O mal-entendido que aproximou Goiás das estrelas
O pedido de um simples equipamento se transformou na implantação de um dos primeiros planetários do país
Luiz Felipe Fernandes
No fim da década de 1960, o professor José Ubiratan de Moura, docente de Cosmografia do curso de Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG), precisava apenas de um telúrio – um equipamento didático simples, usado para demonstrar os movimentos da Terra em torno do Sol em sala de aula. O pedido, enviado para o Ministério da Educação (MEC), parecia modesto, mas um mal-entendido burocrático transformou a solicitação em um curioso episódio da ciência brasileira.
Isso porque os técnicos do MEC interpretaram equivocadamente o pedido de um telúrio como sendo o de um planetário completo. O equipamento fazia parte de um acordo firmado entre o governo brasileiro e a então Alemanha Oriental, que previa a troca de equipamentos científicos por café brasileiro. Resultado: em vez do pequeno aparelho solicitado, a UFG recebeu um moderno planetário Zeiss Spacemaster, acompanhado de um telescópio Zeiss Cassegrain de 150 milímetros.
O inesperado presente colocou a Universidade diante de um novo desafio: onde instalar um equipamento de grande porte que ninguém esperava receber?
Um novo "brinquedo" no parque
Em um artigo publicado na Revista Planetaria, da Associação Brasileira de Planetários (ABP), o professor Paulo Sobreira conta que os representantes da UFG e da prefeitura de Goiânia imaginaram que o equipamento era "uma espécie de brinquedo". "Ato contínuo, optaram por instalá-lo no Parque Mutirama, um grande parque de diversões, daqueles com carrinho de bate-bate e tudo o mais, bem no centro da cidade".
Foi assim que, em 23 de outubro de 1970, o Planetário da UFG foi inaugurado no parque, tornando-se um dos pioneiros do Brasil. Durante décadas, o prédio sequer possuía número oficial na Avenida do Contorno. Correspondências destinadas ao Planetário frequentemente eram entregues na administração do parque, situação que só foi resolvida anos depois, quando a instituição passou a adotar o número 900 como endereço.
Problemas estruturais
No início, o funcionamento do Planetário da UFG foi breve. Menos de dois anos após a inauguração, a construção começou a apresentar infiltrações, falhas elétricas e problemas no sistema de ventilação da sala de projeção. Em agosto de 1972, um curto-circuito provocado pelas condições precárias do edifício danificou o projetor e obrigou a interrupção das atividades.
Na época, houve interesse de um grupo de militares em transferir os equipamentos para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos. A UFG recusou a proposta e decidiu recuperar o projetor e construir uma nova sede, preservando o equipamento em Goiânia.
Especialistas da Zeiss chegaram a afirmar que o projetor não tinha mais conserto e recomendaram sua substituição. A história mudou graças ao engenheiro Edgar Buhler, ex-funcionário da Carl Zeiss Jena e diretor do Centro Técnico de Manutenção de Aparelhos Científicos (Cetemac), em Porto Alegre. Convencido de que a recuperação era possível, ele desmontou o equipamento, levou-o para o Rio Grande do Sul e realizou o reparo ao lado de sua equipe.
Enquanto isso, o governo de Goiás construiu um novo edifício para abrigar o Planetário, inspirado em projetos existentes em Porto Alegre, Santa Maria e Montevidéu. O equipamento retornou a Goiânia em 1975 e foi reinstalado na nova estrutura. A reinauguração ocorreu em 30 de março de 1977. Da primeira instalação, permanecem originais apenas a cúpula interna e as poltronas da sala de projeção.
De acaso histórico a referência em divulgação científica
Ao longo das décadas, o Planetário da UFG – renomeado em 2017 para Planetário Juan Bernardino Marques Barrio – consolidou-se como um dos principais espaços de popularização da astronomia em Goiás. Além das tradicionais sessões de projeção, passou a oferecer cursos, palestras, atividades para escolas, observações do céu e ações de extensão voltadas à comunidade.
Neste mês de julho, o Planetário está com uma programação especial: as sessões na cúpula estão disponíveis nos períodos matutino (9h30 e 11h) e vespertino (14h30 e 16h), de segunda a sexta.
A venda dos ingressos tem início uma hora antes de cada sessão, com pagamento em dinheiro ou cartão, nos valores de R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Cada pessoa pode comprar até cinco ingressos, presencialmente na bilheteria local, e a capacidade máxima de lotação da sala é de 120 lugares.
O Planetário oferece meia-entrada para professores de todos os níveis de ensino, crianças de 3 a 6 anos e para todos os casos descritos na Lei nº 12.933, de 26 de dezembro de 2013: estudantes, idosos, pessoas com deficiência e jovens de 15 a 29 anos comprovadamente carentes.
É permitida a entrada de pessoas de todas as idades, mas é importante ressaltar que crianças muito pequenas podem se assustar com o som alto ou o ambiente escuro das apresentações. A sala de projeções é climatizada com temperatura em torno de 20 graus. Não é permitida a entrada de alimentos (apenas água).
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Fonte: Secom UFG
Categorias: Planetário UFG Ciências Naturais IF Destaque Notícia 1






