
Categorias: colunistas Humanidades FACE






