Das ruas aos aplicativos: o precariado mudou de forma, mas a exploração permaneceu
Precarização contemporânea transforma relações sociais em responsabilidades individuais
Luís Augusto Vieira
Nos dois primeiros artigos desta série, tratei de Junho de 2013 e de seus antecedentes internacionais. Agora, é possível deslocar a pergunta: o que aconteceu com parte daquela juventude trabalhadora, precarizada e insatisfeita que ocupou ruas, praças e avenidas no início da década passada? A resposta não é simples, mas uma hipótese parece necessária: o precariado não desapareceu. Ao contrário, ele permaneceu, mas tem mudado de forma, de linguagem, de espaço e de mediação tecnológica.
No ciclo de mobilizações entre 2011 e 2014, em diferentes partes do mundo, jovens, trabalhadores, desempregados, estudantes e setores médios empobrecidos apareceram nas ruas como expressão de um mal-estar social amplo. Havia indignação contra a desigualdade, o desemprego, a precarização da vida, a crise da representação política e a ausência de futuro. No Brasil, Junho de 2013 também expressou parte dessas contradições, ainda que com características próprias.
Mais de uma década depois, muitos desses conflitos não foram superados, mas sim, ganharam novas formas. A precarização do trabalho deixou de aparecer apenas como desemprego aberto, informalidade tradicional ou contratos instáveis. Ela passou a ser apresentada, muitas vezes, como flexibilidade, autonomia, empreendedorismo e inovação tecnológica. A exploração permaneceu.
O trabalho por aplicativo talvez seja a imagem mais visível desse processo. Motoristas, entregadores, freelancers digitais, trabalhadores por demanda e pessoas submetidas a microtarefas mostram que a tecnologia não eliminou a insegurança do trabalho. Em muitos casos, apenas reorganizou essa insegurança por meio de plataformas, algoritmos, avaliações, bloqueios, metas invisíveis e remunerações variáveis.
O trabalhador parece livre porque escolhe quando se conecta. Mas sua renda, seu ritmo, sua permanência na plataforma e até sua visibilidade diante dos consumidores são definidos por regras que ele não controla. A promessa de autonomia convive com a transferência dos riscos para o próprio trabalhador: veículo, combustível, celular, internet, alimentação, acidentes, adoecimento e tempo de espera passam a ser problemas individuais.
Essa é uma das características centrais da precarização contemporânea: transformar relações sociais em responsabilidades individuais. Quando o trabalho falta, a culpa parece ser da pessoa que não se esforçou o suficiente. Quando a renda cai, o problema parece ser a baixa produtividade individual. Quando não há direitos, a ausência de proteção aparece como liberdade. Assim, a exploração torna-se mais difícil de nomear, porque já não se apresenta apenas na figura clássica do patrão visível, do chefe imediato ou do contrato formal.
Mas a ausência de patrão aparente não significa ausência de comando. O algoritmo organiza o tempo, distribui tarefas, define prioridades, classifica desempenhos e pode punir sem explicação suficiente. A subordinação não desaparece; ela se torna mais opaca. A velha exploração do trabalho assume novas roupagens técnicas, gerenciais e digitais.
Por isso, o debate sobre o precariado continua atual. Ele permite compreender trabalhadores e trabalhadoras que vivem sob instabilidade permanente, com pouca ou nenhuma proteção social, renda incerta, jornadas fragmentadas e dificuldade de organização coletiva. Não se trata apenas de uma condição individual, mas de uma forma de existência social marcada pela insegurança.
A passagem das ruas aos aplicativos não significa que as lutas sociais tenham acabado. Significa que parte delas se deslocou para terrenos mais dispersos, individualizados e difíceis de organizar. Se antes a presença coletiva nas ruas permitia reconhecer o descontentamento comum, hoje muitos trabalhadores vivem a precarização de forma solitária, conectados a plataformas, mas desconectados de formas coletivas de proteção e representação.
Esse é um dos grandes desafios do nosso tempo: como transformar sofrimento individual em reivindicação coletiva? Como construir direitos quando o trabalho é fragmentado, mediado por aplicativos e apresentado como escolha pessoal? Como organizar trabalhadores quando o local de trabalho é a cidade inteira, a tela do celular ou uma plataforma digital?
Essas perguntas não são apenas trabalhistas. São políticas, sociais e democráticas. Um país que naturaliza a precarização naturaliza também a insegurança da vida. Um país que chama exploração de empreendedorismo dificulta a construção de direitos. Um país que transforma trabalhadores em usuários isolados de plataformas enfraquece a possibilidade de organização coletiva.
Das ruas aos aplicativos, o precariado mudou de forma, mas a exploração permaneceu. Reconhecer essa continuidade é o primeiro passo para disputar seu sentido. Afinal, a tecnologia pode mudar os instrumentos do trabalho, mas não elimina a pergunta fundamental: quem produz a riqueza, em que condições, sob quais direitos e com que possibilidades de futuro?
Luís Augusto Vieira é professor do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Goiás (UFG) Campus Cidade de Goiás e líder do Motyrõ – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Questão Social e Direitos Humanos na periferia do capitalismo.
Nota do autor: este artigo deriva de reflexões desenvolvidas no trabalho "O precariado entre ciclos: permanências, mudanças e contradições no Brasil, Portugal e no mundo (2011-2014 – 2022-2024)", apresentado no XVIII Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais — CBAS, em 2025.
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Fonte: Campus Goiás
Categorias: colunistas Humanidades Campus Goiás






